A senhora da mata: entenda como a maior árvore de pau-brasil do país conseguiu sobreviver por 600 anos

No assentamento Pau-Brasil, em Itamaraju, no extremo-sul da Bahia, o saber popular já alertava: havia por lá pelo menos uma árvore de pau-brasil mais velha do que o próprio Brasil. Possivelmente, era também a mais alta, entre a resistência da espécie no país. Entre os moradores da área onde hoje vivem 51 famílias às margens da BR-101, era comum que a história ganhasse contornos de realeza. 

Nos contos, havia o pau-brasil ‘rei’ – ou a árvore rainha – e o príncipe. Seriam duas, portanto, as árvores mais majestosas na área apontada por ambientalistas como a maior concentração da espécie no país. Em 2009, uma delas foi encontrada. Com 4,6 m de diâmetro, apareceu até mesmo no documentário A Árvore da Música, que mostra como a madeira do pau-brasil tem sido usada para a confecção de violinos e violoncelos pelo mundo. Até então, era considerada a maior.

Mas os locais sabiam: não era aquele o rei – ou a rainha. Existia uma árvore maior. Porém, sua localização permaneceu um mistério até pouco mais de um mês, quando uma expedição formada pelo botânico Ricardo Cardim, pelo mateiro Alex Vicintin, pelo fotógrafo Cássio Vasconcellos, ao lado do guia do assentamento, Uanderson Sousa, chegou ao local exato onde a árvore estava. 

Eles a catalogaram e calcularam que, com 7,13m de diâmetro no tronco e 40 metros de altura, ela teria cerca de 600 anos de idade. Ou seja, mais velha do que a chegada dos portugueses no território brasileiro, ela também se tornou a mais antiga árvore da espécie documentada aqui. 

Com cerca de 40 metros de altura, a árvore pode ser comparada a um prédio de 13 andares (Foto: Cássio Vasconcellos/Divulgação)

“Sempre teve essa história de que tinha um mais velho do que o primeiro, um pouco mais grosso. Por isso, quando chegamos lá, a primeira coisa que veio em minha mente foram as histórias. Existem muitas; algumas reais e outras não. Mas diziam que alguns não consideravam rei como aquele primeiro, que existia outro. Só consegui pensar que as histórias eram reais”, conta Uanderson, que é o responsável por fiscalizar qualquer tentativa de roubo ou desmatamento na área. 

De fato, o tamanho da recém-encontrada era quase duas vezes maior. Com seus 40 metros de altura, ela pode equivaler a um prédio de 13 andares. Já o tronco é mais largo do que um carro popular. 

Remanescentes
O caminho da árvore do pau-brasil com o botânico Ricardo Cardim começou há alguns anos. Em 2016, ele deu início ao trabalho que gerou a mostra Remanescentes da Mata Atlântica, para o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. A partir dali, ele e seu grupo percorreram 12 mil quilômetros de Mata Atlântica, indo de Alagoas a Santa Catarina. 

Mas foi graças ao documentário A Árvore da Música que ele soube que no Assentamento Pau-Brasil, em Itamaraju, ficava aquela que, até então, era considerada a maior do país. Ele contatou a comunidade e a árvore foi fotografada para o livro que foi lançado em 2018. 

“Muita gente falou que existia um jequitibá maior, que tinha uma peroba maior. Mas ninguém até então falava de um pau-brasil maior. Em setembro desse ano, voltamos ao assentamento e Uanderson disse que parecia que tinha um pau-brasil maior do que aquele que conhecíamos”, conta Cardim. 

Só havia uma única pessoa na comunidade que sabia onde estava esse pau-brasil. Era um idoso que trabalha na plantação de cacau cabruca do assentamento. Lá, antes da reforma agrária, em 2009, a área tinha sido uma fazenda de cacau abandonada. O cultivo foi mantido e a comunidade assentada faz, hoje, um plantio sustentável. 

Há cerca de 10 anos, esse senhor trabalhava na plantação quando acabou se afastando. Ao sair um tanto da área onde estava, algo lhe chamou atenção. Era uma localidade cheia de madeiras chamativas. Ao se aproximar, notou o pau-brasil. Ele chegou a contar ao então presidente do assentamento, hoje já falecido. No entanto, a história se perdeu. Por muito tempo, esse homem nem mesmo teve certeza de que conseguiria voltar ao local certo. 

