Conheça Viviane Ferreira, cineasta que saiu da periferia de Salvador para o Oscar

De Salvador para o mundo. Viviane Ferreira é a menina dos quatros “C”: Coqueiro Grande, Ceafro, Cefet e Cipó, como se define. Mas, se ela permitir, essas palavras poderiam ter como adicionais o cinema, o carisma, a criatividade e, agora, por que não: o Comitê Brasileiro de Seleção do Oscar 2021.

Mulher, negra, nordestina e de axé, a fundadora da Odun Filmes e da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) foi convidada para presidir este importante espaço responsável por indicar o documentário Babenco, dirigido por Bárbara Paz, como representante brasileiro na disputa pela categoria melhor filme internacional, cuja premiação ocorrerá no dia 25 de abril. Nesta entrevista exclusiva, feita antes da indicação, ela conta os caminhos percorridos e como se enxerga “em muitos lugares” através da perspectiva Sankofa: pensando o passado, o presente e o futuro. Saiba mais sobre a ativista, advogada e cineasta de 35 anos que é a segunda mulher negra a dirigir um longa-metragem de ficção no Brasil – “Um dia com Jerusa” (2020).

Pode nos contar, por favor, a origem e o por que dos “4 C” de Salvador?
Toda minha infância e criação como pessoa, minha formação política, forma de pensar e sentir o mundo foi forjada no Coqueiro Grande (comunidade situada às margens da Estrada Velha do Aeroporto, na altura da Fazenda Grande 4), onde fui criada. Não consigo me pensar no mundo sem o meu paraíso. É lá que está Manso Dandalungua Cocuazenza, o terreiro de angola em que sou filha, neta, bisneta. Foi fundado pela minha bisavó. O Coqueiro Grande é a pedra fundamental da minha existência.  

Depois pensar o Ceafro (atual Instituto Ceafro), onde aprendi a olhar para o mundo politicamente, entendendo esse lugar e a importância do corpo negro como território político. Ação política com o corpo negro como agente em ação constante. Sigo guiada por muitas coisas que aprendi e fui provocada no espaço do Ceafro e por todas aquelas mulheres negras que mantiveram aquele lugar na vanguarda do diálogo intergeracional e da provocação da juventude negra soteropolitana. Foi nesse espaço que conheci Luiz Orlando, o maior cineclubista do Brasil. Homem preto, rasta, que fazia as sessões de cineclube e levava os filmes de Zózimo, Joelzito e Spike Lee e nos dizendo quem são esses caras e suas posições no audiovisual. Luiz me fez a potência deste movimento e deste campo que é o audiovisual negro no Brasil e no mundo.

O Cefet (atual Instituto Federal da Bahia) por ter sido o lugar onde aprendi muito o processo de política institucional. E pensando a partir dos coletivos de estudantes negros que integrei. Ali, como estávamos no ambiente do ensino médio, podendo estudar a relação do estado na sociedade civil e a relação do estudante com o “prédio azul”, a reitoria do Cefet e a nossa atuação e ação política a partir do movimento estudantil, apartidário, pensando as pautas raciais naquele ambiente. O Cefet fala muito de quem sou eu no mundo e como levo a sério essa atuação política em qualquer espaço pelo qual transito.

E a Cipó. O espaço em que interagi pela primeira vez com as ferramentas audiovisuais, o lugar onde pude dialogar com a câmera, o método e metodologia de interação com a imagem. Uma organização voltada para formação de jovens negros da periferia de Salvador. Meu primeiro lugar e assento para formação do audiovisual não foi na universidade, foi na Cipó Comunicação Interativa. Acho importante dizer isso porque temos muitas iniciativas da Cipó pipocando nas diversas periferias do Brasil.

