Faltou pólvora! Disputa em Salvador quase fez Brasil declarar guerra aos EUA em 1864

Muito antes de uma ameaça sem pólvora, mas muita saliva em pleno ano da graça de 2020, faltou pouco para o Brasil declarar guerra aos Estados Unidos 156 anos atrás. O roteiro de um bando de americanos chegando ao Nordeste e, por aqui, causando o maior auê é compartilhado tanto por Bacurau, premiado filme dos cineastas Kleber Mendonça Filho e Julio Dornelles, quanto por um episódio ocorrido na Salvador do século XIX. A diferença fica pela reação dos brasileiros que, ao contrário da ficção, deixaram tudo por isso mesmo. 

O incidente em questão aconteceu em 1864, quando dois navios americanos acharam por bem travar uma batalha em plena Baía de Todos os Santos. Por conta disso, quase o Brasil entrou em guerra com os gringos. O confronto só não teria ocorrido por causa do então imperador Dom Pedro II, que, ao ver o poderio militar rival, achou melhor deixar para lá.

Que maluquice foi essa?

Para compreender os porquês da desistência do imperador é preciso antes entender o contexto histórico. Lá pelos idos de 1860, a terra do Tio Sam estava em um arranca-rabo daqueles por causa da Guerra Civil Americana, disputa travada entre os estados do norte e os do sul, a “União” x “Confederados”.

Mas o que essa guerra americana tem a ver com Salvador? É aí que chegamos ao ano de 1864, quando o combate dos EUA atingiu proporções intercontinentais, levando a disputa para a Baía de Todos os Santos.

A razão da aleatoriedade geográfica do confronto é a soma do acaso com certo desdém das autoridades brasileira. Explique-se: no dia 2 de outubro daquele ano, o navio de guerra Florida, que levava a bandeira dos Confederados, estava indo em direção ao Pacífico quando fez uma parada no porto de Salvador – à época, o maior do Hemisfério Sul.

Photo: CSS Florida

Retrato antigo do C.S.S. Florida (Foto: U.S. Naval Historical Center)

Passaram-se alguns dias e, enquanto abasteciam a embarcação e aproveitavam o tempo livre para passear, os sulistas souberam que, no dia 5, o navio dos rivais nortistas, chamado Wachusett, iria atracar no mesmo porto durante sua viagem de volta aos EUA. 

Com dois inimigos dividindo as águas da Baía de Todos os Santos ao mesmo tempo, logo surgiu um burburinho de que aquilo tinha grande possibilidade de acabar mal. Atento aos rumores que tomavam as ruas soteropolitanas, o então presidente da província da Bahia, Antônio Joaquim da Silva Gomes, resolveu se posicionar sobre o caso. “Não quero ouvir um pio. O primeiro que vier de gracinha vai ganhar de natal uma canhãozada da Marinha Imperial”, teria dito o governante.

O problema é que o conselho do manda-chuva da Bahia parece ter chegado aos ouvidos de Napoleon Collins, comandante do Wachusett, sem muita credibilidade. Quando chegou a madrugada do dia 7, Collins se reuniu com sua tripulação e decidiu que iria partir para cima dos adversários.

Guerra de Secessão secção Bahia

Enquanto a galera da União estava na maldade, a dos Confederados estava mais interessada no entretenimento oferecido na noite da capital baiana. Aquele 7 de outubro era uma sexta-feira, e, como bons turistas, os sulistas estavam “sextando” pela orla de Salvador. Metade da tripulação estava em solo; a outra, que havia curtido a noitada um dia antes, permaneceu no barco.

Aproveitando-se da questionável integridade dos marinheiros rivais, às 3h da manhã, Collins ordenou que sua trupe abrisse fogo e, com canhões e mosquetes, atacou o Florida. Nesse meio tempo, um navio brasileiro se posicionou entre os barcos, ordenando que o ataque cessasse, mas o alerta não foi levado a sério.

O Wachusett se posicionou ao lado do navio sulista e, como num filme de pirata, usou uma prancha para invadir a embarcação rival. Sem saída, os confederados foram obrigados a se render, enquanto outros se jogaram ao mar para pedir ajuda à Marinha Imperial, que chegou a ameaçar posicionar os canhões dos fortes soteropolitanos para atacar o barco rebelde. 

Poucas horas após o ataque, o navio da União zarpou de Salvador levando o Florida na bagagem como prêmio de guerra. Além disso, cinco confederados foram mortos e dezenas ficaram feridos. 

