'Ninguém imaginava que ele faria isso', diz amiga de estilista morta no Itaigara

Ao descobrir que o então namorado tinha sido preso por violência doméstica, a estilista Tatiana de Souza Fonseca, 39 anos, terminou o relacionamento e se mudou da casa onde morava no Caminho das Árvores. Estava há menos de uma semana residindo em um edifício no Itaigara e não atendia às ligações e nem respondia mensagens de João Miguel Pereira Martins, 40, o DJ Frajola. Ele não aceitava o término e, na manhã desta quinta-feira (10), o DJ atirou várias vezes na estilista ainda na garagem do prédio dela. Tatiana foi socorrida para o Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu. Momentos depois, João Miguel foi encontrado morto em seu apartamento.

A Polícia Civil informou que a 1ª DH/Atlântico, do DHPP, vai concluir o inquérito sobre o feminicídio de Tatiana. Ela foi morta às 7h15, depois de ser perseguida e baleada por João Miguel Pereira Martins. “O feminicida fugiu num veículo que foi monitorado por equipes da Polícia Militar e da 16ª DT/Pituba e seguiu para casa, onde se suicidou”, diz nota enviada ao CORREIO.

A delegada Milena Calmon está à frente das investigações e já ouviu funcionários do prédio onde ocorreu o crime e familiares da vítima. As imagens do circuito de segurança do prédio também foram solicitadas. “Inicialmente, apurou-se que João e Tatiana se relacionaram por apenas 38 dias e ela decidiu romper, depois de descobrir que ele já havia sido preso por violência doméstica”, aponta outro trecho da nota.

Ainda de acordo com a PC, João Miguel havia sido preso pela Deam de Brotas, em 2012, depois de sequestrar e torturar uma ex-namorada. Em 2016 ele foi denunciado por outra ex, por perseguição e ameaça. O DJ também já foi condenado por roubo majorado, em 2019.

Tatiana vai ser enterrada em Rio Real, sua cidade natal e onde mora a família. Segundo o Instituto Médico Legal, o corpo já foi liberado para o translado.

Estilista se mudou para fugir das perseguições do ex-namorado (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

Crime 
Tatiana morava no apartamento 402 do edifício Vila Pituba, na Alameda Carrara. Ela havia se mudado do Caminho das Árvores para o local neste final de semana. Por volta das 7h, tinha acabado de sair com o cachorro. Cerca de 15 minutos depois, se aproximava do prédio quando foi surpreendida por João Miguel, que segurava uma arma. “Cheguei a pensar que seria um assalto, que era um ladrão tentando tomar o cachorro dela”, contou o porteiro do prédio, que preferiu não revelar o nome.

O porteiro acrescenta que tudo aconteceu muito rápido. “Ela correu e conseguiu abrir à força o portão e correu para a garagem do prédio. Foi quando ele deu o primeiro tiro e eu saí da guarita para me proteger. Foi aí que logo depois, escutamos cincos disparos que vinham da garagem. Quando corri para a frente do prédio, vi o homem armado entrado num carro preto e saindo”, contou o porteiro. 

Mesmo ferida, Tatiana ainda conseguiu caminhar por alguns metros, provavelmente na tentativa de pedir socorro, mas caiu na rampa da garagem. Moradores acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e uma equipe a socorreu para o HGE, onde não resistiu.  

Um dos moradores do prédio, que correu para a janela com o barulho dos tiros, também viu João Miguel fugindo. “Ele segurava uma arma com o cano prata. Na hora gritei: ‘Anotem a placa, anotem a placa’, porque ele estava num carro”, disse o vizinho, que preferiu não se identificar. 

Namoro
A estilista trabalhava na rede de lojas de roupas femininas Boah, no Shopping Paseo, no Itaigara. Antes, trabalhou por cerca de 8 anos na rede de departamentos Zara. Após o assassinato de Tatiana, a Boah fechou todas as suas lojas desde às 14h de quinta-feira (10). Em postagem no Instagram, a empresa afirmou que seus colaboradores precisavam se resguardar.

