Que dezembro será esse? Aumento de casos de covid-19 liga alerta até para ceia natalina

Era a tradição da família da escrivã Hosana Carneiro, 50 anos: um Natal bem ao “estilo Réveillon”. Primeiro, ainda na noite do dia 24 de dezembro, fica só a família, na casa dela, em Riachão do Jacuípe. Depois, a partir das 22h, a filha assume o comando – aniversariante do dia 25, ela costumava receber mais de duas dezenas de amigos para comemorar a nova idade até o dia amanhecer. 

“É um reggae muito diversificado, com karaokê, música baiana”, explica. Mas, com a pandemia da covid-19, ela sabe que as coisas não vão poder ser desse jeito em 2020. Agora, tenta encontrar uma forma de não deixar a data passar em branco, pelo menos entre a família. “Esse ano, não sei como vai ser. A gente ainda está estudando como vai fazer”, admite Hosana. 

A preocupação não é sem motivo. Se o mês de dezembro é quando tradicionalmente amigos e famílias se reúnem para confraternizações de fim de ano, amigos secretos e a famigerada ceia natalina, agora o mês deve começar no sinal amarelo para o aumento dos casos de coronavírus em todo o estado. 

Para autoridades de saúde, não há dúvidas: esse é um momento crucial para evitar aglomerações. A forma como a população se comportar nas próximas semanas é que vai determinar o caminho da pandemia. O último relatório do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, divulgado no dia 17 de novembro, também já apontava esse temor, diante da situação atual: os pesquisadores falam em um alerta “tendo em vista as festas de fim de ano que estão chegando”. 

Por isso, a subsecretária de Saúde do estado, Tereza Paim, lembra que, ainda que seja uma época festiva, estamos vivendo o tal “novo normal” – que inclui o uso de máscara e o distanciamento físico. 

“Temos tentado incentivar que as festas sejam por videoconferência, porque a festa de fim de ano geralmente é com a família. A gente não quer levar doença para a família, mas isso vai acontecer se não tiver parâmetros bem definidos”, diz a subsecretária. 

Leitos
Os números atuais justificam esse temor em todo o Brasil. Esta semana, o país alcançou a maior taxa de transmissão da covid-19 desde maio. Segundo o Imperial College de Londres, o índice passou de 1,1 para 1,3. Em Salvador, no último dia 18, a taxa tinha chegado a 1,49, de acordo com um levantamento da Rede Covida, coordenada por pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Esse valor fica no mesmo patamar de alguns dias dos meses de abril, maio e junho, quando as notificações só cresciam. 

“As pessoas acharam que o vírus não estava mais circulando entre nós”, analisa a subsecretária, que faz uma comparação com países do hemisfério Norte. Já vivendo a segunda onda, é possível que o que tem acontecido por lá seja um prenúncio do que está por vir. 

Por aqui, há outra constatação: além de as aglomerações, especialmente da vida noturna, terem aumentado, o número de pessoas que deixou de usar máscara ao sair de casa também tem crescido. O Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês), uma entidade ligada à Universidade de Washington, em Seattle, nos Estados Unidos, projeta que o uso de máscaras na Bahia tenha ficado em torno de 63% no mês de setembro. Em junho, mês em que houve o maior percentual estimado, foi de 78%.

Mas não é preciso procurar muito para encontrar gente sem o equipamento de segurança por aí. No dia do primeiro turno das eleições, inclusive, o CORREIO mostrou esse cenário ao lado de alguns colégios eleitorais de Salvador: pessoas aglomeradas, sem máscara, bebendo ou fazendo boca de urna em bairros da cidade

Para a subsecretária Tereza, a queda no uso de máscaras pode ter consequências graves nos futuros índices de covid-19 no estado.

“A Bahia foi pioneira nisso, o que se refletiu nas taxas de ocupação. Aqui, a gente teve uma taxa de letalidade baixa e não teve ninguém morrendo na fila de espera. Mas, com essa quebra, esse cansaço, o imediatismo que a população teve nessas últimas semanas, a gente fez a previsão de que em mais ou menos 15 dias, teríamos o reflexo disso”, analisa. 

