Na larga avenida litorânea

O varal repleto de panos coloridos esticava o olhar do empresário até o outro lado da larga avenida litorânea. Vestígios de pobreza resistiam nos casebres em contraste com os prédios altos construídos há uma década. A visão de uma mulher de seios flácidos sentada na porta de uma das casas distraía ainda mais o homem de negócios.

Pernas volumosas ao redor de uma bacia de alumínio, ela parecia cantarolar alguma canção, as mãos mergulhadas na espuma, a esfregar e torcer peças de roupas. Duas crianças ao seu lado sopravam bolhas de sabão em pequenos aros de plástico. Um senhor esquálido apareceu na porta, dorso nu, e se espreguiçou inteiro.

Enquanto aguardava o início da reunião, em seu envidraçado escritório, diante da Baía de Todos-os-Santos, o empresário pensava em um modo mais humano de comunicar a ação de despejo a famílias como aquela. Aos que podiam pagar, pertenceria o Oceano Atlântico e o ar puro respirado nos quintais dos condomínios de luxo.

Na larga avenida litorânea, passarelas modernas, feitas de concreto e aço, desembocariam diretamente na areia, ligando mansões a praias particulares. O homem de negócios tivera a ideia genial anos antes, e conseguira aprovar projetos arquitetônicos que uniam monumentos públicos a edifícios.

Foi assim que o Solar do Unhão, com seu Parque de Esculturas e toda a extensão do Museu de Arte Moderna, passou a integrar a área exclusiva de lazer de um complexo residencial caríssimo. Debruçados sobre o mar, prédios gigantescos, num golpe de misericórdia, interditaram a última visão da Baía.

Vendidas todas as unidades, em menos de um mês, o empreendimento possuía como atração sobrenatural o fantasma de Pedro de Unhão Castelo Branco, que costumava passear no playground e conversar banalidades com os moradores. O gênio da construção também dera uma nova destinação ao Elevador Lacerda.

Um estacionamento imenso engolira as casas de maus costumes na Conceição da Praia. Na parte superior, onde antes havia a Praça Municipal, ergueram-se quatro imponentes torres envidraçadas, com piscinas individuais nas varandas. Naquela reunião, o homem de negócios pretendia apresentar um novo projeto.

Pensava agora em sugerir a integração entre igrejas seculares e prédios modernos. A iniciativa viabilizaria a preservação dos acervos católicos, muito embora estes ficassem acessíveis apenas aos seus mantenedores. Missas particulares seriam rezadas em templos históricos, transformados em capelas privativas.

Para famílias como aquela, cujo cotidiano colorido o divertira durante a espera, restariam bairros cada vez mais distantes. A mulher, o homem e seus filhos ainda não sabiam, mas deixariam em breve a larga avenida litorânea. Sem alternativa, seguiriam para a vizinhança de outros tantos exilados da cidade.

Fonte: Correio