Como se deu o convite para a Comissão do Oscar e quais os desafios?
O convite veio da presidência da Academia Brasileira de Cinema, a partir de indicações de pessoas associadas da academia. É uma comissão composta por profissionais sócios da academia e reconhecidos publicamente pelo setor e com reputação e trajetória legitimada pelos sócios da academia. É uma tarefa que traz muitos desafios porque o audiovisual brasileiro como um todo lida com o desafio interno que é primeiro dar conta de se manter de pé, segundo de responder as demandas de diversificação de sua produção e de sua composição, considerando um país com a diversidade regional, racial, de gênero, que tem o Brasil, e exige que suas instituições também reproduzam essa diversidade em pé de igualdade. O audiovisual é um setor que ainda tem dificuldade de responder, mas conta com instituições e trabalhos muito sérios para vencer esses desafios.

Na Comissão do Oscar não vamos encontrar desafio menor que esse. Se a gente parte do princípio que está dialogando com o setor que ainda não retrata a diversidade de olhares possíveis dentro da riqueza que é o Brasil, a gente vai ter bastante trabalho para encontrar um filme que melhor nos represente. É uma comissão preparada para atender as demandas e dar conta do debate em torno das demandas que vão surgir. Abrir o debate e aprofundar é um ganho para todos. Para mim, para as organizações que represento, como a Apan, e consequentemente um ganho para o audiovisual brasileiro.

[Nota da redação: a entrevista foi feita antes da escolha do documentário Babenco como representante nacional].

Quais os grandes marcos de sua carreira?
O dia de Jerusa, o curta-metragem (quase homônimo ao longa Um dia com Jerusa, também dirigido por ela). Porque é a partir dele que conseguimos dialogar com a audiência que vai além das pessoas e do público que em primeira mão se identifica com aquela narrativa. Dialoga com o mundo. O Festival de Cannes é a projeção para o filme. Contar com a generosidade de Lena Garcia foi e é fundamental. Pensar a possibilidade de pensar um longa com recursos de políticas de ação afirmativas é uma conquista. Entendo esses processos como conquistas coletivas se pegamos todo esforço, mentes e sensibilidades, em vidas empregadas em debate de políticas afirmativas no Brasil. E conseguir fazer recursos advindos dessa produção é uma conquista grande e reconheço ela conectada com minha energia “oguniada” de que há tanto para fazer e realizar. Difícil contar as conquistas e vitórias da trajetória que ainda vejo em passos iniciais.

“A primeira vez que pensei em produzir uma imagem e tentar descobrir como foi produzida foi assistindo A Lagoa Azul – ou De volta à Lagoa Azul, sempre confundo. No mesmo dia em que minha tarefa era ajudar Tia Nenga a lavar o tanque”

Qual sua percepção do cinema brasileiro na atualidade?
É real que o cinema brasileiro compartilha da crise de audiência. Já compartilhava antes da pandemia – isso se a gente pensar a relação com as salas de cinema, especificamente. A gente compartilha, amarga um cenário delicado, que é o asfixiamento do setor, sobretudo com o boicote às políticas públicas, e isso tem abarcado todos os segmentos e grupos dentro do audiovisual nacional. No entanto, tem um outro movimento, contranarrativa. Existiam grupos, como os movimentos de audiovisuais negros e indígenas, audiovisuais feitos por mulheres que já não conseguiam acessar os recursos para audiovisual no Brasil mesmo antes do momento que estamos vivendo. Estes grupos se fortaleceram e continuaram fazendo por outras vias – e crescendo consideravelmente em quantidade de obras realizadas, em qualidade técnica de produção destas obras. Expandindo e qualificando espaços. Ao mesmo tempo que a gente tem essa dificuldade de acesso ao recurso, tem uma produção primaveril. Uma produção pulsante e qualitativa, inovadora, que vem destes movimentos que não temos como negar.

Talvez a gente esteja vivendo um momento do audiovisual nacional singular, da possibilidade de garantir uma diversificação real e distribuição mais equânime, dando conta de irrigar todas as mentes criativas que vêm se fazendo e ressignificando, garantindo coisas maravilhosas. Os finalistas dos grandes prêmios do cinema, você vê nomes como Yasmin Thayná, Cíntia Domit, Beatriz Seigner, Sabrina Fidalgo. Uma galera ocupando vários espaços, possibilidades de trânsitos e circulações.

