Com dívida de R$ 570 mil, Igreja de Santo Antônio Além do Carmo arrecada fundos para reforma

Construída no século XVI, a igreja de Santo Antônio Além do Carmo, no Largo de Santo Antônio, em Salvador, corre o risco de não mais realizar missas. Na prática, há 20 dias já não as realiza, pois está interditada para obras, que se iniciaram há dois meses. A parte mais comprometida da paróquia é o telhado – as telhas já não seguram a água das chuvas e tem comprometido paredes, forros, pisos e arcos. A infiltração no teto se soma ainda à presença de cupins, bactérias e fezes de pombo, que entram pelas falhas da estrutura. O entrave é que a reparação custa caro: ao todo, é preciso R$ 570 mil só para recompor o teto. 

Sem recursos, a Arquidiocese de Salvador mobilizou uma campanha de arrecadação de fundos e doações. Até agora, todo o dinheiro levantado, que corresponde a R$ 200 mil, veio dos fiéis, amigos e frequentadores da igreja. A quantia não chegou a nem metade do necessário e os próximos 15 meses terão um custo em torno de R$ 33 mil reais. “A igreja já vem com bastante tempo precisando de uma grande reforma, porque a última que aconteceu foi em 1905. De lá para cá, temos feito reparos”, explica o padre Ronaldo Marques Magalhães, responsável pela Paróquia Santo Antônio Além do Carmo.

Segundo o padre, várias solicitações de ajuda financeira foram feitas ao  Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas todas negativas. “Eles não podiam, diziam que não tinham verba, e foi se prolongando”, conta Magalhães. Até que, em 2014, a partir de uma denúncia sobre o precário estado de conservação da igreja, o caso foi parar no Ministério Público Federal (MPF). Cinco anos depois, a Justiça decidiu que era de responsabilidade da Arquidiocese reparar o imóvel. “Tive que assumir, junto com a comunidade, a reforma de todo o telhado da igreja, que está bem danificado. Foi com a cara e a coragem, porque o dinheiro não tem”, esclarece o padre. 

A justificativa do Ipac para o não repasse de recursos é que a Paróquia não é tombada pelo governo estadual, somente o Forte Santo Antônio Além do Carmo. Por isso, o instituto não tem responsabilidade. A área também não possui tombamento individual pelo Iphan, mas faz parte do Conjunto Arquitetônico, Paisagístico e Urbanístico do Centro Histórico de Salvador, tombado em 1984 pelo mesmo. O registro, no entanto, não garantiu o financiamento da reforma. Resta, agora, ter fé para que as doações sejam suficientes. 

Telhado da igreja apresenta muitos problemas e já está em obra (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Fiéis se mobilizam para doações
A devota de Santo Antônio Anna Franco, 62 anos, frequenta a igreja há 34 anos, desde que começou seu comércio no bairro, na lanchonete Travessas. Foi naquele templo que ela comemorou alguns de seus aniversários e os 95 anos do pai, com missas. “Quando você vai na igreja de Santo Antônio, você sempre é acolhida por aquele olhar diferenciado. Fico muito sentida de ver a igreja assim, porque o Santo tem muitos devotos. Se cada um desse 10 reais, já ajudaria muito para que a casa de Santo Antônio permaneça em pé”, sugere Anna. 

Dentre as ações para arrecadação de fundos, estão o bazar, rifas e venda de quentinhas para os almoços de domingo. Já rolou bacalhau, quiabada, feijoada e carne do sol com purê de aipim. Cada semana, uma família assume os custos das 50 marmitas e vende a R$ 20 a unidade. Por mês, os almoços representam R$ 4 mil da dívida de R$ 33 mil. A autônoma Luzia Santana, 59, é uma das mais engajadas com as mobilizações. 

“Estamos fazendo tudo que você puder imaginar para arrecadar fundos. Está muito longe de alcançar nosso objetivo, mas estamos lutando com muita fé, pedindo a intercessão de Santo Antônio, para que nossa igreja não permaneça fechada. Se isso acontecer, vai ser uma lacuna muito grande para os fiéis de Salvador”, avalia Luzia, que frequenta a paróquia há 26 anos e não falta uma trezena de São Antônio.