O tal senhor, mais reservado até para conversar, relutou no início, quando foi procurado pelos pesquisadores. Por um mês, Ricardo Cardim falava quase todos os dias com Uanderson para saber se o homem tinha aceitado levá-los até lá. Até que, um dia, no fim de outubro, ele aceitou. 

Ricardo Cardim pesquisa as árvores remanescentes da Mata Atlântica desde 2016 (Foto: Claudio Vasconcellos)

Do centro do assentamento até a árvore, a distância fica em torno de seis quilômetros em linha reta. No entanto, é uma área pouco explorada da comunidade. Ricardo Cardim lembra que, ali, conseguiu identificar uma floresta muito antiga. Certamente, outras árvores podem ter mais de 500 anos, a exemplo de uma sapucaia na mesma área. Logo concluiu que se tratava de uma mata pré-cabralina. 

Até que, no meio de tantas espécies, estava a árvore do pau-brasil. “Ela é gigantesca. Assim que vi, me deu uma impressão muito forte. Parecia uma escultura, de tão velha, de tão retorcida. Quando vi, falei ‘estamos diante de um patrimônio da humanidade”, diz Cardim. 

Lá mesmo, ele estimou a idade de 600 anos com base no diâmetro do tronco da árvore. No mestrado em Botânica na Universidade de São Paulo (USP), Cardim estudou dendrocronologia, o método de datação da idade das árvores a partir do tronco. O cálculo leva em conta o tamanho em que árvores da mesma espécie estão em variadas idades. 

Mas ela não está sozinha. Ao lado, deixou filhas, netas e bisnetas. Ao redor desse pau-brasil, há exemplares menores da mesma espécie, provavelmente de sementes que prosperaram ao longo dos anos. Segundo o botânico, há desde mudas de 5 cm de altura até arvoretas de 5, 6 metros. 

“Para quem é botânico e estuda árvores, esse é o encontro mais emocionante que se pode ter. Além de ser gigantesca, que é algo muito raro, é uma árvore que representa o nosso país, ao mesmo tempo em que foi explorada e destruída sem limites ao longo dos séculos. Mostra como a natureza é surpreendente, por ter conseguido guardar essa joia até o século 21”, analisa. 

A idade foi calculada pelo diâmetro do tronco da árvore (Foto: Cássio Vasconcellos/Divulgação)

Resistência
Mas como essa árvore conseguiu resistir por tantos séculos ali na área do assentamento? Há algumas explicações e, por mais incrível que pareça, pelo menos uma delas se deve ao acaso. O assentamento, que recebeu a posse da terra pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2007, foi estabelecido em uma área que pertencia a uma fazenda abandonada e desapropriada. 

Nessa fazenda, já havia a produção de cacau pelo sistema cabruca, como a comunidade deu continuidade até hoje. Pelo sistema, o sombreamento das árvores ajuda o desenvolvimento do próprio cacau. É diferente da cultura da soja, por exemplo, que precisa desmatar toda a área para ser produzida. 

Assim, aconteceu de esse pau-brasil ficar séculos escondido em meio a uma localidade pouco acessada e também protegido pelo sistema de cultivo do próprio cacau, resistindo até hoje. O número de árvores nessas condições é ainda maior, quando são consideradas todas as espécies. Um cálculo feito pelos próprios assentados estima que existam mais de 800 árvores de grande porte na área da comunidade, de acordo com a coordenadora do local, Claudia Vicente. 

Só que, entre tantas, a concentração de pau-brasil chama atenção. Não é de hoje que eles são acostumados a receber pesquisadores e turistas para conhecer espécies da árvore, especialmente porque ficam ao lado do Parque Nacional do Descobrimento. 

Com cerca de 200 pessoas vivendo lá hoje, o assentamento está entre os chamados Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS).

“Essas famílias vieram para cá no intuito de cuidar desse patrimônio, do que a gente tem hoje, da fauna e da flora”, explica Claudia. 