É uma felicidade gigante colocar uma tela no bar de Tia Nenga no Coqueiro Grande e exibir o filme para toda a comunidade. A gente exibiu, conversou, compartilhou, mas foi o mesmo que filme que foi para o Festival de Cannes, e que estava no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Quando Yasmin exibe Kabela na Baixada Fluminense e o mesmo vai para Roterdã! Nossa produção audiovisual preta, da atualidade, tem nos dado muitos motivos para continuar sonhando.

Voltando ao passado para falar de agora. Qual foi o momento do seu despertar para este mundo?
Eu ainda integro a geração que o primeiro despertar e desejo de fazer cinema e audiovisual foi a televisão. O assistir Sessão da Tarde, Tela Quente, Super Cine, Intercine. A primeira vez que pensei em produzir uma imagem e tentar descobrir como foi produzida foi assistindo A Lagoa Azul – ou De volta à Lagoa Azul, sempre confundo. No mesmo dia em que minha tarefa era ajudar Tia Nenga a lavar o tanque. Na casa de Tia Nenga tem uma laje e o tanque é feito de alvenaria. Estava com 14 anos. Depois que a gente conseguiu terminar, minha tia jogava um tablete de anil, que quando dissolve deixa tudo azul e depois a água vinha ficando transparente. Adoro o azul anil. E de fato ia ficando do azul para o transparente. Naquele mesmo dia assisti A Lagoa Azul e na cabeça, o tico e teco: “Gente, será que o azul desse mar é azul desse jeito porque o pessoal jogou anil que nem Tia Nenga jogou no tanque?”. A água era muito diferente da lagoa de Itapuã. Buscar qual foi o elemento que me possibilitou me fez querer fazer cinema.

“Se a gente parte do princípio que está dialogando com o setor que ainda não retrata a diversidade de olhares possíveis dentro da riqueza que é o Brasil, a gente vai ter bastante trabalho para encontrar um filme que melhor nos represente”

E quando você de fato começou a frequentar esse ambiente do cinema?
A partir daí minha mãe achou a Cipó e me matriculou. A partir do contato com Luiz Orlando, no Ceafro, eu começo a entender que produzir imagem tem impactos para nossa vida, para a vida do outro, e que poderia ser ferramenta política. Na adolescência, Zózimo Bubu para mim já era uma sumidade. Todo mundo na escola empolgado com cantor de pagode e eu querendo saber de Zózimo, que Luiz Orlando disse que era o pai do cinema negro no Brasil. A partir disso vem a relação com Spike Lee e o cinema americano e me introduzo nessas referências como fontes de informação e possibilidade de fazer o cinema e audiovisual que pudesse me contemplar no mundo.

Poderia dizer outras referências do passado e do presente da produção audiovisual negra?
A gente precisa dialogar bastante com nossa herança do teatro e da produção negra. Não podemos esquecer figuras como Ruth de Souza, Léa Garcia, Antonio Pitanga, Zezé Motta, Zózimo Bubu. Pessoas importantes para a história do cinema nacional. Haroldo Costa! Temos uma infinidade de referências. Tem sido importante mexer nas catacumbas do cinema nacional. Identificar, conhecer e reconhecer, e vocalizar a existência dos nossos mais velhos, como figuras fundamentais e inesquecíveis. Mas falo também da galera da contemporaneidade. Importante olhar para figuras como Larissa Fulana de Tal, Vinícius Silva, Renata Martins, Thais Scabio, Jéssica Queiroz, todas pessoas que têm produzido neste momento e que são tão importantes quanto nossos baluartes do cinema nacional. Galera com missão de, der o que der, continuar fazendo, daqui pra frente, para que quem venha, entenda: o audiovisual também é um sonho possível e caminho viável para os nossos.

Fonte: Correio