Photo: USS Wachusett, 1867

Wachusett, navio responsável pelo ataque (Foto: U.S. Navy Historical Center)

Alguns dias após o ataque, surgiu a notícia da real razão que motivou Collins a cometer esse crime de guerra – entrar em combate num território neutro. A Associação Comercial de Nova York tinha prometido um prêmio de 500 mil pesos – que, para evitar as dificuldades de correção monetária, leia como ‘muito dinheiro’ – para quem afundasse ou capturasse o Florida, que era um dos principais navios da marinha confederada.

Reações ao ataque

Se a Marinha Imperial pouco fez para evitar confronto ultramarino da Guerra Civil Americana, a mesma calmaria não foi vista pela população baiana e pelos jornais nos dias seguintes. Uma manifestação chegou a acontecer na frente do consulado dos EUA em Salvador, com populares apedrejando o local e exigindo que Dom Pedro II declarasse guerra.

Entre os diários da época a reação, foi igualmente negativa. O Jornal da Bahia do dia 8 de outubro de 1864 começou assim a sua reportagem para falar sobre o caso: “Traição, insulto, covardia. Mais um ultraje temos a registrar feito à nossa soberania e mais um menosprezo aos nossos meios de defesa”.

Reportagem do ‘Jornal da Bahia’ reproduzida pelo ‘Diário do Rio de Janeiro’ (Foto: Reprodução / Hemeroteca Digital Brasileira)

Já o “O Constitucional”, num tom mais opinativo e ácido, também defendeu a declaração de guerra aos americanos e o reconhecimento dos Confederados como pátria independente – decisão que agradava a elite soteropolitana, pois os sulistas tinham mentalidade similar à brasileira na época, com direito a defesa da escravidão.

“Se em vez de passar panos quentes, as autoridades da Bahia tivessem queimado pólvora acompanhada de balas e metralhadoras, as reações do povo seriam de entusiasmo e não de desgosto e repugnância”, disse o periódico.

“No tempo de colônia, nem quando Portugal era subjulgado pela Espanha durante a União Ibérica, o Brasil sofreu do estrangeiro os insultos que tem sofrido após a independência. Qual a causa disto? Não é o povo, que lhe sobra valor e entusiasmo, mas sim o governo. Enquanto utilizarmos apenas da diplomacia e não partimos para o ataque, seremos eternamente ridicularizados por outras nações, inclusive as ‘republiquetas’ do Rio da Prata”, completou. 

Detalhe que, apenas dois meses após o episódio com os americanos, o império declarou guerra ao Paraguai.

Pressionadas, as autoridades imperiais subiram o tom na discussão com os americanos. Em carta enviada ao cônsul americano, João Pedro Dias Vieira, senador e ministro da Marinha, exigiram reparação pelo ato de guerra cometido pelo navio da União, pagamento de multa, entrega do Florida às autoridades brasileiras e a demissão do capitão Collins.

Na resposta, em tom diplomático, o cônsul James Watson Webb disse que iria tentar atender as solicitações brasileiras. Acontece que, nos meses seguintes, o Florida foi afundado em condições ‘suspeitas’, Collins foi promovido e o governo brasileiro jamais foi indenizado.

Apesar da pressão popular e do desdém dos ianques, Dom Pedro II decidiu, como diria o redator do “O Constitucional”, colocar panos quentes na situação. Sabendo que uma guerra contra os americanos seria suicídio, ele optou pela popular arregada.

Bafafá chegou na gringa

Levou algumas semanas para que a notícia subisse o Atlântico. Mas, tão logo ciente do caso, a mídia americana noticiou o bafafá. Primeiro, o New York Herald reproduziu um comunicado do governo americano que jurava de pé junto que, passada a guerra, o navio seria encaminhado ao Brasil e que o país receberia todas as indenizações devidas – algo que, como dissemos antes, jamais foi feito.

Já o New York Times seguiu uma linha afrontosa – e, infelizmente, verossímil -, dizendo que o episódio era um ato de guerra, mas que os Estados Unidos nada deveriam temer em um possível enfrentamento com o Brasil, pois eram muito mais fortes.

*Com orientação do editor Wladmir Pinheiro.
**Agradecimento ao jornalista e pesquisador Nelson Cadena pelo auxílio durante a pesquisa para a reportagem.

Fonte: Correio