'A casa é sem banheiro, sem porta, sem água', diz moradora de cidade mais desigual da Bahia

A casa é a mesma há mais de 30 anos. Dois quartos, sala e cozinha. Nunca teve banheiro. Para tomar banho ou fazer qualquer necessidade, a agricultora Josefa dos Santos, 50 anos, se acostumou a recorrer ao mato no entorno. Por sorte, explica, não tem vizinhos que morem “parede com parede” do terreno, em Pedro Alexandre, no Nordeste da Bahia, bem na divisa com Sergipe. 

Foi no estado vizinho que ela nasceu, embora tenha ido morar na zona rural Pedro Alexandre ainda menina, com cinco irmãos. Cresceu, teve três filhas e hoje mora com apenas uma no povoado de Angico. Nunca teve dinheiro para construir o banheiro. A última vez que conseguiu fazer algo em casa foi há cinco anos, quando trocou o telhado. 

“Não tinha jeito, porque a gente estava dormindo na chuva. Todo dinheiro que a gente pega é para comprar água e comprar comida”, explica dona Josefa.

Há seis meses, outro problema se somou à falta de estrutura da casa: a porta quebrou, de tão velha. “É uma casinha sem banheiro, sem porta, sem água. Só tem luz. A sorte é que aqui é tranquilo, porque a porta fica aberta” conta. 

Dona Josefa, que nunca aprendeu a ler e a escrever, pode representar bem a situação de muitos moradores de Pedro Alexandre. A cidade de pouco mais de 16 mil habitantes é apontada por um novo estudo do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para  Saúde (Cidacs), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), como o mais fiel retrato da desigualdade social no país. 

Hoje, 35% dos moradores de Pedro Alexandre vivem na sede (Foto: Luara Carvalho)

Na próxima quarta-feira (9), o Cidacs e a Fiocruz lançam o chamado Índice Brasileiro de Privação (IBP), que é um novo indicador para medir a desigualdade no país e poderá ser utilizado por pesquisadores, profissionais de saúde e gestores. Ao lado de outros veículos jornalísticos brasileiros, o CORREIO teve acesso ao índice com exclusividade.

De acordo com o IBP, Pedro Alexandre tem o maior índice de privação dos 417 municípios da Bahia. Além disso, a cidade fica entre as dez mais desiguais do Brasil: é o oitavo lugar no ranking nacional, liderado por Belágua, no Maranhão. O índice mede justamente fatores como renda (pessoas com renda per capita menor do que meio salário mínimo); escolaridade (analfabetos com mais de 7 anos) e condições de domicílio (casas consideradas inapropriadas).  

A privação
Já existem índices que medem a desigualdade. É o caso do Coeficiente de Gini, que avalia a desigualdade de renda em países pelo mundo, e o famigerado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que inclui dados como a expectativa de vida ao nascer e a educação, mas também é uma medida que classifica os países. Há, ainda, o IDHM, uma adaptação do IDH para avaliar municípios brasileiros com os mesmos parâmetros – longevidade, educação e renda. 

No entanto, a diferença é que não existia nenhuma medida capaz de mensurar a desigualdade no Brasil em um nível tão específico, como explica o pesquisador Elzo Júnior, doutor em Saúde Pública e um dos responsáveis pelo estudo. No IBP, além das comparações entre estados e municípios, a novidade é que é possível avaliar as estatísticas da menor medida disponível no Brasil, que são os setores censitários. De forma geral, os setores não são classificações de área, mas de quantidade de pessoas. No Brasil, eles são compostos por, em média, 615 pessoas morando naquele local. A depender da cidade, isso pode ser encontrado em uma rua, um bairro ou até em um único prédio. 

A escolha pela “privação”, a primeiro momento, pode causar estranheza. Não é algo tão usual no país.

“Internacionalmente, é um conceito bem utilizado. Há dois tipos clássicos: a privação material e a privação social. O nosso índice mede mais a privação material, que são as condições objetivas, materiais, da vida da pessoa”, explica o pesquisador. 