Ela sabe que o assentamento tem um papel importante na proteção da espécie; agora, ainda mais. “É uma árvore muito perseguida, ainda hoje, por ser a matéria-prima do violino. Se a gente abrir mão desses, eles vão embora. É muito importante saber que a gente pode fazer com que essa árvore se multiplique” diz. 

Genética única 
Para o o biólogo Domingos Cardoso, professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e doutor em Botânica, o assentamento é mesmo um dos motivos para a árvore ter resistido ali. “Se não fosse uma área de reserva, provavelmente teria virado pasto”, avalia. De fato, Itamaraju, cidade de 64 mil habitantes, detém o maior rebanho bovino da Bahia com 172 mil cabeças em 2019, segundo o IBGE. 

Segundo ele, a área onde fica o assentamento vem sendo objeto de pesquisas há mais de uma década justamente pela biodiversidade encontrada ali.

“Essa área é tão grande e tão importante que não seria surpresa encontrar uma árvore ainda maior no futuro. Certamente, ainda tem muito o que percorrer ali e, de repente, a gente pode encontrar outra senhora majestosa que pode ser até a mãe dessa que foi descoberta”, analisa. 

As folhas do pau-brasil têm sido objeto de estudo ao longo dos anos; espécie é parente das leguminosas (Foto: Domingos Cardoso/Divulgação)

Hoje, a espécie está sob ameaça de extinção na natureza, como explica o professor. Isso significa que o risco é de que as árvores nascidas naturalmente, sem um plantio coordenado nas cidades, por exemplo, desapareçam. No entanto, ela já é cultivada em todo o país, o que significa que a espécie, em si, dificilmente seria perdida. 

Apesar de ter se adaptado a outras localidades, o pau-brasil é uma espécie considerada endêmica da Floresta Atlântica, que é uma floresta úmida. As pesquisas da área indicam que a árvore do pau-brasil vive nesse território há 50 milhões de anos. 

Há menos de cinco anos, os pesquisadores brasileiros fizeram uma reclassificação do gênero do pau-brasil depois de descobrirem que a linhagem da espécie é única. Ao contrário do ipê amarelo, por exemplo, que tem várias espécies, o pau-brasil é único. Por isso, ele até mudou de gênero, pela taxonomia. 

As flores da árvore do pau-brasil são conhecidas pelo perfume marcante (Foto: Domingos Cardoso/Divulgação)

“A gente achava que o pau-brasil pertencia a um grupo que tem o pau-ferro, a catigueira. Só recentemente descobrimos que ele tem um ramo evolutivo único, por isso agora tem um novo gênero”, explica. Por isso, o nome científico da espécie também passou de Caesalpinia echinata a Paubrasilia echinata. 

Histórico
Ainda que a linhagem evolutiva aponte para a presença da espécie pau-brasil no país há 50 milhões de anos, os primeiros documentos que registram as árvores por aqui são de 1530, de acordo com a pesquisadora Maria Hilda Baqueiro, professora titular da Ufba e diretora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. 

O ciclo de extração do pau-brasil começou logo nos primeiros anos de colonização do território. Foi, portanto, a primeira atividade econômica desenvolvida aqui. 

“Os índios cortavam e traziam a madeira para determinados pontos da costa, onde faziam a troca por objetos de metal. A primeira grande crise decorreu do fato de outras nações, principalmente a França, também comercializarem com os índios esse produto”, explica, citando o episódio do preposto francês conhecido como Caramuru. Já o primeiro registro de embarque de pau-brasil para fora do país é de 1514. 

No começo, o grande atrativo do pau-brasil era a possibilidade de produzir tinta vermelha (Foto: Cássio Vasconcellos)

Na época, ainda não havia a descoberta da madeira para a confecção de violinos. O grande atrativo dela, na verdade, era a possibilidade de produzir tinta vermelha. Foi a partir dessa exploração e da necessidade de manter o controle português que são criadas as capitanias hereditárias, assim como o governo geral. 

“Nossas atividades econômicas, expansão da conquista e ocupação do território decorrem da riqueza obtida com a exploração do pau-brasil”, diz a professora. 

