Delegada do caso Beto Freitas diz não sentir pressão em investigar Carrefour

A investigação sobre o homicídio de Beto Freitas, 40, espancado até a morte no Carrefour em Porto Alegre é liderada pela delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Porto Alegre.
Há 20 anos na Polícia Civil, ela é considerada uma profissional de perfil técnico e discreto. Portanto, nunca fala abertamente sobre suas preferências políticas.

Bertoldo lidera uma equipe formada por 11 agentes, entre escrivães e inspetores. A maioria deles é formada por homens—nove, no total; além de duas mulheres.

Quem entra no Departamento de Homicídios, no Palácio da Polícia Civil, no cruzamento das avenidas João Pessoa e Ipiranga, se depara com o vai e vem dos agentes portando seus distintivos dourados, indo ou voltando de cumprimentos de mandados de busca e apreensão, coletando provas e depoimentos.

“É tranquilo. São todos parceiros. Todo mundo sabe que a decisão final é minha, mas são discussões conjuntas, com diálogo”, diz Bertoldo sobre comandar uma equipe majoritariamente masculina.

A equipe é composta apenas por pessoas brancas. “Como em qualquer profissão, infelizmente, ainda se vê mais brancos. Essa é a realidade desta delegacia, mas outras possuem profissionais negros”, diz a delegada.

Bertoldo ressalta que, por sua área de abrangência, a delegacia costuma trabalhar em casos que envolvem minorias, como população LGBTI e pessoas em situação de rua. “É uma equipe muito sensível a essas questões sociais. É corriqueiro que os agentes sejam elogiados pelo trato respeitoso com as pessoas, sempre tratando todos com dignidade”, destaca.

Investigando homicídios, a equipe é habituada a cumprir mandados de busca e apreensão em casa de suspeitos de assassinatos. “Se mantém o respeito com todos, inclusive com os suspeitos”, relata.

Em um caso como o da morte de Beto Freitas, um homem negro agredido por brancos, a discussão do racismo estrutural veio à tona em todo o país. A delegada investiga se houve crime de racismo ou injúria racial no caso de Beto, mas ainda não há evidências desse tipo de crime, que agravaria o crime de homicídio doloso triplamente qualificado. Isso não exclui, ressalta ela, o racismo estrutural presente na sociedade.

Além do debate em torno do racismo estrutural, a delegada diz que não se sente pressionada pelo envolvimento de uma rede multinacional de supermercados no caso de Beto Freitas, o Carrefour. “Se fosse num mercado pequeno, teria valor idêntico”, diz.

Na coletiva de imprensa, onde foi a anunciada a prisão da fiscal do Carrefour Adriana Alves Dutra, Bertoldo foi elogiada pela delegada-chefe da Polícia Civil, Nadine Anflor, 44. Ela é a primeira mulher a chefiar a corporação gaúcha em 179 anos de história e também diz ser feminista. Anflor elogiou a delegada por investigar “com rapidez e dentro da lei”.

Natural de Palmeira das Missões, cidade de 33.131 habitantes no noroeste gaúcho, a 312 km de Porto Alegre, Bertoldo já atuou como delegada nas cidades de Farroupilha, Caxias do Sul e São Leopoldo. Mas sempre quando pode retorna à sua terra natal para visitar os pais, que ainda vivem por lá.

Formada em Direito há 22 anos pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), ingressou na Polícia Civil em 2000. Um ano depois, começou a carreira como escrivã, função que ocupou até 2008, quando se tornou delegada.

Atuou na delegacia de Crimes Ambientais, onde fiscalizava principalmente empresas que desobedeciam a legislação da área. “Já tinha bastante consciência ambiental, mas ali percebi o impacto negativo. Uma empresa pode causar degradação ambiental em função do lucro”, conta.

Em 2015, passou a atuar na delegacia de Crimes Informáticos. A experiência, conta Bertoldo, a tornou precavida com a exposição de dados pessoais na internet. “Não tenho Facebook, não tenho LinkedIn. O que eu tenho é um Instagram, com perfil fechado, onde publico pouca coisa”, diz.

Ela mostra à reportagem o que posta no Instagram. A maioria das imagens é relativa ao trabalho, com fotos da sua equipe e homenagem a seu grupo de trabalho. Ela é reservada em informações sobre a família, por questões de segurança.

Bertoldo também foi delegada plantonista, em um regime de trabalho com 24 horas a postos e as 72h seguintes de folga. Mas foi em novembro de 2016 que, nas suas palavras, “realizou seu sonho” de trabalhar no Departamento de Homicídios.

“Esta é a minha maior satisfação profissional. Um homicídio é o crime mais grave. Um homicídio é contra a ordem natural da vida. Nos empenhamos em todos os casos, consumados ou tentados, para esclarecê-los e dar respostas às famílias”, diz.

Sobre o caso de Beta Freitas, a delegada afirma que “nada justifica” a violência praticada contra ele. “Muito se fala sobre a vida pregressa da vítima, sobre ter causado algum embaraço anterior no supermercado. Apuramos tudo para entregar o inquérito mais completo possível à Justiça. Mas nada muda o teor da violência. A reação foi desproporcional”, diz.

Fonte: Agencia Brasil