Só que, ao contrário de medidas mais antigas, como o IDH, que funcionam numa escala de 0 a 1, o IBP é relativo. Ele é melhor compreendido a partir de comparações entre os municípios. O cálculo é feito a partir de dados do Censo do IBGE. Para os pesquisadores, ainda que o último Censo tenha sido em 2010, ele ainda representa a melhor forma de conhecer o país.

“O Censo é o que temos de mais rico e mais capilar em informações para medir pequenas áreas. Ele é a fonte de dados que cobre todo o território do país. A Pnad, por exemplo, é mais frequente, mas não cobre a população toda”, afirma, citando a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios do IBGE. 

Cidades de médio e grande porte costumam ter realidades mais diversas. É possível que, dentro de um mesmo município, existam localidades com baixo índice de privação. No entanto, isso não é o que acontece em cidades menores, com em Pedro Alexandre. “O que a gente observa no interior é que muitos setores censitários têm níveis de privação muito altos. Não há a variabilidade”, completa.

Sem empregos na cidade, a maior parte da população trabalha no campo (Foto: Luara Carvalho)

Casas de taipa
Para dona Josefa, a cidade ainda precisa “melhorar muito”. Ela queria que existisse algum programa de educação para jovens adultos, para que pudesse frequentar. Quando criança, nunca teve como ir à escola, porque trabalhava na roça. Até hoje, planta milho e feijão para consumo próprio.

Ela recebia o Bolsa Família mas, há mais de um ano, o benefício foi cortado sem explicação. Agora, tem recebido o auxílio emergencial. “O que mais incomoda é não saber ler nem escrever. Eu pelo menos aprendi a fazer meu nome, em casa mesmo, e não preciso mais pagar avalista para assinar nada para mim”, conta. 

Ainda que não tenha conseguido estudar, ela fez questão de que as três filhas fossem à escola. Uma delas é a agricultora Jocélia Reis, 30, que mora na comunidade do Bom Jesus, outro povoado de Pedro Alexandre, com o marido e três filhos. Hoje, ela está desempregada. O marido ainda trabalha carregando leite para pecuaristas da região. 

“Na época mais seca, a gente sofre mais. Até nosso trabalho diminui, porque o leite diminui”. No entanto, ela conhece muitos vizinhos que enfrentam situações ainda mais difíceis. Em algumas comunidades, ainda são frequentes as casas de taipa, sem nenhuma estrutura de alvenaria. 

Uma das filhas de Jocélia tem 15 anos. Matriculada em uma escola municipal, deveria começar no primeiro ano do Ensino Médio em 2021. No entanto, não teve praticamente nenhuma aula esse ano, por causa da pandemia. Agora, precisa fazer uma prova por mês para ser aprovada de série, tem recebido os conteúdos. A mãe se preocupa. 

“Como pode passar o ano todo parado e de repente receber provas em casa?”, questiona a agricultora. “Eu só posso dizer que o município de Pedro Alexandre parou no tempo e não se desenvolveu”. 

Desde o ínicio da pandemia da covid-19, a cidade registrou 58 casos de coronavírus, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab). Não houve óbitos. Além disso, todos os moradores ouvidos pela reportagem contam que, nos últimos tempos, não têm visto casos da doença. 

Se a situação  tivesse sido mais grave lá, Jocélia diz ter medo do que poderia ter acontecido. Hoje, segundo a prefeitura, existem cinco postos de saúde na cidade. Não há, porém, estrutura para atender casos de maior complexidade. 

“Quando precisamos de qualquer coisa, temos que descer para Sergipe, porque aqui não tem. Já internei minha filha em Itabaiana (SE), porque tem que ir para lá, para Aracaju (SE), ou descer para lugares como Paulo Afonso e Juazeiro”, afirma. 

Desemprego
Um dos problemas da cidade, de acordo com os moradores, é a falta de empregos. Pedro Alexandre tem duas principais fontes de renda: a pecuária, com a produção de leite, e os empregos gerados pela prefeitura. 