A sensação, segundo ela, é de impotência. “É um sentimento de impotência porque estamos tentando de todas as formas, mas não contamos com recurso do governo”, desabafou a devota. A próxima grande ação será no dia 25 de dezembro, data de aniversário de padre Ronaldo. Ao invés de presentes, os párocos organizaram uma live solidária para juntar as moedas para a reforma do teto da igreja. “Vamos ter sorteio e brindes para ver se motiva as pessoas a doarem”, conta Anna Franco. 

Reforma além do telhado
A reparação do telhado, de acordo com o padre, é só o início dos trabalhos que precisam ser feitos na igreja. “Temos a parte interna e externa da igreja que também precisa ser reformada. É um trabalho minucioso e bem mais caro, nem se compara com o do telhado. A comunidade certamente não tem condições de fazer”, reforça o religioso, que estima, no mínimo, de R$ 5 a 6 milhões para que a paróquia fique em bons estados. A previsão para o término da manutenção do teto é de seis meses.

“Estamos na esperança muito forte de que em junho do ano que vem possamos fazer e rezar a trezena de Santo Antônio já com o telhado todo pronto”, deseja o padre.

A igreja do Santo Antônio recebia, em média, 600 pessoas por semana, antes da chegada da pandemia do novo coronavírus. Com o início das obras de restauração do telhado, as missas estão sendo feitas na Igreja Nossa Senhora da Conceição do Boqueirão, aos domingos, e são também transmitidas pelo YouTube da paróquia. A secretaria da paróquia, no entanto, continua em funcionamento, das 8h às 12h e das 14h às 17h, de segunda à sexta, e aos sábados de 8h às 12h. O telefone para contato é o (71) 3242-6463. 

História da Igreja
A igreja de Santo Antônio Além do Carmo foi o local onde Irmã Dulce – canonizada Santa Dulce dos Pobres pelo Vaticano em outubro de 2019 – foi batizada e fez a primeira comunhão, em 1922. Ela foi construída em 1594, quando Cristóvão de Aguiar Daltro, senhor de engenho de Água de Meninos, deu início a construção de uma pequena capela em honra a Santo Antônio. Segundo a Arquidiocese de Salvador, no século XVI, o Padre Antônio Vieira utilizou o púlpito da igreja para pregar seu sermão ‘À beira das trincheiras’, a fim de impedir que tropas holandesas, comandadas por Maurício de Nassau, conquistassem Salvador. Por 40 dias, as trincheiras defenderam a cidade da invasão. 

Os estudos indicam que a primitiva capela tenha sido aumentada no início do século XVII, pois consta que, durante a invasão holandesa de 1624, uma ‘igreja’ no local foi ocupada pelos invasores, sendo que o culto só foi restabelecido ali após a batalha ocorrida no ano seguinte, que libertou a cidade. Em 1638, ela foi transformada em fortificação contra os holandeses. No ano de 1648, houve a reconstrução da igreja e ela foi elevada a Igreja Matriz, ou seja, aquela . No século XVIII, houveram algumas reformas onde se deu à igreja o tamanho e aspecto atual. Aproximadamente em 1813, foi realizado o entalhamento dos altares atuais e no século XX foi realizada a pintura em ‘escaiola’, imitando o mármore, das paredes. Com fachada típica do estilo rococó e talha neoclássica, a expressão “Além do Carmo” é uma alusão à posição geográfica da paróquia, uma vez que a igreja ficava situada além de uma das portas de entrada da cidade de Salvador – mais especificamente, as Portas do Convento do Carmo.

Cronologia

  • 1594 – Construção de uma pequena capela no local 
  • Século XVII – Provável ampliação da capela original.
  • 1624 – A igreja é ocupada pelas tropas holandesas 
  • 1638 – Igreja é transformada em fortificação contra os holandeses 
  • 1648 – Criação da paróquia e reconstrução da igreja
  • Século XVIII – Reformas dão à igreja o tamanho e aspecto atual
  • 1813 – Entalhamento dos altares atuais 
  • Século XX – Pintura em ‘escaiola’ das paredes
     

Como doar para a paróquia
As doações para ajudar a paróquia a restaurar o telhado podem ser feitas em espécie, por cartão de crédito ou por transferência bancária. Os dados da conta são os seguintes:
Paróquia Santo Antônio Além do Carmo
Banco do Brasil
Agência: 4278-1
Conta Corrente: 7351-2
CNPJ: 15.257.983.0029-14

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio