Nove meses de pandemia: qual consciência você vai dar à luz?

Nove meses de pandemia: qual consciência você vai dar à luz?Há nove meses a pandemia foi decretada. Há nove meses me mantenho isolado de quase tudo, quase todos. Há nove meses acompanho o mais verdadeiro reality show da vida. Todo dia, pela tela do celular, vejo quem está em casa, quem visita a família, quem trabalha, quem se exercita, quem faz live, quem sai para beber, quem viaja. 

Confesso que, como quem dá match em redes sociais, eu fico mentalmente anotando “essa amiga sim”, “esse amigo não”, “esse grupo jamais”, “família é família”. Não, não estou falando do amor envolvido, nem da beleza das pessoas, nem das legendas bem ou mal escritas, nem do colorido dos pratos fotografados, ou das paisagens Brasil afora (e só não são além-mar porque as fronteiras mais cobiçadas estão fechadas). Estou falando de uma nova espécie de julgamento que a pandemia explicita: tal ou qual pessoa tem o mesmo entendimento de cuidado que eu tenho?

(Sim, julgamento. Eu julgo, tu julgas, ela e ele julgam, todos nós julgamos. Julgar talvez seja o mais humano dos verbos. Se René Descartes fosse nosso contemporâneo, talvez preferisse a frase “julgo, logo existo”. A questão não é julgar, mas COMO julgar. Podemos julgar que tal pessoa ou situação não nos serve mais e desviar a rota. E também podemos, de forma positiva, julgar por onde, com quem e como seguir.)

Pois bem, nesses últimos meses, especialmente na chamada “flexibilização”, tenho me deparado com muita gente que amo ou admiro, que, no meu julgamento, tem flexibilizado sem considerar o todo. Tem sido diário: o amigo que resolveu conhecer o Brasil justamente agora, praia por praia; uma família inteira viajando pelas praias da Bahia; a amiga que sempre vai ao cabeleireiro; muita gente em bares, restaurantes e festas; festivais ditos sustentáveis com eventos presenciais; teatros, cinemas e museus abertos – em ambiente fechado do jeito que o corona gosta.  

Note que não estou falando de quem tem que trabalhar presencialmente, pegar transporte coletivo, fazer ações beneficentes. Tampouco estou falando da esfera pública, do quanto os governos influenciam a população aos protocolos devidos ou ao negacionismo absurdo. Estou falando do âmbito privado, de quem não precisa arriscar a si e aos demais por sobrevivência, mas mesmo assim opta por flexibilizar. Na linguagem que a periferia bem nos ensina, estou falando do “rolê” e não do “corre”.

Tudo se naturalizou de tal forma que flexibilizamos demais e publicizamos os rolês em redes sociais como se não houvesse dúvida da imunidade, que – sabemos – não é certa nem para quem já teve a covid ou fez teste, e é precoce para as vacinas que ainda estão por chegar.

A cada post desses familiares, amores e amizades mais “flexíveis”, o julgador que habita em mim pensa: “seu rolê pode matar gente”. A frase forte ecoa na minha cabeça quase como um “sai daí, menino!”, que a mãe fala pra criança quando corre risco. Se a frase da mãe é por amor e cuidado, também não seria amor e cuidado do meu eu-julgador? Será que, a esta altura de uma nova onda crescente de contágio e mortes por covid, não devemos desnaturalizar os rolês e naturalizar os avisos de mãe? 

Será que não devemos – todo mundo – nos recolher, nos acolher (e viva a internet para nos conectar e salvar!), proteger realmente os mais-velhos, deixar as ruas e transportes para trabalhadores essenciais, e repensar festas e férias?

Está nítido que essa pandemia não veio apenas cercear nosso ir-e-vir e o poder-abraçar. Veio nos exigir um julgamento do que é mais adequado tanto individualmente quanto coletivamente. “Eu sou porque nós somos”, lembram? É o “nós por nós” do genial Emicida (se não assistiu o documentário “AmarElo”, assista!). 

Como em todo julgamento, devemos equilibrar os extremos na balança: eu e o outro, o positivo e o negativo, o desfrute e a responsabilidade, os valores e os limites. Como disse o mestre Gilberto Gil em uma live anteontem: “O justo-meio está na igual possibilidade dos extremos. O otimismo deve se posicionar neste justo-meio, onde não há prevalência do bem nem do mal. A gente está nessa balança e nessa gangorra permanente.”

Então sejamos otimistas sim, mas um otimismo posicionado nesse tal justo-meio. De um lado, a consciência das próprias verdades, e do outro, a consciência da realidade do todo que nos cerca. 

Neste momento histórico, em que finda a primeira gestação da maior pandemia dos últimos cem anos, vale encararmos esse julgamento pessoal para darmos à luz uma nova consciência.

*Renato Saraiva de Moraes é advogado, consultor e mediador de conflitos

Fonte: Correio