Celebração de Nossa Senhora da Conceição da Praia acontece com público reduzido

Um dia de homenagens diferentes. Assim foram as missas que celebraram o dia de Nossa Senhora da Conceição da Praia, padroeira da Bahia, nesta terça-feira (8). Ao invés das milhares de pessoas que costumam tomar as ruas do Comércio em caminhada rumo à Basílica Santuário da padroeira, menos de três centenas de pessoas participaram das missas na parte interna da igreja. No total, foram 250 pessoas presentes, sendo 150 fiéis e 100 somando o arcebispo, padres, diáconos, membros da irmandade e imprensa.

Na parte externa do local, na frente da Igreja, onde a imagem da santa estava exposta, ao longo de todo o dia, muitas pessoas passaram para render homenagens e fazer suas preces e pedidos. Por lá, não houve aglomeração. Os fiéis chegaram usando máscaras e se espalhavam pelo passeio da Igreja, respeitando o distanciamento social. Tudo para não deixar de realizar o que já é tradição sem se colocar em risco. 

Fiés precisaram aferir a temperatura e tiveram entrada restrita para evitar aglomerações (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Além da homenagem e do agradecimento pela vida, havia um pedido principal: por saúde. Em um ano que o mundo entrou em colapso sanitário, não dava para pedir outra coisa. Isso é o que afirma Alda Santos, 59 anos, aposentada que vem há mais de 30 anos na celebração da padroeira baiana e, normalmente, traz consigo pedidos diversos. Em 2020, a coisa mudou de figura. A sua prece foi feita, principalmente, em prol da saúde individual e coletiva. “Moro no Engenho Velho de Brotas e vim hoje porque é muito triste o que está acontecendo com a saúde do nosso planeta. Nossa fé não pode parar. É nela que encontramos respostas. Normalmente, venho com muitos pedidos. Mas, neste ano, o maior de todos e o que tem mais foco das minhas preces é a saúde mundial, que passa por momentos difíceis”, contou.

Alda vem à celebração há mais de 30 anos (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Outro que fez o mesmo foi o vigilante Ailton Machado, 57, que também é figura carimbada no Comércio no dia 8 de dezembro. Para ele, o mais importante é fazer uso da fé para interceder por uma solução para uma pandemia que abalou tantas pessoas e, segundo ele, ressignificou o valor que se dá à saúde. “Sabemos que está tudo diferente, não teremos aquela festa comum, mas não é por isso que deixaria de vir. É mesmo agora o momento que precisamos estar ativos com a nossa fé, agradecer Nossa Senhora e, através de intercessão dela, conquistar o apoio de Deus para a saúde de Salvador, da Bahia, do Brasil e desse mundo todo que sofreu muito em 2020”, apontou.

Adilson Guedes, 54, administrador que comparece na celebração desde os 10 anos de idade, corrobora com as falas de Machado. Segundo ele, a fé é a arma mais importante para um fiel diante de aflições e a maior aflição no país e no mundo é relacionada à saúde. “Nós precisamos, sem sombra de dúvidas, fortalecer a fé nesse momento de pandemia. Muitos ficaram em casa, se isolaram e deixaram a fé um pouco de lado. Se cada um fizer a sua parte, respeitando as normas para não se contaminar e não contaminar ninguém, creio que o nosso maior trunfo sejam as orações. Preces que, no momento atual, só podem ser dirigidas à saúde do povo e ao fim desse vírus”, ressaltou.

Adilson acredita que este é um momento importante para fortalecer a fé (Foto: Wendel de Novais/CORREIO)

Importância dos atos religiosos
Para o cardeal Dom Sérgio da Rocha, a saúde física é um dos maiores problemas no momento, mas, se for possível fazer em segurança, é recomendado cuidar da saúde espiritual e não abandonar celebrações como essas. “A celebração da nossa padroeira é sempre motivo de alegria e esperança em qualquer situação. Nesse momento tão difícil, precisamos cuidar da saúde física e também da saúde espiritual para que possamos, unidos a Nossa Senhora, vencer esse tempo tão complicado”, afirmou. Ele presidiu a Missa Solene, às 9h desta terça-feira.

Dom Sérgio também falou sobre a necessidade de adaptação ao cenário pandêmico para continuar com tradições religiosas sem que isso ameace a saúde das pessoas que compareçam. “A festa de hoje, nesse contexto de pandemia, traz ainda mais esperança e paz. Por isso, é feita com responsabilidade pela vida dos nossos irmãos, com menos gente. Nós rezamos sim e confiamos em Deus e Nossa Senhora, mas queremos viver o amor ao próximo e nossos momentos de fé respeitando e valorizando a vida”, afirmou.

Dom Sérgio ressaltou importância da celebração da padroeira (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Além disso, o cardeal falou sobre o papel da igreja na orientação dos fiéis não só em celebrações de missas e eventos da Igreja, mas também no cotidiano deles nos ambientes públicos e mercados, por exemplo. “Temos que observar ao máximo, desde o início, as medidas que visam a preservação da saúde pública. E nós não paramos por aí. Entendemos que é preciso orientar os fiéis que respeitem as restrições sanitárias como forma de demonstração de amor e respeito pelo próximo. E essa atitude precisa romper as portas das Igrejas e chegar à vida em espaços comuns dessas pessoas”, declarou.

Atividades presenciais
Ao ser perguntado sobre o tamanho da influência da alta de casos em Salvador e na Bahia nas atividades presenciais da Igreja, Dom Sérgio afirmou que, se houver necessidade, não tem dúvidas de que os eventos religiosos presenciais podem ser suspensos para ir contra a contaminação que volta a crescer nesse momento. “Nesse final de ano, sobretudo, é um tempo que devemos redobrar nossa atenção quanto a isso. E, com certeza, vendo necessidade de restrição quanto a presença, nós vamos estar procurando não só dialogar com as autoridades, mas acolher toda medida que se mostre necessária para combater o avanço do vírus”, disse.

Porém, o Cardeal fez questão de deixar claro que essa decisão não pode ser tomada apenas pela Igreja que, desde o começo da pandemia do coronavírus, procura agir de acordo com as orientações das autoridades públicas e sanitárias. E, segundo ele, vai continuar fazendo isso e só voltará a descartar missas e celebrações presenciais se assim forem orientados. “Nós vamos tomar qualquer decisão dialogando com as autoridades públicas e sanitárias. Desde o início, fazemos assim. Estamos aguardando o que as autoridades vão propor e definir. Não cabe a nós decidir por conta própria aquilo que deve ser feito. Precisamos da orientação dos especialistas e das autoridades para anunciar alguma medida”, explicou.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio