Jardim Botânico possibilita aprender in loco, dizem professores

A estudante do ensino médio Gabriela Araújo tem 16 anos e recorda com se fosse ontem o dia em que visitou o zoológico de Salvador pela primeira vez, há alguns anos. Ela contou que aprendeu nomes científicos de alguns animais, hábitos e modos de vida dos bichos e, em casa, compartilhou a novidade com os pais e com as duas irmãs mais novas.

“Foi uma experiência nova para mim. Eu nunca tinha visto tantos bichos diferentes em um mesmo local. Lembro que ficamos um tempão observando as cobras. A professora aproveitou que a gente estava interessada e falou sobre a alimentação e o modo de vida delas. Foi uma aula maravilhosa”, contou Gabriela.

É esse tipo de interação que os professores esperam que o novo Jardim Botânico de Salvador ajude a desenvolver nos estudantes. A unidade fica no bairro de São Marcos, estava passando por reforma há um ano, e foi entregue nesta quinta-feira (12). São 61 mil representantes de espécies de plantas, presentes no bioma brasileiro e estrangeiro, que estão à disposição para visitas, pesquisas e estudos.

Educação
Ricardo Faria leciona para estudantes do ensino médio e em cursinho pré-vestibular, e contou que o processo de aprendizado costuma ser mais bem sucedido quando acontece de forma empírica. Quando os estudantes têm acesso à planta, e podem sentir a textura, o cheiro e as cores do vegetal, a absorção do conhecimento é mais rápida que na sala de aula, onde há apenas o desenho no quadro ou no livro.

“Um acervo rico é importante porque ajuda os estudantes a entenderem a diversidade de onde a gente vive. É bom que isso venha acompanhado de um projeto para não ficar muito solto. É importante que a escola faça um tour pelo Jardim Botânico e explique a importância desses centros. Muita gente sabe como funciona um museu, mas não sabe o que é um herbário, por exemplo, que é um museu de plantas”, afirmou.

O professor Ricardinho, como é conhecido entre os estudantes, contou que nesses passeios é possível apreender sobre sustentabilidade, produção de alimentos, reprodução, extinção de espécies, ecossistema, desmatamento, mudanças climáticas, dentre outros assuntos. Ele frisou a necessidade de relacionar esses conteúdos com a vida humana, e contextualizar o conhecimento sobre os vegetais.

“Quanto mais cedo a gente conscientizar esses meninos e meninas sobre a importância das plantas para o nosso ambiente e para uma convivência um pouco mais sustentável, melhor. A gente pode ter retornos até econômicos. Às vezes, ouvimos que para ter uma economia forte e um país que se desenvolve economicamente é preciso uma situação antagônica em relação à conservação, e não pode ser assim. Hoje em dia, o mundo interior discute conservação e as plantas estão muito inseridas nesse debate”, disse.

Os educadores acreditam que a reabertura do Jardim Botânico de Salvador pode ajudar a população a entender a necessidade da preservação das matas. A professora Andreia Sarraf leciona para estudantes da rede pública e contou que quando precisa trabalhar temas relacionados às plantas, recorre às árvores que estão mais próximas da escola. Para ela, a capital precisa de mais espaços com riqueza de espécies.

“Sair da sala de aula é sempre um ganho. Poder desbravar, ir para o campo, principalmente na biologia, é um ganho absurdo. Eu digo sempre aos meus alunos que quando a gente sai da sala de aula e vai para um anfiteatro, por exemplo, o olhar já muda. Poder trabalhar in loco a botânica e a fisiologia é um ganho imensurável. É sair do quadro para vivenciar o aprendizado”, afirmou.

Funcionamento
O novo Jardim Botânico será administrado pela Secretaria de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência (Secis). O titular da pasta, João Resch, disse que o local será usado para pesquisa e contemplação.

“Esse espaço possibilita o maior entendimento do nosso bioma, um bioma que tem sofrido muito nos últimos anos com a devastação. É um legado para a cidade. É muito importante ter esse equipamento em funcionamento. São 61 mil exemplares de espécies da mata atlântica, cerrado, catinga, e diversos outros biomas. O pesquisador ou estudante vai poder analisar esse material, junto com nossa equipe técnica”, disse.

O funcionamento acontece das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira. A prefeitura estuda a possibilidade de abrir o espaço também aos sábados, mas, por conta da pandemia, grupos de estudantes e passeios escolares ainda não estão autorizados.

O local tem viveiro de plantas, setor de programas e pesquisas, laboratórios, espaço de coleções vivas, acervo científico, salas administrativas e de curadoria, herbário, auditório, e área semicoberta para atividades diversas com arquibancada. Existe também espaço digital, hall de exposições, trilha, e uma escultura do artista plástico Bel Borba. São 160 mil metros quadrados, sendo 2,2 mil m² de áreas construída, e o investimento foi de R$ 10 milhões.

Fonte: Correio