Filhos mais tarde: gestações crescem na Bahia em mulheres com mais de 35 anos

A cegonha está demorando um pouco mais para chegar nas casas baianas. É que dos nascidos registrados em 2019 no estado, 31.510 tiveram como mães mulheres de 35 anos ou mais de idade. O número representa 16% dos recém-nascidos baianos do ano ou quase 2 em cada 10 nascimentos. A faixa etária das mães com idade igual ou superior a 35 anos foi a única com números maiores que em anos anteriores. Os dados são das Estatísticas do Registro Civil 2019 divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a pesquisa, no geral a quantidade de nascimentos caiu. Em 2019 a Bahia registrou 196.951 nascimentos, número 2,8% menor que o de 2018 (202.868) e o mais baixo desde 2001. Em Salvador, também houve a queda com o nascimento de 32.780 soteropolitanos em 2019, 2,2% a menos do que em 2018 (33.507). Todo o estudo é elaborado pelo IBGE a partir dos dados dos Cartórios de Registro Civil de Pessoas Naturais; das Varas de Família, Foros ou Varas Cíveis; e dos Tabelionatos de Notas.

O único grupo em que houve incremento nos números na comparação de 2019 com 2018 foi justamente o das mulheres acima dos 35 anos. Na Bahia, o número de nascimentos cujas mães tinham 35 anos ou mais cresceu 3,2% frente a 2018. Em Salvador, o envelhecimento progressivo da fecundidade é mais intenso que no estado. Em 2019, 7.638 bebês registrados tiveram como mães mulheres de 35 anos ou mais de idade. O número cresceu 4,8% frente a 2018 (7.287) e representou 23,3% do total de registros no ano (frente a 21,7% em 2018).

Com relação ao resto do país, Salvador teve o maior percentual de bebês nascidos de mães de 35 anos ou mais de idade dentre as capitais do Norte-Nordeste e ocupou o quinto lugar no país. Ficou atrás apenas de Belo Horizonte/ MG (26,5%), Florianópolis/ SC (26,4%), Vitória/ ES (25,5%) e Porto Alegre/ RS (25,2%).

Carreira
Um dos mais de 7 mil nascimentos de 2019 na capital baiana foi o da pequena Liz Weisgerber Santana, que veio ao mundo em março. A mãe, a educadora Christel Weisgerber, teve a filha aos 37 anos. “Preferi antes focar na carreira e em todas as oportunidades que a gente pode se dar antes de ter um filho, como viajar para um curso ou sair do país a passeio. Foi realmente uma decisão esperar”, conta a mamãe, que é vice-diretora em uma escola. Outra questão foi a estabilidade financeira.

Quem trabalha atendendo as futuras mamães já tem sentido a mudança no perfil das gestantes desde antes de 2019. “Esse não é um fenômeno que começou em 2019. De uns quatro anos para cá a gente nota esse adiamento da maternidade. E a vida profissional é justamente a justificativa principal dessas mulheres. Essa busca profissional acaba interferindo também na própria constituição do casamento, de um relacionamento mais estável”, observa a médica ginecologista Fernanda Medeiros.

Ela conta que quando recebe pacientes que já passaram dos 30 anos, sempre questiona a questão da maternidade. Se a mulher já tem a maternidade nos planos, existem opções hoje em dia que garantem uma gestação mais segura mesmo com a idade um pouco mais avançada. “A vitrificação, que é o congelamento dos óvulos, é um procedimento que dá mais segurança. A procura tem sido cada vez maior.  A partir dos 35 anos, a qualidade e quantidade dos óvulos cai acentuadamente e isso gera mais chances de, engravidando, a mulher vir a ter uma criança com alguma questão de saúde. O congelamento garante uma genética mais jovem mesmo que a gravidez venha mais tarde”, detalha a profissional, que atende nas Clínicas CAM e no Hospital São Rafael.

Apesar da maior garantia, o procedimento de congelamento também traz preocupações por precisar atingir a gestação de uma maneira não natural. “É um procedimento válido porque o óvulo tem a mesma idade da mulher. Mas só pelo fato de ser com processos artificiais, a gente já considera como uma gravidez de maior risco”, detalha Fernanda. 

A idade da gestante, porém, segundo os especialistas, não é um marcador isolado de risco na gravidez. “As mulheres têm se cuidado bastante e, muitas vezes, há pacientes mais velhas que têm a saúde ótima. A gravidez vai ser de risco a depender do histórico dessa mulher”, explicou a médica.

Casamentos em Salvador recuaram 11,5%, diz IBGE

Além dos nascimentos, a pesquisa divulgada pelo IBGE ainda traz números relativos a casamentos, divórcios e guarda compartilhada. Entre as capitais, Salvador se destacou com a segunda maior redução percentual no número de casamentos registrados entre 2018 e 2019 e a terceira maior redução absoluta. Após três anos em alta, as uniões registradas na capital baiana recuaram 11,5%, passando de 16.471 em 2018 para 14.578 em 2019 (menos 1.893 casamentos).

Houve, no entanto, aumento da união entre pessoas mais velhas. Casamentos em que pelo menos um dos cônjuges tinha mais de 45 anos cresceram 4,2% em relação a 2018. Apesar desse aumento, os matrimônios baianos cresceram de modo geral depois de superar recordes sucessivos nos últimos cinco anos.

Em comparação com o ano anterior, a queda foi de 3% ou de menos 2.066 casamentos. A redução foi puxada pelos casamentos entre pessoas de sexos diferentes, que diminuíram de 68.335 para 66.232. Já os casamentos entre pessoas do mesmo sexo aumentaram pelo segundo ano consecutivo, de 288 em 2018 para 325 em 2019, um aumento de 12%.

O ano passado também foi de forte baixa para os divórcios, tanto na Bahia quanto em Salvador. No estado, em 2019, foram concedidos, pela Justiça ou por meio de escrituras extrajudiciais, 20.087 divórcios, 4.865 a menos do que em 2018 (-19,5%). O número representa a maior queda absoluta no número de divórcios no país, além de ter sido uma redução recorde para a Bahia. Em Salvador, na passagem de 2018 (6.013) para 2019 (5.159), a queda nos divórcios foi de 14,2% (menos 854 divórcios). Esse recuo ocorreu após cinco anos seguidos de aumentos nas dissoluções, que cresciam desde 2014 e foi o maior desde 2013 para a capital.

Em 2019, a guarda compartilhada seguiu crescendo. Dos 20.087 divórcios concedidos na Bahia, 8.800 foram de casais com filhos menores de idade. Desses, 33% adotaram o regime de guarda compartilhada, percentual acima do verificado em 2018, que foi de 31,6%. A adoção da guarda compartilhada continuou mais frequente no estado do que no país, onde o regime foi aplicado em 26,8% dos divórcios envolvendo crianças.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio