Alexandra Loras compara racismo a câncer sem quimioterapia

“O racismo é um câncer e ninguém passou pela quimioterapia desse câncer ainda. Então, me apresente uma pessoa branca que não seja racista”. Essa foi uma das frases da ativista antirracista francesa Alexandra Loras que mais chamaram a atenção ontem, durante a participação dela no Segundou, transmitido no Instagram CORREIO e comandado por Joca Guanaes. Loras, que é negra e foi apresentadora de TV na França, foi também consulesa da França no Brasil – o marido dela, Damien Loras, foi cônsul em São Paulo e abandonou o cargo há cerca de cinco anos. Mas o casal decidiu continuar vivendo na capital paulista.

 Inicialmente, a vinda para o Brasil foi uma espécie de “castigo” para ela, já que na época não simpatizava com o país. Mas, mesmo inconformados, ela e o marido tiveram que obedecer à determinação do governo francês. “Era um castigo porque eu não gostava muito do Brasil. Meu irmão morava aqui e eu já tinha vindo. Eu achava o país tão racista e não imaginava que criaria meu filho naquela condição. Era um castigo, mas acabou sendo o maior presente da minha vida”, revela Alexandra.

E a escolha por permanecer no país não foi à toa, afinal ela e o marido já haviam vivido em outros oito países e visitado mais de 50 nações. “No Brasil, senti que tinha muita sintonia com o país”.

Mas Alexandra ainda percebe como o racismo é presente no país: “A cultura brasileira se estabeleceu em cima de 400 anos de escravidão e de humilhação, de estupro dos negros, de muita violência e faz só 132 anos que nós, negros, somos gente no Brasil. Faz pouquíssimo tempo, então, é claro que a cultura permanece no raciocínio extremamente preconceituoso porque se estabeleceu em cima dessa inferiorização”.

A ex-consulesa lembrou de experiências pessoais que lhe deram certeza de que o racismo continua presente no país. Uma delas foi vivida no Clube Pinheiros, frequentado pela elite econômica paulistana. Ela havia esquecido a carteira de identificação de sócia e, na portaria, foi barrada ao apresentar o passaporte diplomático. A mulher que trabalhava na portaria perguntou se ela era acompanhante da criança que estava com ela, que, no entanto, era filho dela. “Eu dizia que era sócia, mas ela insistia, perguntando seu eu era acompanhante. Mas eu dizia ‘eu sou sócia’ e, mesmo assim, ela foi procurar meu nome na lista de babás, porque não conseguia enxergar uma negra como sócia do Clube Pinheiros”.

Alexandra observou também o ambiente racista em que as crianças são criadas e ela mesma, que é filha de um homem negro com uma mulher branca, afirma ter crescido em meio ao racismo. “É muito difícil achar uma boneca ‘retinta’ negra com cabelo crespo e super-herói negro então, esquece! Então, esse racismo não é nada velado, é escancarado, é brutal. O apartheid no Brasil é naturalizado”.

Família racista
Ela observou que os avós e os bisavós dela jamais aceitaram o fato de sua mãe ter casado com um homem negro. “Mas eu aprendi a amar esses racistas e eles aprenderam a me amar também. Hoje, minha expertise é saber e ter paciência de conversar com racistas”.

A ativista observou que muita gente não se dá conta de que é racista e, por isso, sugeriu que as pessoas realizem um teste que revela o preconceito “implícito das pessoas”. O questionário, elaborado por pesquisadores da Universidade Harvard, está no endereço: implicit.harvard.edu/implicit/brazil/.

“Ninguém  quer ser racista, mas quando você se concentra para fazer o teste, você sai racista, porque somos criados numa sociedade patriarcal, machista e racista, então, não dá pra ser impermeável a isso”.

Fonte: Correio