De fato, a Bahia sempre teve índices maiores do que a média do Brasil quanto ao uso de máscaras. O máximo no país foi de 75%, também em junho. A projeção do IHME para setembro foi de 60%.

Novembro perigoso
Esse reflexo já está nos números atuais. Nesta sexta-feira (27), a taxa de ocupação de leitos de UTI para covid-19 no estado era de 61%, enquanto na última quarta-feira (25), houve o segundo maior índice de novos casos confirmados do mês: 3.123 novos diagnósticos positivos. O número só é menor do que o dia 5 de novembro, quando houve 3.377 confirmações. 

Já em Salvador, a ocupação dos leitos de UTI estava em 65%. Ainda nesta sexta-feira, o prefeito ACM Neto chegou a determinar a reabertura de 30 novos leitos, para manter o percentual menor do que 60%. A prefeitura também anunciou a volta da testagem em bairros e distribuição de máscaras a partir da próxima semana. 

Essa mudança de quadro – quando os casos voltaram a aumentar – começou a ser notada pelos cientistas da Rede Covida no dia 4 de novembro. Segundo a pesquisadora Juliane Oliveira, doutora em Matemática e uma das responsáveis pela modelagem matemática da iniciativa, a tendência veio primeiro na capital. 

Após semanas de queda, especialmente desde setembro, o crescimento foi uma surpresa. De certa forma, havia uma expectativa de que, com a proximidade do verão, os casos diminuíssem – como aconteceu no verão europeu e como normalmente ocorre com a maioria das doenças respiratórias. Mas não foi o que houve. 

“Esse aumento de casos alertou para um possível risco de segunda onda. É um fenômeno que lembra o início da epidemia, incluindo identificar quais são as medidas que têm que ser tomadas, qual é a situação social agora. Estamos entrando em um momento também típico de festas para dar um gosto ao Carnaval e também às festas religiosas”, explica Juliane.

O ciclo de festas populares em Salvador começaria no dia 4 de dezembro, com a celebração para Santa Bárbara. No entanto, também nesta sexta-feira, a prefeitura anunciou o cancelamento dessas festas, incluindo a Lavagem do Bonfim e a festa de Iemanjá. É possível que exista alguma celebração simbólica, mas sem a participação de uma multidão. 

De quinze dias para cá
Uma das pessoas que entrou para essa estatística do aumento de casos de covid-19 em novembro foi a estudante de medicina Manuela Leal, 33. Ela começou a ter sintomas no dia 6 deste mês. Assim que sentiu a congestão nasal e as dores no corpo, suspeitou da covid-19. Nos dias que seguiram, vieram os outros: cansaço, tosse e perda do olfato e do paladar.

Manuela tem mantido o isolamento desde o dia 18 de março, quando suas aulas presenciais na faculdade foram suspensas. No entanto, o noivo trabalha em um escritório e, mesmo usando máscara, acabou sendo infectado depois que um colega de trabalho contraiu o vírus.

“Ele fez o isolamento, mas eu já tinha entrado com contato com ele. Não saí para nada nesses meses todos, só para mercado e farmácia. Não vou a um restaurante ou a uma festa há oito meses, mas, ainda assim, acabei pegando”, conta. 

Como ela mora com a mãe e o noivo, assim que houve a suspeita do diagnóstico, o casal saiu da casa para proteger a mãe dela, por ser idosa. Foram para a casa da sogra dela, que, inclusive, já tinha tido a covid-19. Os avós do noivo morreram este ano em decorrência do coronavírus, assim como uma tia-avó. 

Por isso, Manuela sempre teve medo de ser infectada. Além da família do noivo, ela conhece mais gente que teve a doença. Mas, entre setembro e outubro, reparou que haviam parado de chegar os relatos de que mais alguém tinha adoecido. Até que, nos últimos quinze dias, mais uma mudança. Desde então, já soube de cerca de dez conhecidos que estão com covid-19. 

“Acompanho muito a parte médica, porque é do meu interesse e vejo que, após agosto, setembro, que foi um período de queda, a população relaxou um pouco. As medidas de segurança da prefeitura e do governo também relaxaram, porque as praias abriram, os bares abriram, a vida foi voltando ao normal, entre aspas”, diz. 