“Ela era uma pessoa do bem, tranquila, adorável e só queria encontrar um amor, casar e ter filhos, era o que ela sempre comentava com a gente. Estamos arrasados”, contou uma amiga da vítima.

Segundo a amiga, Tatiana conhecia João Miguel há pouco tempo. ‘Eles se viram pela primeira vez quando caminhavam na Pituba, cada um com o seu cachorro. Daí conversaram, trocaram telefones, mensagens e passaram a se ver com mais frequência e logo começaram a namorar”, contou. 

O começo do namoro foi tranquilo. Para as amigas, Tatiana contou que João Miguel era um “cara maduro”, relembrou uma pessoa próxima da vítima, que não quis ser identificada. Depois de um tempo, a estilista começou a perceber uns sinais estranhos: muitos telefonemas, a necessidade de se encontrar sempre. Sufocada, decidiu saber mais sobre o passado do DJ e descobriu os casos de agressões. 

“É natural alguém procurar saber da vida da pessoa com quem está se relacionando, ainda mais um dj, que vive em eventos. Então, ela descobriu que ele tem um histórico de violência contra mulher e decidiu terminar”, relatou a pessoa próxima.

João Miguel ficou inconformado e resolveu cercar Tatiana. “Enviava inúmeras mensagens perguntando onde estava e com quem ela estava, ligava de madrugada, seguia ela até o trabalho e em casa. Quando ela saia, ele ia para a casa dela e ficava fazendo perguntas para o porteiro. Por causa disso, ela resolveu fugir”, disse a amiga, que emendou em seguida: “A gente dizia para ela dar queixa, mas, com medo, preferiu somente sair de casa”. 

Depois de se mudar, trocar o número de telefone e excluir as redes sociais, a sensação era de que o ex tinha desistido da perseguição. “Ontem (quarta-feira, 09, ela tomou uma cerveja com uma amiga nossa. Ela contou que Tatiana estava feliz e não tinha tido mais contato com ele. Ninguém imaginava que ele faria isso hoje (na quinta, 10) de manhã”, contou uma amiga ainda em choque.

Comoção
A morte brutal de Tatiana causou comoção entre as pessoas que moram e trabalham no edifício Vila Pituba. O porteiro que testemunhou o crime disse: “Ela estava aqui há pouco tempo, mas desde o primeiro dia falava com todo mundo, sorria, uma moça tranquila. Uma tragédia. Que Deus conforte o coração da família dela”.

O analista de sistemas André Viana, 42, morador do prédio, também lamentou o crime. “A gente fica atônito, porque acreditamos que estamos seguros em nossas casas, quando na verdade não estamos. A moça era uma pessoa bem tranquila, que apenas não queria ser mais uma vítima da violência, mas acabou sendo”, declarou. 

A empresária Rita de Cássia, 48, dona de um salão de beleza na mesma rua do edifício onde ocorreu o crime, disse que conhecia Tatiana. “Ela foi minha cliente numa época. Ela voltaria a ser com a vinda para cá, mas infelizmente, isso tudo aconteceu. Era uma ótima pessoa”, lamentou.

Sequestro da ex-namorada
O sequestro da ex-namorada de João Miguel aconteceu em 2011. Quase um ano depois, ele foi detido pelo crime enquanto jantava com outra namorada, grávida de cinco meses, num restaurante na Barra. Ele estava foragido da Justiça desde que passou a viver escondido ao saber da decretação da prisão preventiva oficializada no final de 2011. O DJ foi condenado pelo crime de cárcere privado. 

O sequestro aconteceu após a ex-namorada chamada Laura ter procurado a Deam/Brotas para denunciar as agressões físicas que vinha sofrendo. O casal namorou por 8 meses e o DJ estava inconformado com o término. João Miguel ficou 8 dias preso pelas agressões e foi liberado pela Justiça. Ao ser solto, planejou uma vingança, descobriu onde a vítima morava, adquiriu uma peixeira, algemas, sedativos e alugou um veículo com o qual realizou o sequestro, em 14 de dezembro de 2011.