“Hoje, tem diversas famílias que sobrevivem do Bolsa Família. Se não fosse isso, nem conseguiriam passar o mês. O município é todo cercado por latifúndio, a reforma agrária nunca saiu do papel”, diz o tecnológo William Ramos dos Santos, 32, que mora em um assentamento na cidade. 

O próprio William é um dos que trabalha na roça, tanto na plantação quanto com a pecuária. “Quando chove pouco, a pecuária logo é afetada. A gente fica dependendo dos gestores. Quando tem algum que não paga os salários em dia, a gente começa a sentir”.

Em julho do ano passado, Pedro Alexandre, ao lado de Coronel João Sá, foi um dos municípios atingidos pelo rompimento da barragem do Quati, após enchentes na região. A água inundou as casas. 

A merendeira Josiete Nunes, 50, mora em uma das áreas de risco e conta que chegou a ficar ilhada na própria casa. Ela e o marido são concursados da prefeitura; ele é um dos motoristas que leva as crianças até as escolas. “Acordei meia-noite com meus vizinhos com água na cintura. Minha casa ficou toda danificada, meus porcos morreram afogados, minhas galinhas morreram”, lembra. 

Até hoje, ela é acompanhada por um psicólogo do movimento de atingidos por barragens. Por muito tempo, teve pesadelos sobre a noite da enchente. Mesmo assim, ela sabe que tem pessoas que ficaram em situação ainda mais grave. “Eu e meu esposo somos assalariados. Com esse custo de vida, a cada dia a alimentação aumenta, a gente vai rebolando aqui e ali. É difícil, mas imagine quem não ganha nenhum salário”.  

A professora Luciana Oliveira, 42, conhece bem a realidade do município. Além de professora, ela é uma das lideranças da Igreja Católica na cidade. Por isso, circula pelas comunidades mais afastadas do centro. “Aqui é a terra em que a lei não existe. Os serviços não são de qualidade, principalmente para quem vem do interior”, diz, referindo-se à zona rural. 

É nas comunidades mais afastadas do centro da cidade que os moradores veem a maioria dos problemas. “Eu costumo dizer que mesmo que o Brasil tenha avançado em alguns anos, Pedro Alexandre não avançou em nada”, completa. 

No povoado de Barreiros, o comerciante Lindomar Ribeiro, 27, tem uma pequena mercearia. Mas ele já se acostumou a abrir a conta para que as pessoas paguem as compras só depois de 30 dias. “As pessoas não têm emprego”, explica. 

Para ele, outra dificuldade é o acesso à água. Hoje, a maioria das casas não tem água. Segundo a prefeitura, a água encanada só chegou há oito anos, depois de um projeto do governo estadual, mas ainda está restrita à sede. 

Em povoados como o de Barreiros, não tem água encanada (Foto: Lindomar Ribeiro)

“A água por aqui é de fontes. Os carroceiros trazem e cobram R$ 10 reais por tambor da água das melhores fontes, que são mais longe. A água mais próxima do povoado é para o gasto e a que vem de mais longe é para consumo humano. A gente sabe que não é de qualidade, mas é o que a gente encontra”, diz. 

Sem recursos
O prefeito de Pedro Alexandre, Pedro Gomes Filho (PSD), diz ter ficado surpreso com a posição da cidade entre as mais desiguais. Segundo ele, houve um trabalho social forte no município nos últimos anos. No entanto, Gomes Filho afirma que Pedro Alexandre é uma cidade complexa, devido ao fato de 65% dos moradores viverem na zona rural. 

“Quando nossa família começou a administrar Pedro Alexandre, o índice de analfabetos era de 87%. Meu irmão, que era o prefeito na época, teve que ir atrás de professores, treinar professores, pagar para as pessoas estudarem (graduação). Mas, com relação à educação, não é coisa municipal. É federal”, afirma, citando o irmão Petrônio Gomes. Hoje, o índice de analfabetismo é de 24%.

Segundo Gomes Filho, Pedro Alexandre não tem dinheiro para viabilizar um programa de alfabetização de jovens adultos hoje. Há alguns anos, diz, o índice de analfabetismo diminuiu devido a um programa estadual, o Todos Pela Educação (Topa). 

