'Religiosa e tranquila, não merecia isso', diz irmã de jovem morta dentro de igreja

Alegre, tranquila e uma pessoa muito religiosa que não abria mão de ir pra igreja. É assim que os mais próximos descrevem Brenda Conceição do Carmo, 19 anos, jovem morta com um tiro na cabeça enquanto estava em um culto, no bairro de São João do Cabrito, no último sábado (7). A jovem, que era casada e tinha uma filha de 2 anos, sempre foi muito pacífica e via nos cultos a oportunidade de se estar mais perto de Deus, conta a irmã de Brenda, Bianca Conceição do Carmo, 25, de quem era muito próxima. “Religiosa e tranquila, não merecia isso. Ela era da igreja, tem até vídeo na internet dela cantando nos cultos. Brenda era muito tranquila e sempre foi uma pessoa pegada com Deus e não tinha problema com ninguém”, contou.

Bianca também falou sobre a relação que tinha com a irmã, muito ligada a ela e à mãe. Na conversa com a reportagem, afirmou que era “unha e carne” com Brenda.

“Eu era muito apegada a Brenda porque só tinha eu, ela e minha mãe. A gente se cuidava. Vivíamos juntas, uma pela outra. Com a morte dela, eu perco uma das pessoas mais importantes desse mundo pra mim”, declarou.

Amiga de Brenda, Daniele Assunção, 25, fez coro ao depoimento de Bianca e falou da revolta por ter perdido uma amiga em um lugar em que ela ia para encontrar paz. “É revoltante perder ela dentro da igreja, onde ninguém tem nada a ver com a guerra deles. Brenda ia pra lá encontrar descanso, onde ela encontrava calma já que ela tinha muita fé. Ninguém merece levar um tiro onde você vai para procurar paz. Ainda mais ela que era tão fiel”, falou.

Segundo a Polícia Civil, que investiga o caso, Brenda foi atingida por um tiro disparado por um traficante, que passou atirando a bordo de um carro roubado na rua onde fica a Igreja Novo Templo, em São João do Cabrito. Um dos disparos atingiu o portão da igreja e, depois, baleou Brenda na cabeça. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu no local.

Além de cristã, tranquila, alegre e amparo para sua irmã e sua mãe, Brenda era mãe e deixou uma menina, de dois anos que estava com ela no momento em que o tiro a atingiu. Sobre a guarda da criança, a irmã disse que a menina deve ficar sob os cuidados dela, da mãe e de Roberto Pinheiro, 25, pai da filha de Brenda.

“Vamos cuidar da criança. Vai ficar comigo, com minha mãe e o marido de Brenda. Ela já está sentindo falta da mãe, chamando por ela. Só esperamos que ela não lembre de nada porque ninguém merece ver a própria mãe morrer como aconteceu com ela”, disse.

Enterro e protesto
O corpo de Brenda foi sepultado na manhã desta segunda-feira (9) no Cemitério Municipal de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Entre os mais emocionados estavam o marido, Roberto, e o pai, o pedreiro Luis Alberto Silva do Carmo, que mora em Brasília (DF) e viajou mais de 1,4 mil quilômetros para chegar ao sepultamento da filha.

Até a chegada do caixão, Luiz se mostrava abatido com a situação e pouco falava. Mas, ao ver o corpo da estudante, trocou o silêncio pelo choro. “Papai te ama, viu, filha. Papai te ama muito. Saiba que papai te ama pra sempre”, repetia, enquanto tocava o rosto da filha.

Além da dor e tristeza compartilhada por quem estava lá, a revolta e os pedidos por justiça também acompanhavam quem conhecia e amava a jovem. Joseval Conceição, 76, avô de Brenda, desabafou e pediu justiça pela morte de sua neta. 

“Cadê a justiça? Tem justiça pra quê? Vai preso hoje e amanhã tá solto. E a vida do ser humano fica como?  Foi dentro da igreja que ela perdeu a vida. Não estava em festa ou qualquer outra coisa. Queremos justiça e que quem fez isso pague por essa maldade”, declarou.

Joseval também comentou sobre a sensação de insegurança em São João do Cabrito e pediu reforço policial para o local. “Nós queremos segurança. Não temos isso aqui. Quem vai dar a vida da minha neta de volta? Perdeu a vida por causa de disputa de boca de fumo. Matam uns aos outros, chegam atirando e não estão nem aí. Morra quem morrer. Queremos segurança e justiça”, declarou.

A Polícia Militar foi procurada para falar sobre como o policiamento é feito no bairro e se haverá reforço, mas ainda não respondeu.

Depois do enterro, um grupo de amigos e familiares fez um protesto na Avenida Suburbana, no bairro de Plataforma, or cerca de dez minutos. Segundo os organizadores, protestos pacíficos serão feitos até que sejam atendidos os pedidos de mais segurança no local.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio