Automação e capacitação do produtor: os desafios do agro

Apontado por organismos internacionais respeitados, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), como principal responsável pela produção de alimentos do mundo nos próximos 10 anos, o Brasil deve buscar a automação no campo como solução para manter a eficiência, competitividade e sustentabilidade no agronegócio.

O uso de tecnologias avançadas no setor é realidade em diversas fazendas, inclusive na Bahia, que, por outro lado, também é um espelho do Brasil rural que ainda precisa de capacitação para fazer uso dessas tecnologias – muitas delas simples e acessíveis por meio de um smartphone, não fosse a falta de conectividade.

Essas soluções e gargalos que fazem parte do agronegócio brasileiro estiveram em pauta no painel “Inovação, desafios e tendências no agronegócio”, do Agenda Bahia, realizado na tarde de ontem de forma virtual, por meio do canal do CORREIO no YouTube.

Apresentado pelo jornalista Donaldson Gomes, editor do CORREIO, o painel teve como convidados a chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária, Silvia Massruhá, e o diretor de negócios, café e vinhos da Fazenda Progresso, Fabiano Borré. Internautas também participaram do painel, com o envio de perguntas e comentários.

À frente da unidade da Embrapa que tem atuação focada na agricultura digital, Silvia Massruhá destacou o papel do país como principal produtor de alimentos no mundo, o que é uma grande transformação no setor, já que, há 50 anos, conforme ela observou, o Brasil era importador e hoje é um dos principais exportadores mundiais.

Esta mudança ocorreu justamente por conta dos avanços em ciência e tecnologia no setor agropecuário brasileiro. Em sua apresentação, Silvia abordou o desenvolvimento da atividade agropecuária, desde a fase da Agricultura 1.0 (aquela feita a mão, desde os primórdios da humanidade), até a Agricultura 5.0, em fase inicial no país.

Se nas primeiras fases, os avanços ocorreram por conta de uma busca por maior ganho em produtividade, hoje as transformações são influenciadas pelo consumidor final, que busca transparência no processo de produção e se preocupa com sua saúde – é a rastreabilidade do alimento, outro grande desafio no agronegócio.
“Temos novas demandas. Daqui a 10 anos, teremos de alimentar 9 bilhões de pessoas no mundo. É esperada aumentar a produção de alimentos em 70%, e 40% dessa demanda virá do Brasil. E isso de maneira sustentável”, disse Silvia.

“Para garantir a segurança alimentar, temos toda uma revolução tecnológica que está sendo provocada não só pela tecnologia, mas pelo consumidor, que é muito mais preocupado com nutrição e saúde, transparência no processo. Então, ele está exigindo que a gente adote novas tecnologias para dar essa transparência, e para ter competitividade e sustentabilidade do ponto de vista econômico, ambiental e social”, completou.

Em seguida, a chefe-geral da Embrapa Informática Agropecuária comentou sobre algumas tecnologias digitais utilizadas hoje no agronegócio nacional: sensores que analisam a disponibilidade de água no solo, estações meteorológicas de ponta, imagens de satélite de diferentes resoluções sobre a área de produção, máquinas automatizadas com GPS (GNSS), drones que fazem pulverização e igualmente coletam dados do campo. Todos eles geram dados heterogêneos que são transformados em informação para tomada de decisão. Essa atual fase é a da Agricultura 4.0, que inclui ainda a biotecnologia e a robótica.

“A gente está nessa fase, mas já de olho numa agricultura totalmente automatizada, sem o mínimo de intervenção humana. Do escritório, o produtor vai acompanhar todo o processo produtivo no campo, desde a compra de insumos até a colheita”, disse Silvia. Esta é a Agricultura 5.0, uma agricultura preditiva, como definiu Silvia.
E neste rumo que segue a Fazenda Progresso, que tem mais de 20 mil hectares e está localizada entre as cidades de Mucugê e Ibicoara, na Chapada Diamantina. Na propriedade rural são produzidos por ano, em 2 mil hectares, 90 mil toneladas de babata inglesa que abastecem o Nordeste.

Há ainda mais 530 hectares plantados com café arábica e outros 52 hectares com uvas viníferas, mais novo empreendimento da fazenda. Em setembro, foi lançada a marca de vinhos UVVA, já os vinhos serão lançados no início de 2021. Trabalham na Progresso 600 pessoas (empregadas diretamente) e na colheita do café entram mais 300, de forma temporária.
Integrante da terceira geração a frente da fazenda, Fabiano Borré observa o emprego das tecnologias no agronegócio como uma forma de o setor atuar com mais respeito ao meio ambiente e transparência para consumidor. Neste ano, inclusive, a Fazenda Progresso inovou com a transmissão “Safra ao vivo de café”, mostrando para os clientes de vários países como ocorre todo o processo de produção na fazenda.

Economia

As inovações tecnológicas na propriedade rural trazem também economias de custos com insumos e menos uso de recursos naturais (água e solo).
A análise de solo, por exemplo, antes feita em 20 amostras de um talhão (área da fazenda de tamanho variável), passou a ser realizada com quadriciclo, o que aumentou a quantidade de amostras para 500 por talhão. Isto possibilitou à fazenda a realização de mapas de variabilidade espacial sobre os índices nutricionais do solo, e com isso uma adubação de acordo com a necessidade de cada talhão.

O resultado prático foi a redução do uso de adubos de 3 toneladas para 1 tonelada por hectare, o que favorece a uma longevidade da vida útil do solo e suas características físicas e biológicas. Com menos adubo para usar, o número de viagens dos caminhões para transporte do insumo diminuiu, por consequência menos emissão de gás carbônico (CO2) na atmosfera.
No uso da água, outra inovação: por meio de técnicas da irrigação de precisão, com o uso de um software de gestão hídrica que informa sobre temperatura, pluviosidade, absorção de água pela planta e o que vai embora do líquido para a parte do solo onde não tem ais raízes, está sendo possível usar o necessário de água para cada cultura. “Temos outorga para uso da água e temos ficado sempre abaixo do nosso limite”, declarou Fabiano, que, assim como Silvia, reconhece os desafios do setor com relação ao problema da conectividade no campo.

Mas para além da conectividade, há o problema da capacitação do próprio produtor rural, sobretudo o pequeno, para uso das tecnologias. Mesmo que 84% dos produtores do país usem pelo menos uma tecnologia digital, conforme mostrou uma pesquisa da Embrapa e do Sebrae, feita em maio e junho deste ano com 750 produtores do país (67% deles ligados diretamente ao campo e os demais prestadores de serviço), há muitas queixas sobre a conectividade e capacidade de investimento.

Aliado a isso, há o grande número de tecnologias voltadas para gestão da fazenda, monitoramento de pragas e da safra, dentre outros. Para os convidados do painel, é necessária imediata capacitação dos produtores rurais para o uso de tecnologias no campo, de modo a ser mostrado os benefícios que ela pode trazer para a sua propriedade rural, seja pequena ou grande.
 

Fonte: Correio