“As reclamações a gente faz (ao governo federal), as reivindicações a gente faz. Mas em Pedro Alexandre o povo não tem nem condições de pagar IPTU. Estávamos fazendo o projeto do IPTU no ano passado, mas a maioria das famílias não pode pagar. Coloque aí só 10, 15 prédios que conseguiriam”, estima.

A prefeitura contabiliza hoje 420 casas de taipa na cidade. O prefeito admite que elas não poderiam existir, mas afirma que a cidade não tem recursos para substituir as moradias. 

É a mesma justificativa para a geração de renda. Ele afirma que falta estrutura na cidade quanto a estradas, energia e água, o que prejudica a atração de empresas ou de fábricas. 

Ao longo do ano, conseguiram consertar as barragens que romperam junto à barragem do Quati, com apoio do governo estadual. Agora, a prefeitura discute o plano de saneamento básico da cidade, que não tem esgotamento. 

“Um dos nossos problemas é a água salobra. Tem que colocar dessalinizador e é seríssimo. A maior parte da população de Pedro Alexandre é atendida por carros pipa”, admite. 

Segundo o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), 96,5% da receita de Pedro Alexandre em 2019 veio de transferências estaduais e federais. O prefeito Pedro Gomes Filho tentou a reeleição em 2020, mas não foi reconduzido ao cargo. 

Salvador e Lauro de Freitas têm menor privação no estado 

Na Bahia, não há nenhuma cidade que seja classificada em baixa ou muito baixa privação. As melhores situações são de Salvador e Lauro de Freitas, que têm um índice médio de privação. Salvador, inclusive, é uma das únicas três cidades da região Nordeste a ficar entre as 1000 mais bem posicionadas no ranking nacional de qualidade de vida. Salvador fica na posição 885ª, com Aracaju (SE) em 989ª. Além das duas capitais, quem também entrou na lista foi Fernando de Noronha (PE), em 641ª. Lauro de Freitas fica em 1098º.

De acordo com o pesquisador Elzo Júnior, doutor em Saúde Pública, pós-doutorando em Epidemiologia no Cidacs e um dos responsáveis pelo IBP, a comparação do índice é feita com todas as cidades do Brasil. Só que, ao contrário das cidades pequenas, nas cidades de grande e médio porte, como Salvador e Lauro de Freitas, é possível identificar muitas localidades que têm baixa ou muito baixa privação. Isso pode ser observado dentro de cada setor censitário a partir do cálculo. 

“Mesmo com a Bahia estando quase toda pintada de vermelho (na visualização do mapa do IBP), a gente consegue identificar, dentro desses municípios, áreas que têm um índice de privação bem melhor. Nas capitais, isso fica bem evidente. As capitais, de forma geral, não costumam estar nos extremos de privação (nem muito alta privação nem muito baixa privação)”, explica. 

Tanto em Salvador quanto em Lauro de Freitas, há localidades com baixa privação. Elas ficam distribuídas, principalmente, ao redor da Orla, ainda que existam exceções. Já em uma cidade como Pedro Alexandre, por exemplo, todos os setores censitários apontavam para alta privação, que é o grau cinco e mais alto de desigualdade social. 

Das dez cidades com melhor qualidade de vida no Brasil, oito estão localizadas na região Sul. A primeira delas é São Vendelino, no Rio Grande do Sul. Além disso, duas ficam no estado de São Paulo – São Caetano do Sul (3º) e Águas de São Pedro (5º). 

Já entre as dez cidades com maior desigualdade no país pelo índice de privação, seis são da região Nordeste e quatro da região Norte. Na lista, há Belágua (MA – 1º); Marajá do Sena (MA – 2º); Ipixuna (AM – 3º); Melgaço (PA – 4º); Massapê do Piauí (PI – 5º); Itamarati (AM – 6º); Fernando Falcão (MA – 7º); Pedro Alexandre (BA – 8º); Atalaia do Norte (AM – 9º) e Traipu (AL – 10º).  
 

Fonte: Correio