Não há abrigo seguro para a infância

Mikhail Kalashnikov, inventor do fuzil de assalto, preferia ter criado um cortador de grama. Foi o que disse antes de morrer, em 2013, aos 94 anos. “Arma de ofensa”, assim a chamava, desgostoso diante da disseminação sem controle de sua “arma de defesa”. Ao fim de sua vida longeva, as consequências da invenção causavam uma “dor espiritual”.

Um atirador, usando um dos fuzis inventados pelo funileiro russo, consegue alcançar um alvo a quatrocentos metros. Mas, caso erre, o projétil perdido poderá machucar alguém em um raio de distância que é, no mínimo o dobro. Suas balas, consideradas como “de alta velocidade”, são capazes de cavar um buraco no interior das pessoas.

Alguns médicos as comparam a uma granada que, dentro do corpo humano, explode os órgãos. Sobreviver ao disparo é considerado um milagre. Em 22 de novembro desse ano, Brenda González, 6 anos, que mora em Ponta Porã (MS), perdeu parte do nariz ao ser atingida por um tiro de fuzil. A bala perdida atravessou a sua pequenina boca.

Ela conseguiu sobreviver, a despeito do extremo sofrimento que atravessou no processo de cura. A mesma chance foi negada a outras crianças na linha de tiro. No final do ano passado, Agatha Félix, 8, foi baleada nas costas no Complexo do Alemão (RJ). Sua imagem, fantasiada de Mulher Maravilha, correu o mundo.

Este mês, as primas Rebeca, 7, e Emily, 4, também foram mortas. Elas brincavam na porta de casa, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (RJ). Os disparos atingiram a cabeça e o abdome. Uma criança nessa faixa de idade costuma pesar menos de 40 quilos e ter menos de um metro. Granadas em forma de balas dilaceraram seus corpos.

Levantamento da ONG Rio de Paz registra a ocorrência de dez casos semelhantes somente em 2020, um triste recorde ao qual, infelizmente, precisamos acrescentar um “por enquanto”. No ano passado, foram oito crianças mortas por balas perdidas. A maioria das vítimas é preta e moradora de áreas periféricas.

Não há abrigo seguro para quem habita as periferias em qualquer parte. Seus moradores são vistos sempre como cidadãos de segunda classe, alvos móveis, e isso independe de idade. Me pergunto até quando choraremos de vergonha e angústia por mais uma vida devastada pela violência. A aposta em um “novo normal” nunca foi solução para nada. É preciso mudar as coisas.

Fonte: Correio