Itamaraju fica a 30 km do Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal – a primeira porção de terra avistada por Pedro Álvares Cabral e sua tripulação.

Visitas
No caso do pau-brasil de 600 anos, em Itamaraju, é possível que ele ajude a desenvolver outra atividade econômica: o turismo. No entanto, como defendem tanto a comunidade quanto o botânico Ricardo Cardim, esse turismo deve ser operado pelo assentamento. Só assim poderia ser sustentável. 

Segundo Uanderson Sousa, a comunidade deve criar uma trilha específica para a chegada ao local. Mas, desde já, quem quiser conhecer a rainha da localidade pode procurá-los. A trilha deve ter entre uma hora e uma hora e 20 minutos de caminhada. 

“Nós já preservávamos e vamos continuar preservando. Aqui, você não pode desmatar, fazer queimada ou qualquer coisa que possa vir a degradar ou atingir a mata”, reforça. 

Para o professor Domingos Cardoso, da Ufba, é preciso investir em expedições de turismo ambiental para conhecer árvores como essas, assim como acontece com as baleias jubarte, por exemplo. 

“Só quem chega e olha para cima sente a beleza do que é  dimensão e a energia que a gente tem ao olhar e abraçar um tronco, uma árvore dessa. Se a gente já se impressiona com as árvores nas cidades, imagina uma beleza dessa no meio natural. É preciso conhecer para preservar”, defende. 

Na natureza, pau-brasil pode chegar a 800 anos
A expectativa de vida de uma árvore de pau-brasil vai depender da situação onde ela vive. Se ela estiver plantada em uma área urbana, pode viver 40, 50 anos, no máximo segundo o pesquisador Mario Tommasiello Filho, professor do Departamento de Ciências Florestais da USP e coordenador do Laboratório de Anatomia, Identificação e Densitometria de Raios-X em Madeira. 

“Não só pelo estresse das condições urbanas mas também há ferimentos de raízes e da copa pelo corte de galhos. Essas árvores ficam mais sensíveis. Já em condições naturais, elas podem chegar a 600, 700 e até 800 anos, excepcionalmente”, diz. 

Para entender como uma árvore cresce, é preciso ter uma percepção que vai além do que se vê ao olhar para a árvore. Quando ela cresce, há também um crescimento do sistema radicular – que são as raízes. Nas cidades, muitas vezes esse crescimento é condicionado à dimensão de uma cova da área urbana. Assim, ela fica restrita a uma área previamente determinada. 

É diferente da situação de árvores que crescem em condições naturais, em florestas tropicais, subtropicais e temperadas. De acordo com o professor, elas se desenvolvem a partir da disponibilidade de fatores climáticos que incluem água, temperatura e luz. 

“Então, é a partir da base do tronco da árvore que podemos fazer a datação, a determinação de sua idade. O primeiro metro do tronco é a região mais importante porque contém toda a história do crescimento dessa árvore”, explica. 

Esse desenvolvimento acontece a partir das chamadas camadas de crescimento, que se formam todos os anos. Se alguém planta uma árvore em seu primeiro ano na escola, por exemplo, e ela tem 1cm de diâmetro, vai perceber que à medida que os anos passam, o tronco vai aumentando. 

Devido a um longo processo evolutivo, as árvores desenvolveram estratégias de crescimento em que são reguladas pelas estações, como primavera, verão, outono e inverno. 

Para chegar à idade de uma árvore, é possível contar o número de anéis de crescimento dentro do tronco da árvore. Isso porque, a depender da localização em que estejam, uma árvore pode crescer mais do que outra. 

Um exemplar de uma mesma espécie que está em uma área com muita competição pode crescer 1mm de raio por ano, enquanto uma que não precisa disputar água e luz com outras plantas pode aumentar até 5mm, 6mm ou 7mm anualmente. 

Considerado mais preciso, esse método de análise pelos anéis deve ser feito obrigatoriamente em laboratório. Ele prevê a retirada de pequenas amostras do tronco de forma não destrutiva. Elas são levadas ao laboratório, onde passam por um polimento que permite visualizar a média de crescimento. 

Fonte: Correio