Bom Juá: traficantes invadem aniversário, matam uma pessoa e ferem três

Bom Juá: traficantes invadem aniversário, matam uma pessoa e ferem três

 Foto: Arisson Marinho/CORREIO

O bolo confeitado era cortado ao mesmo tempo que a carne era assada na varanda da casa da cozinheira Sônia Maria Alves, no Bom Juá, na noite dessa quarta-feira (2). Era o aniversário surpresa para a anfitriã, que completou 59 anos no mesmo dia. Tudo ocorria na maior tranquilidade, até que os penetras levaram o terror à festa e ao bairro. Eram homens armados que chegaram à região atirando e, ao perceberem a reunião, dispararam contra todos do imóvel, deixando um morto e três feridos, entre eles a aniversariante. 

De acordo com os moradores, este foi mais um caso de disputa territorial entre dois grupos criminosos. A casa atingida está na Vila Isabel, perto do final de linha do Bom Juá. Geograficamente, o Bom Juá está na região de Fazenda Grande do Retiro, de domínio do Bonde do Maluco (BDM). Mas o final de linha está a 20 metros da comunidade do Marotinho, em São Caetano, onde o tráfico é liderado pela facção Ajeita, apontada como a autora do ataque dessa quarta. 

Além de Sônia, foram baleados o filho dela, Gilson Alves da Silva, 35, e a auxiliar de cozinha Mariana Maia, 19. Os feridos foram socorridos para o Hospital Geral do Estado (HGE). Parentes de Mariana disseram ao CORREIO que ela passou por cirurgia e não corre risco de morte. Não há informações sobre o estado de saúde de Sônia e o filho dela. Já o quarto baleado, que morreu no ataque, permanecia como ignorado no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLRN) até o início desta tarde.  

Segundo a Polícia Civil, “a 3ª DH/BTS vai investigar a morte de um homem, sem identificação, ocorrida na noite de quarta-feira (2), na Vila Israel, quando participava de um aniversário. Duas mulheres e um homem também foram atingidos pelos disparos de arma de fogo e socorridos para uma unidade de saúde. A autoria e a motivação serão apuradas”. 

Moradores da região garantiram ao CORREIO que Sônia, Gilson e Mariana não têm nenhum envolvimento com a criminalidade. “Até então, todos que estavam na festa são pessoas de bem”, disse um parente de Mariana, que preferiu não revelar o nome. 

Ataque
O ataque aconteceu por volta das 23h, na 4ª Travessa das Pitangueiras. Segundo moradores, bandidos armados chegaram em dois grupos – um pela Rua do Canal e outro pela via principal, Rua do Bom Juá. “Eu moro atrás da Rua do Canal e ouvi eles chegando tudo armado, gritando, afrontando o pessoal daqui: ‘bota a cara, bota a cara BDM’. Xingavam também e, em alguns momentos, atiravam para cima”, relatou uma moradora.  

Na noite de quarta, um grupo dos criminosos chegou pela Rua Bom Juá ( Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

A casa de Sônia fica numa escadaria que dá acesso a um trecho da Rua do Bom Juá próximo ao final de linha, tido como o palco dos confrontos entre as facções. O imóvel estava cheio, pois a comemoração havia começado às 18h. “Foi uma festa surpresa, organizada pela filha de Sônia. Todos estavam muito felizes, porque Sônia é uma mulher do bem. Já tinham partido o bolo, as pessoas estavam na varanda, bebendo e comendo a carne do churrasco quando eles chegaram atirando”, contou uma vizinha. 

Ainda de acordo com ela, os bandidos nada perguntaram. Só atiraram. “Foi tudo muito rápido. Subiram as escadarias e dispararam contra todos. Acordamos com a movimentação deles. Só me dei conta do que estava acontecendo, depois dos tiros. E foram muitos”, relatou a fonte. Na manhã desta quinta-feira (3), a casa estava fechada. 
Uma outra moradora disse que por pouco ela e a filha não foram também vítimas dos criminosos. “Voltávamos de uma pizzaria. Quando pusemos os nossos pés em casa, ouvimos eles gritando e atirando para cima. Por pouco não cruzamos com eles. Foi Deus que nos livrou”, disse ela. 

Ocupação
O Bom Juá vem sendo usado como demonstração de força de bandidos. Em outubro deste ano, moradores viveram momentos de pânico, quando traficantes do Ajeita invadiram o território do BDM, trocaram tiros, mataram um rival e, na saída, puseram fogo em um carro. Toda a ação foi filmada e compartilhada nas redes sociais. Em resposta, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) realizou uma operação e instalou uma Base Móvel da PM no local. No entanto, segundo moradores, a ação não durou cinco dias.  

A Base Móvel da PM ficava na Praça Eunápio de Queiroz, no final de linha (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

“Inicialmente foi um monte de policiais subindo e descendo em viaturas e motos. Até helicóptero teve. Nos dias seguintes, ainda se via alguns policiais circulando somente no final de linha.  Mas não durou nem cinco dias. Foi tudo fogo de palha”, bradou uma dona de casa. 

O CORREIO perguntou a PM por quanto tempo, de fato, o Bom Juá permaneceu ocupado pela corporação, porque a Base Móvel e demais ações de enfrentamento mais rígidas ao tráfico foram retiradas do bairro e se há previsão de nova ocupação. Até o momento não houve resposta. 

No entanto, o ataque de quarta não foi um episódio recente após retirada da Base Móvel. “Na semana retrasada e anteontem tive o maior tiroteio aqui. Ninguém saia de casa. Isso aqui está um inferno. Não estamos aguentando mais. Penso em largar tudo e ir para o interior, na casa dos meus pais. Nós, que somos mães de família, não podemos sair com os nossos filhos por nada. Até durante o dia, a gente corre o risco de levar uma bala perdida”, desabafou uma outra moradora. 

Fonte: Correio