Mesmo assim, ela imaginava que chegaria o momento em que os casos voltariam a aumentar. Por isso, pretende fazer apenas uma ceia de Natal pequena em casa, só para a mãe, dois irmãos e os sobrinhos. A família do noivo, que costuma fazer algo maior, não pretende fazer a celebração dessa vez. “O vírus está aí. É difícil você não estar exposto se você sai, se encontra outras pessoas. Em um minuto, você falou com outra pessoa e pegou”, analisa. 

Para a virologista Andréa Mendonça Gusmão, que tem pós-doutorado em Virologia e é professora da UniFTC e da Ufba, é preciso pensar em alternativas seguras às confraternizações, ainda que sejam apenas da família que mora na mesma casa. 

“Acho que as confraternizações vão acontecer, de forma inevitável. Podem até reduzir, mas é difícil dizer para que as pessoas não se encontrem, não se vejam”, pondera a virologista. 

Por isso, ela ajudou o CORREIO a preparar um guia de regras práticas que podem ajudar a quem for se reunir com a família para o Natal (veja abaixo). Mas, acima de tudo, é preciso ter bom senso. 

“Uma prevenção muito eficiente é o distanciamento social. Pode ver, conversar mas manter os dois metros de distância, deixando o ambiente arejado. O ideal é não usar ar-condicionado porque ele acaba carregando partículas virais”, explica. 

Com a situação do jeito que está hoje, casos podem chegar a perto de um milhão em menos de dois meses
Ainda não dá para dizer que a Bahia está vivendo uma segunda onda da pandemia da covid-19. Nisso, os especialistas ouvidos pelo CORREIO são unânimes. No entanto, a projeção não é otimista. De acordo com os pesquisadores do Portal Geocovid-19, se os níveis de distanciamento social se mantiverem no mesmo patamar que estão hoje, em cerca de 50 dias, os casos no estado podem aumentar até 2,5 vezes mais. 

Isso significaria dizer que, se hoje temos pouco mais de 392 mil casos confirmados no estado, esse número pode chegar perto de um milhão de infectados daqui a menos de dois meses. Eles também identificaram um aumento dos índices de contaminação e de óbitos no início de novembro, como explica o coordenador do projeto, o professor Washington Rocha. 

“A gente faz uma projeção a partir de dois cenários: um com supressão e o outro sem supressão. Nesse último caso, é uma situação em que há baixo isolamento social, com fluxo contínuo de tráfego, transportes, trânsito entre as cidades”, explica ele, que é geólogo e professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Terra e do Ambiente.

Quando há um ajuste da fórmula para quando há medidas que equivaleriam a um lockdown ‘parcial’, como foi feito em muitos municípios do estado há alguns meses, ainda assim é possível identificar uma nova onda de casos – só que menor. 

“O risco de uma segunda onda não é mais apenas um risco. Ele já é um fato. O que não se sabe ainda é qual será a intensidade dessa segunda onda”, analisa o professor. 

De fato, os índices de distanciamento social caíram. Só para dar uma ideia, de acordo com a agência InLoco, que faz o monitoramento do percentual de isolamento a partir da movimentação de celulares, o dia 1º de março, um domingo em que a pandemia ainda chegava ao Brasil, o índice era de 42%. Na segunda-feira, 2, um dia útil – com pessoas saindo para trabalhar e escolas funcionando, o percentual era de 26% de isolamento. 

Duas semanas depois, no primeiro domingo após as medidas de distanciamento terem começado, no dia 22, o índice já chegava a 63% no domingo. Na segunda-feira seguinte, dia 23, a taxa foi de 54%. 

Mas, agora, em novembro, a maioria das taxas nos 22 primeiros dias do mês ficou abaixo dos 40%. A média entre eles foi de 34,5% de isolamento social. 

“Piorou muito nas duas semanas que antecederam as eleições, porque a gente viu cenários de aglomeração que certamente vão repercutir nesses índices. A gente está num cenário de maior circulação do vírus. Em geral, o isolamento está baixo, mas temos visto precauções em alguns ambientes. Mesmo assim, provavelmente a gente vai para um cenário de proximidade de uma situação de fluxo liberado, o cenáriok sem supressão”, diz o professor Washington. 