O DJ lançou o carro sobre a moto que Laura pilotava para ir trabalhar. Depois de derrubar a motocicleta, a vítima foi arrastada pelos cabelos até o automóvel que ele conduzia. Algemada e amordaçada, ela foi deixada  em um matagal próximo ao condomínio Planeta Água, em Camaçari, enquanto o DJ Frajola devolvia o carro alugado e buscava a motocicleta. 

Laura conseguiu escapar e pedir ajuda aos vigilantes do condomínio, que acionaram a polícia. No local usado como cativeiro foram apreendidos a peixeira, o remédio sedativo e uma sacola contendo roupas e o notebook de João Miguel. Ele foi indiciado por sequestro, roubo e agressão.

Quase 100 assassinatos  em 2020

O número de feminicídios na Bahia, entre janeiro e novembro de 2020, ultrapassou o registrado no mesmo período de 2019. Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) 98 casos de feminicídio foram registrados no estado nos últimos 11 meses. No mesmo período do ano passado, foram contabilizados 92 casos. Em todo 2019, a Bahia registrou 101 casos de feminicídio, segundo a pasta.

O secretário da Segurança Pública, Maurício Barbosa, afirmou que a Bahia vem apresentando a redução de todos os índices de violência contra mulher, com exceção do feminicídio:.

“Para isso, nós ampliamos a forma de defesa e proteção às mulheres, permitindo que a delegacia digital registrasse as ocorrências de violência contra mulher. E, também através da delegacia digital, existe a possibilidade de requerer ao delegado de Polícia a medida protetiva que as mulheres precisam para ficar longe dos seus agressores”, disse Barbosa, ao assinar  o Protocolo de Feminicídio na quinta-feira (10).

O protocolo vai apresentar orientações, diretrizes e linhas de atuação para o aprimoramento da investigação e ação judicial do feminicídio. Para a secretária estadual de Políticas para as Mulheres,  Julieta Palmeira, o documento é uma conquista e um avanço: “É uma conquista também dos órgãos do Estado, como o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, a Defensoria Pública, porque representa a assinatura do protocolo para prevenir, investigar e julgar o feminicídio na Bahia. Isso representa sem dúvida nenhuma um avanço na proteção mais efetiva das mulheres”, afirmou.

Enquanto os feminícidios crescem, o número de medidas protetivas de urgência concedidas na Bahia em 2020 caiu na comparação com 2019. Dados do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) informam que 12.808 medidas foram conferidas até 30 de novembro deste ano, 1.287 a menos do que no mesmo período de 2019 (14.095). Em Salvador também ocorreu a redução. Até 30 de novembro, foram 3.204. No mesmo período de 2019, 3.784.

A desembargadora Nágila Maria Sales Brito, presidente da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJ-BA, explica que as medidas protetivas são uma possibilidade em casos em que não ocorreu a prisão preventiva de um agressor.

“A medida protetiva visa prevenir o feminicídio ou uma lesão grave que pode ocorrer após uma incidência mais leve. Se trata de uma ordem judicial que deve ser cumprida sob a pena de responder por outro crime e ser preso. Se o juiz souber que a medida protetiva foi descumprida, ele pode determinar a prisão a depender da medida concedida”, afirma a desembargadora.

Existem inúmeras medidas protetivas, uma delas determina a distância que o agressor deve manter de alguns locais frequentados pela mulher, como a casa e o trabalho. De acordo com ela, o recomendado é proibir o acesso do homem no raio de 1 Km do local para que a polícia tenha tempo de agir em caso de descumprimento da ordem.

Outras ordens judiciais do tipo proíbem o contato do agressor com a vítima e sua família por qualquer meio, como ligação, WhatsApp e e-mail. Também existe uma medida que suspende o porte e/ou a posse de arma do agressor.

Segundo a desembargadora, a maioria das medidas são cumpridas. Brito ressaltou ainda que é importante ter agilidade, inclusive, para intimidar o agressor. A Ronda Maria da Penha também tem um papel fundamental na defesa das mulheres. 

