Em Alagados, faltou água para apagar o fogo de palafitas em 1998

Incêndio começou após acidente com botijão de gás: 417 famílias ficaram desabrigadas no local, em janeiro de 1998
(Foto: Almiro Lopes/Arquivo CORREIO)

Eram 13h de uma terça-feira, dia 6 de janeiro de 1998. Panelas no fogo, almoço sendo preparado. De repente, suspeita-se, um botijão de gás explodiu. As chamas tomaram conta dos primeiros barracos na região de Alagados, no Uruguai, em Salvador, e uns vizinhos correram para ajudar os outros. Foi logo que as chamas começaram a atingir as primeiras habitações. Quando viram, já era tarde.

O fogo consumiu não apenas alguns barracos mais próximos da explosão, mas mais de 100 barracos que eram sustentados por palafitas – ironicamente, sobre a água. Quando o Corpo de Bombeiros chegou ao local, lembrou a repórter Fernanda Santana em matéria de 2019, 407 pessoas, de 111 famílias, já tinham visto suas casas virarem cinzas.

Na tarde daquela terça-feira, há 22 anos, faltou água para conter o fogo. As famílias foram alojadas por um mês numa escola do Uruguai, mas acabaram tendo que voltar para onde viviam, mesmo sem ter condições para isso.

Esta não foi a única vez que moradores de palafitas viram suas casas destruídas pelo fogo. Em janeiro de 2015, dezenas de palafitas na comunidade da Baixa do Petróleo, em Massaranduba, também foram consumidas pelas chamas. O incêndio começou por volta da meia-noite e se alastrou rapidamente. Ninguém ficou ferido, mas cerca de 50 casas foram destruídas, deixando 72 famílias desabrigadas ficaram desabrigadas.

Os dois bairros citados aqui – Uruguai e Massaranduba, ambos na Cidade Baixa – tiveram seus processos de ocupação em terrenos alagadiços. No livro ‘O Caminho das Águas em Salvador: Bacias Hidrográficas, Bairros e Fontes’, organizado por Elisabete Santos, José Antônio Gomes de Pinho, Luiz Roberto Santos Moraes e Tânia Fischer, há um pouco dessa história.

Sobre o bairro do Uruguai, os autores explicam que lá, assim como outros bairros da Bacia de Itapagipe, surgiu dessa ocupação espontânea em terrenos alagadiços e afirmou-se a partir da luta de moradores por permanecer no local.

“Francisco Aguiar dos Santos, antigo morador do bairro, conta que em torno de trinta anos atrás, as casas da região, em geral, eram de palafitas. Segundo ele, muitas das melhorias empreendidas no bairro são resultados da reunião de esforços da comunidade”, diz um trecho do livro, que foi publicado há uma década.

É no bairro do Uruguai que fica a Igreja de Nossa Senhora dos Alagados e São João Paulo II, inaugurada em 1980, no mesmo ano da visita do papa João Paulo II a Salvador. O papa visitou a comunidade no dia 7 de julho daquele ano e falou aos fiéis. O discurso completo está disponível no site do Vaticano, mas vale a pena destacar aqui um dos trechos.

“Pensei em tantos bairros pobres de Salvador e de todo o Brasil, que gostariam de receber a visita do Papa. O Papa teria um prazer especial em fazer esta visita a cada casa ou barraco onde vivem famílias ou pessoas humildes, às vezes em dura pobreza. Não sendo possível fazê-lo, quero que a visita que agora lhes faço seja também um símbolo, como se entrando aqui eu estivesse penetrando em todos os bairros iguais a este”, disse, aos moradores daquela que era uma das maiores favelas do Brasil.

E finalizou: “Com este apelo às consciências, desejo encorajar o desejo de vocês, que é também o meu, de melhorarem seu nível de vida, para sempre se tornarem: mais homens, com toda a sua dignidade; mais irmãos de todos os homens, na família humana; e mais filhos de Deus, sabendo e praticando o que isso quer dizer. E com grande afeto, abençoo a todos vocês, às suas famílias e a todos aqui dos Alagados, bem como a todos os presentes. O Papa reza por todos; rezem também por ele, principalmente nestes dias em que está no Brasil”. Antes dos Alagados, João Paulo II havia visitado o Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Já em Massaranduba, as casas de palafitas foram construídas sobre o mangue da Península de Itapagipe, na década de 1940, como mostra esta foto do acervo da Fundação Gregório de Mattos (FGM), publicada no ‘Caminho das Águas em Salvador’:

Favela dos Alagados, na região onde hoje está o bairro de Massaranduba, sem data
(Acervo da Fundação Gregório de Matos/Caminho das Águas em Salvador)

A dura realidade dos Alagados, e de outras favelas brasileiras nos anos 1980, aparece na música ‘Alagados’, dos Paralamas do Sucesso, lançada em 1986 no álbum ‘Selvagem?’, o terceiro da banda.

Fonte: Correio