Vai confraternizar? Confira o guia para uma reunião mais segura

Acima de tudo, é preciso ter bom senso. Especialistas reconhecem que é difícil dizer às pessoas para não se encontrar e que, eventualmente, muitas reuniões familiares vão acontecer. Mas, se elas são indispensáveis, para alguns, o jeito é tentar se proteger – e proteger os outros – ao máximo. 

Por isso, a virologista Andréa Mendonça Gusmão, professora da Ufba e da UniFTC, deu algumas dicas de normas que podem ser seguidas para que a ceia natalina se torne mais segura. 

  • 1) Dá para evitar o encontro? Usamos plataformas online o ano inteiro, então, uma boa pedida para fugir de aglomerações é sempre fazer a reunião de forma virtual. 
  • 2) Na noite do Natal, se a família é muito grande, o jeito é dividir os núcleos. É difícil estimar o número máximo de pessoas, mas é preciso ter bom senso: dez pessoas pode ser um número pequeno para uma casa com um grande espaço ao ar livre, mas os níveis de perigo podem aumentar muito em um apartamento pequeno. 
  • “Mas aquela confraternizações grandes, de anos anteriores, chamando a empresa inteira, a família inteira, ou várias famílias e os amigos mais próximos… Isso tem que ser evitado. Tem que ter cuidado para programar esse encontro”, diz a virologista. 
  •  3) Evitar abraços e contato: a melhor saída é sempre o distanciamento social, de preferência a dois metros da outra pessoa. Se a família está morando junto, convivendo junto, tudo bem. Mas se vem um integrante de fora, é melhor se cumprimentar com o toquinho de cotovelo. 
  • 4) Um núcleo familiar que mora na mesma casa vai fazer a ceia junto, mas um filho ou uma filha que mora em outro lugar pretende vir também. Pode? Uma saída é fazer um teste para saber se está com covid-19 dois dias antes, como está sendo adotado em lugares como Fernando de Noronha ou países como Portugal, para cada pessoa que chega. 
  • Esse teste deve ser, de preferência, o RT-PCR – o teste rápido, aquele encontrado em farmácia, normalmente só detecta o vírus no 7º ou 8º dia dos sintomas. Mesmo assim, nem o RT-PCR é 100% seguro, porque ele costuma dar positivo só a partir do 2º dia. 
  • Além disso, como pondera a professora, às vezes, quem está assintomático pode ter um resultado negativo nesse teste. “Isso não significa que a pessoa não está infectada. Pode ser simplesmente porque está na janela molecular, que é o período em que o indivíduo se infectou. É um critério, mas não dá 100% de segurança. Então, se você for estar com uma pessoa muito debilitada, é melhor manter o distanciamento social, mesmo com o teste negativo”. 
  • 5) O álcool em gel 70 deve ser utilizado com frequência. Em toda a reunião, é preciso lembrar de higienizar as mãos com regularidade e evitar tocar o rosto. 
  • 6) Cuidado com os copos! Às vezes, numa reunião, as pessoas se confundem e acabam pegando os copos de outra pessoa. Nesse contexto, isso pode ser muito perigoso. Então, uma sugestão é fazer marcações no copo de cada pessoa – utilizando adesivos, por exemplo. 
  • 7) Bom senso no uso das máscaras: Assim como tem acontecido nos bares e restaurantes, é recomendável tirar a máscara apenas na hora da alimentação, que também é um dos momentos que requer maior cuidado. 
  • “O ideal, o correto é usar a máscara. Mas como você vai comer, beber e sempre vai ter esse momento de alimentação, que é o de maior risco, é preciso manter a distância aí. Depois, põe a máscara de novo”, completa a professora Andréa. 
  • 8) Sabe o que os restaurantes self service têm feito? Muitos disponibilizam luvas plásticas para que as pessoas se sirvam ou definem uma única pessoa para servir todo mundo. Essa pode ser uma alternativa em casa: definir alguém da família para servir todo mundo e evitar que muitas pessoas peguem nos utensílios como o gancho de uma colher, por exemplo. 

Fonte: Correio