‘A literatura é um fuzil’, diz Nelson Maca

Para combater o racismo estrutural, o professor, poeta e militante Nelson Maca, 55 anos, tem uma arma. “O texto é bélico. A literatura tem que ser cortante, tem que sangrar. É um fuzil. A arte em si já é a luta”, diz Maca, que nesta quinta-feira (10) lança seu primeiro livro de contos, Relatos da Guerra Preta ou Bahia Baixa Estação (Blackitude | R$ 40 | 218 páginas). 

A guerra para enterrar um preto pobre, para conseguir uma vaga na UTI, a guerra dos meninos que estão na rua tentando sobreviver e a guerra para manter a cabeça no lugar… É sobre essas batalhas da população negra que Maca fala no livro, cujo lançamento será marcado pela performance Tabuleiro Bélico, das 10h das 17h, no Terreiro de Jesus. O nome não foi escolhido à toa e o autor explica: “No tabuleiro, eu vou vender a guerra, que é o livro”. 

(Foto: Leo Ornelas/Divulgação)

A obra reúne 19 contos, divididos em oito capítulos, cada um explorando um conceito do universo bélico: Correspondente, Trincheira, Batalha, Recuo, Retaguarda, Confronto, Baixas e Trégua. Os textos, inspirados nas experiências do autor e em relatos de amigos, traçam um panorama da herança de violência, miséria e rejeição recebida historicamente pela comunidade negra.  

Segundo o autor, a intenção é generalizar o conceito de guerra, mostrando a luta, por todos os meios possíveis e necessários, para se manter vivo e ter alguma qualidade de vida. “Um assombro de livro, necessário e urgente”, diz o escritor Marcelino Freire, que assina o texto de apresentação de Relatos da Guerra Preta. 

Em entrevista ao CORREIO, Maca conta que é preciso ter uma dose de ira para vencer a guerra, já que “ser só amoroso não dá”, e compara o racismo com a covid-19. “Essa luta por sobrevivência que todos estão tendo agora, com esse vírus que atingiu os países ricos, isso pra mim é uma metáfora encarnada do que é o racismo. Essa tensão de entrar no supermercado, essa sensação é a nossa covid-19”, denuncia. Confira. 
 

Você começa o livro dizendo, indiretamente, que lutar é preciso. Por quê?

Tem uns poemas e umas músicas que declamo e gosto muito. Essa aí [Lutar é Preciso, de Caj Carlão] eu gosto muito. Mostra que é preciso resistir, porque as coisas não vão mudar sozinhas. A ira do meu primeiro livro é tão importante quanto o amor. Se for só complacente… A morte de George Floyd mostrou que a bandeira branca não adianta mais. Ser só amoroso não dá. O compositor dessa música – que já morreu – foi um amigo meu. Um cara que sempre fez música sobre as questões sociais da Bahia e essa necessidade de enfrentamento.

Como a literatura te ajuda a enfrentar essa guerra? Que arma é essa?

Sempre que alguém pretende usar a literatura, a música, como um mediador, sempre discordo. A música é arma, não é mediação. A arte, em si, é arma, é forte, é bélica. Acredito que a arte transforma as pessoas. Acredito que uma pessoa é movida por uma música, um poema. Existem dois movimentos da negritude: um é concreto, objetivo, social, de interação, mais da sobrevivência do corpo, da saúde, para viver com dignidade com um pouco de qualidade de vida e cidadania. Existe outro movimento, onde me encaixei melhor: o movimento pela subjetividade, pela reintegração de posse da nossa subjetividade, da psicologia que também é estraçalhada com o racismo. A abstração é importante para recompor o pensamento. Se a gente fizer as duas coisas, está completo. O texto é bélico, a literatura tem que ser cortante, tem que sangrar. É um fuzil. A arte em si já é a luta.

O que significa lançar esse livro em 2020?

Nossa luta é para se manter vivo dentro da covid. Luta para não se contaminar, não contaminar os outros. É muito fácil morrer nesse momento. Essa luta que todos estão tendo agora, esse vírus que atingiu os países ricos, isso pra mim é uma metáfora encarnada do que é o racismo. Eu posso ser morto na rua só por estar chegando à 1h da manhã em um bairro de classe média. Essa tensão de entrar no supermercado, essa sensação é nossa covid-19, que é o racismo. Essa covid a gente vive desde o navio negreiro.

Guerra eterna…

Era letal viver antes da covid e depois vai continuar letal. A violência endêmica, gerada pela situação de miséria, é nossa covid. Pra mim é só trazer o livro para uma dimensão em que as pessoas estão vivendo isso, que é essa tensão de ser negro, ser gay, e certo ponto de ser mulher dentro do ambiente machista, em um país que pratica o feminicídio. O livro fala disso. Tem um conto Mãos na Cabeça, Negão! que diz “pare, porque pode ser você”. O negão é o suspeito padrão. Essa é a covid do racismo. Não falo da covid em nenhum ponto, mas se a pessoa quiser saber o que é ser negro em um país racista… Guerra Preta nesse sentido, guerra pra enterrar um preto pobre, pra conseguir uma vaga na UTI, pra os meninos que estão na rua. E pra manter a cabeça no lugar.

Em um dos contos, você mostra um personagem que nega o título de fotógrafo, enquanto faz “um perfeito enquadro de um casal consciente e lindo” e, ao fundo, “o corpo de um irmão alienado e miserável”. A fotografia faz parte de sua vida?

Estou me propondo a fotografar a cidade, quero que essas coisas apareçam. Quanto mais objetivo você for, mais subjetivo você é. A fotografia é isso. Você pode não acreditar no racismo, mas o racismo está aí, “você que não aprendeu a ver”. O fotógrafo tem que ser alguém que aprende a ver. Eu não sou fotógrafo da máquina, mas sou escritor, sou poeta. O personagem diz: “Eu não sou fotógrafo, eu registro”. Eu registro. É um conto dedicado a Leo Ornelas, gigante que fotografa o dia a dia da negritude, os mendigos, tudo o que você imaginar. Me inspirei nele. Queria revelar isso, por mais incômodo que o livro possa ser.

Que oposição é essa que existe, no livro, entre a “Bahia Preta” e a “bahia branca”?

Uma escolha política. As palavras grafadas com maiúsculas, viram nomes próprios. Eu queria falar de uma Bahia específica. Queria falar de uma cidade, uma Bahia Preta. Nós somos a contradição da “bahia branca” que a gente vê na Vitória, no Caminho das Árvores, dos produtores de cana-de-açúcar. Não é a minha Bahia. Marcelino diz que escrever é se vingar. Escrever Bahia Preta e bahia branca, em minúscula, é minha vingança. Escrever Bahia Preta é meu ato de amor, minha localização. Uma forma de troco. Meu texto é uma anti-novela das oito.

*Quem é: 
Poeta e professor de Literatura, Nelson Maca ensinou na Universidade Católica de Salvador de 1995 a 2019. É fundador do Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, que realiza o Sarau Bem Black, o Slam Lonan e outras ações artísticas e de formação sócio-racial através das linguagens da cultura hip hop. Criou e coordenou o evento infantil Sarau Bem Legal, que aconteceu durante cinco anos na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Há mais de 30 anos promove e participa de eventos da negritude – seminários, workshops, cursos, shows. Com o escritor Marcelino Freire, organiza a Balada Literária da Bahia, evento completou sua sexta edição em 2020. Lançou Gramática da Ira em 2015 e Go Afrika em 2019 (ambos de poemas).

Fonte: Correio