Projeto revela bastidores, histórias e a rotina no TCA

Você sabia que o Teatro Castro Alves (TCA) funciona 24 horas e que se entrar lá vai encontrar não só gente ensaiando, mas costurando, serrando na carpintaria e pintando cenários e roupas que vão para o palco? Sabia que dentro do complexo existe um elevador enorme que já transportou até o calhambeque de Roberto Carlos? E que cerca de 400 profissionais circulam pelo espaço de 10 andares?

Essas e outras curiosidades podem ficar ainda mais evidentes com o TCA de Perto, projeto que prevê visitas educativas e gratuitas durante seis meses, em 2021, pelo teatro construído em 1958. Estreitar os laços entre a sociedade civil e os espaços de cultura é o objetivo da ação selecionada pelo Programa Matchfunding BNDES, edital dedicado a patrimônios tombados.

Mas para tirar a ideia do papel, o TCA precisa arrecadar R$ 50.833,33 até 20 de dezembro. Por isso, uma campanha de financiamento coletivo está disponível no site da Benfeitoria: a meta mínima é exigida pelo edital para que o projeto se concretize. Ou seja, é tudo ou nada.

Apenas se chegar ao valor é que o BNDES vai triplicar o montante arrecadado e doar o necessário para completar a meta final de R$ 152.500. As doações vão de R$ 15 a R$ 5 mil, com recompensas como fotos históricas do complexo, pôster, camisa e um concerto de câmara da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba).

Conhecer o interior do TCA e descobrir o que acontece nos bastidores é o que propõe o projeto que terá visitas em português, libras e inglês, de terça a sábado. Ou seja, ver de perto o cotidiano da Osba e do Balé Teatro Castro Alves, como são construídos cenários e figurinos, como são os camarins e até mesmo descobrir histórias curiosas que existem por lá.

Fantasma
“Dizem que tem um fantasma que toca piano na orquestra. Eu andava por esses corredores todos à noite, no escuro, mas nunca vi, nem escutei. Mas tem gente que jura de pé junto que tem alguém que toca piano na madrugada, não sei se é verdade”, ri a ouvidora do TCA Martha Cardoso, 63, que há 26 anos trabalha no complexo e há 40 na Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), responsável pelo TCA.

Martha acredita que o TCA de Perto vai trazer à tona o prazer da experiência ao vivo. Ver a plateia pela visão do palco “chega a ser arrepiante”, conta. A ouvidora ressalta, ainda, que há um encantamento em ver a roda girar: a necessidade de funcionar 24 horas, por exemplo, vem da demanda de espetáculos que passam pelo teatro. Às vezes é necessário desmontar um cenário mais complexo no domingo para criar um novo na terça. 

Passear pelos corredores e pelos andares que ficam entre outros andares também acaba sendo uma atração. “Se você não conhecer bem o teatro, você se perde. É um mundo! As pessoas vão ter a grande oportunidade de vivenciar. Não é nem conhecer, mas vivenciar”, comemora. Empolgada, Martha manda seu recado: “Já disse que não me aposento. Vou virar semente!”, gargalha.

Carybé
Além das visitas guiadas, o orçamento do TCA de Perto vai financiar o restauro de duas obras que estão em exposição permanente no Foyer do TCA e são assinadas por artistas veteranos: O Cangaceiro, de Mário Cravo Jr. (1923-2018), e o painel Fundação da Cidade de Salvador, de Carybé. (1911-1997).

Quem está à frente da campanha para viabilizar o TCA de Perto é a Associação Amigos do Teatro Castro Alves (ATCA), organização social sem fins lucrativos voltada para o desenvolvimento do teatro. A ideia é que esse seja um projeto piloto para uma ação definitiva. Mas não da forma como já vem sendo feita, com visitas esporádicas, principalmente de estudantes de arquitetura e gestores.

A proposta é criar circuitos temáticos que incluam outros públicos. “Circuitos que contemplem majoritariamente o aspecto lúdico e seja também voltado para turistas que visitam a cidade e seja mais acessível para outros estudantes”, explica Rodrigo Figueiredo, 35, assessor de desenvolvimento institucional da ATCA.

O objetivo da ATCA é colaborar com o TCA, explica Rodrigo, que reconhece “a escassez de recursos da pasta da cultura”. “O serviço de visitas é prestado pelo teatro, mas não é amplo. Apenas sob demanda, porque a gente não tem braço. Não tem como o estado dar conta de tudo”, pondera. Apesar do apoio da Funceb e da Secretaria de Cultura da Bahia, o edital se fez necessário, defende. “É a oportunidade para a gente somar forças”, resume.

Fonte: Correio