'Clarice é atual porque sua literatura cultiva o respeito pelo outro', diz pesquisadora

Doutora em literatura pela USP e crítica literária, Nádia Batella Gotlib tem seu nome sempre relacionado ao da escritora Clarice Lispector, a quem dedicou e dedica boa parte de sua carreira acadêmica. Entre as publicações da pesquisadora, destacam-se livros como Clarice: Uma Vida que se Conta (1995) e Clarice Fotobiografia (2008), essenciais para a compreensão da obra clariciana.

No momento, envolvida em vários eventos que celebram o centenário, Nádia envereda por novos caminhos que se abrem dentro do mesmo tema, pesquisa a obra e a vida de Elisa Lispector, também escritora. Nesta entrevista, exclusiva para o CORREIO, ela fala sobre o novo projeto e a atualidade de Clarice Lispector em nosso tempo.

CORREIO: Você é considerada hoje uma das maiores autoridades acadêmicas no estudo da obra de Clarice Lispector. Como vê os eventos em celebração aos seus cem anos que, aliás, não se limitam ao Brasil?
Nádia Batella Gotlib:
Vejo com muita alegria os eventos que no momento celebram os cem anos de nascimento de Clarice Lispector. A programação intensa no Brasil e nos vários países mostra que a literatura de Clarice é admirada e respeitada. Essa divulgação fora do Brasil começou em 1954, quando seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, ganhou tradução para o francês. Nas décadas seguintes, o número de traduções foi aumentando a tal ponto que, em 2010, havia 185 edições de livros de Clarice traduzidos para várias línguas em 20 países. De 2010 a 2020, esse número de edições continuou a crescer, pois foram mais 123 traduções em mais 11 países. Para se ter ideia dessa programação intensa, tomo por base os eventos de que tenho participado: fora do Brasil, ainda que sem sair da minha casa, por causa da pandemia, já participei de eventos em dez países diferentes, dos Estados Unidos a Ucrânia. E, no Brasil, também várias universidades, institutos e fundações culturais têm apresentado lives e webnários com palestras, conferências, vídeos, nos quais aspectos da obra de Clarice são discutidos.

Você estará, no dia 17 próximo, em um evento online sobre Clarice, dentro da programação do centenário da Câmara dos Deputados. Qual, em sua opinião, é o ponto central da atualidade de Clarice Lispector hoje?
Clarice é atual em vários aspectos. Em primeiro lugar, sua literatura cultiva o respeito pelo outro. Clarice via o outro como ‘pessoa’. Numa das suas crônicas elogia o pai porque ele, quando queria elogiar alguém, dizia: – Ele é uma pessoa! Trazia, pois, essa admiração pela dignidade humana. Sua literatura é atual porque, sem ser militante, fez denúncia de caráter social. É o caso da crônica Mineirinho, em que reconta história publicada em jornal com a notícia de um criminoso que foi morto pela polícia com 13 tiros! Mostra sua indignação contra a distribuição desigual de renda na crônica Crianças Chatas, ao contar a história da mãe que fica irritada com o filho que não dorme porque tem fome e a mãe não tem nada para lhe oferecer.  Clarice é atual ainda quando registra o respeito pela natureza – plantas e animais. Num momento em que florestas são queimadas e bichos são mortos, sua literatura se impõe como um alerta oportuno. Clarice é atual porque dá voz a desvalidos. Cria personagens que pertencem tanto ao bas-fond carioca quanto ocupam as ruas como morada. 

Você está pesquisando a obra de Elisa Lispector, como é possível, ou não é possível, relacionar o trabalho criativo dessas duas irmãs?
As três irmãs – Elisa, Tania e Clarice – são escritoras. Só que Clarice conseguiu uma projeção nacional e internacional que as duas outras não tiveram. Elisa escreveu sete romances e 3 livros de contos e 1 texto memorialístico. Ela que nos conta a história da família, que teve de fugir da perseguição aos judeus para não serem mortos na Ucrânia. O universo dos romances tem muitos pontos em comum com Clarice: as personagens passam por experiências fortes de perda e de tentativas de superação. Já Tania escreveu apenas um livro, Instante da descoberta, publicado quando tinha 93 anos, e 4 anos antes de falecer. Isso quer dizer que publicou um livro 26 anos depois da morte de Clarice e 14 anos depois da morte de Elisa. Mas, talvez, a grande diferença entre Elisa e Clarice é que Elisa era o ‘baú’ da família e praticava a religião judaica, enquanto Clarice não dava a mesma atenção a fatos da história da família e não seguiu a religião dos seus antepassados. 

Há muitas controvérsias sobre a literatura de Clarice Lispector em relação ao contexto atual do feminismo. Em sua opinião, como podemos situar a obra de Clarice nesse universo, tendo em consideração o seu tempo?
Clarice não era feminista, no sentido de que não aderiu a movimentos e associações. Mas foi a escritora que talvez tenha mais contribuído para a emancipação da mulher, já que sua literatura mostra como se dá o percurso de construção de sua liberdade. E como estruturas sociais retrógradas ainda estão infelizmente vivas na nossa sociedade. No entanto, suas personagens – e a maioria é constituída por mulheres – atravessam o difícil percurso que as leva à experiência da liberdade. É preciso atravessar uma espécie de via crucis ao enfrentar as adversidades para lá chegar

Em sua opinião, que rumos tomarão agora os estudos sobre a obra clariciana?
Há ainda muitos estudos a serem feitos sobre Clarice Lispector. Sua obra tem nível excepcional de qualidade. Quando assim é, o leitor passa pela obra, mas a ela volta. Nem sei quantas vezes li alguns de seus livros. E sempre descubro coisas novas. Sinal de que sua obra é mesmo boa. E se assim é, não se esgota numa só leitura. 

Fonte: Correio