“A depender da gravidade do fato, como em casos de reincidência da agressão ou lesões mais graves, é determinado que a mulher seja acompanhada pela Ronda Maria da Penha, que fiscaliza o cumprimento da medida protetiva”, explica Nágila Maria Brito.

O uso da tornozeleira eletrônica no agressor e do botão de alarme, também conhecido como botão do pânico, para a vítima também é recomendado, mas a quantidade de equipamentos disponíveis impede que todos os casos possam se beneficiar desse dispositivo de segurança.

Sinais de violência
A violência doméstica contra a mulher acontece em ciclos. Primeiro, há aumento de tensão, depois a agressão de fato e, por fim, uma fase de tranquilidade e reconciliação. A psicóloga comportamental Marta Érica Souza explica que o início do processo violento é sutil, por isso, é preciso ficar atenta às tentativas do parceiro de cerceamento de liberdade.

Na fase do aumento de tensão, o agressor se irrita com coisas mínimas, como se a mulher estivesse sempre agindo para provocá-lo. Então, começa a humilhá-la e a proibir algumas ações. Em seguida, vem o ato de agressão, que pode ser verbal, física, moral, patrimonial e psicológica.

“Depois da agressão, o agressor se arrepende e sempre tenta a reconciliação agindo com muito cuidado. Nesse período, a vítima se sente feliz e segura. Mas chega uma hora que essa calmaria acaba e volta o aumento de tensão. Nesse processo, a vítima não entende o ato como uma agressão, acha que ela agiu errado para desencadear essa violência”, explica a psicóloga, que ressalta que a culpa nunca é da vítima.

Os sinais do começo de um processo violento na relação são sutis por serem camuflados em um discurso de preocupação e proteção, podendo se configurar em um ciúme excessivo e a proibição de encontrar amigos, por exemplo. 

Segundo a presidente da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJ-BA, o primeiro ano após o término de uma relação violenta é o mais perigoso. 

“Uma mera ameaça pode significar um feminicídio futuro. Após o término, o período de maior risco para o feminicídio dura um ano. O pior momento é logo no fim da relação. Peço que as mulheres que sofreram violência no relacionamento observem as situações nesse período para evitar correr riscos maiores”, indica a desembargadora Nágila Maria Brito.

A psicóloga Marta Érica Souza dá outras indicações para se proteger de agressores. “É necessário acender um alerta se o homem te impede de encontrar familiares e amigos. Também é importante conhecer a família e os amigos do companheiro para entender melhor quem é a pessoa”.

Caso o companheiro só faça críticas e dê respostas negativas, a mulher precisa parar para pensar o que essas mensagens significam. O ciúme excessivo também não pode acontecer. “Em alguns casos, os homens sempre jogam a culpa na mulher mesmo que ela não tenha causado o problema”, alerta.

Saber como a pessoa era em um relacionamento anterior também é indicado. A psicóloga ainda recomenda conversar com outras mulheres para debater o que são comportamentos saudáveis e o que pode ser perigoso.

Onde receber ajuda

Em casos de violência contra a mulher, é possível fazer uma denúncia contra o agressor tanto presencialmente quanto pela internet. A desembargadora recomenda recorrer às Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM), Ministério Público e a Defensoria Pública para ter mais celeridade no processo.

Também é possível ligar para o 190 em um caso iminente de agressão. O secretário de Segurança Pública do estado, Mauricio Barbosa, ainda indica que mulheres que já têm a medida protetiva também entrem em contato através da Defensoria, do Ministério, da própria Polícia Militar, para serem incluídas no programa de visita da Ronda Maria da Penha.

A delegacia digital é uma opção se a mulher não quiser ou não tiver condições de ir presencialmente às unidades, podendo registrar a ocorrência e também requerer à autoridade policial algum tipo de medida protetiva contra o agressor. Todas as delegacias atendem casos de violência contra a mulher.

*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lobo

Fonte: Correio