Apertem os cintos e usem máscaras: como viajar de avião durante a pandemia

Como diziam os gregos e repetem os cabalistas, a vida é cheia de paradoxos. Onde tem luz, tem sombra, e assim caminha a humanidade. Não seria diferente na atual pandemia, não seria diferente comigo.

Justamente ao escrever, neste Correio, sobre a importância de repensar encontros e viagens e evitar festas e rolês, eu precisei sair do isolamento social e viajar de avião. Um chamado familiar me levou de Caravelas, extremo sul da Bahia, onde eu estava isolado por sete meses, para Recife, minha terra natal onde mora a minha família. Mesmo preocupado com os riscos, sobretudo com a saúde das pessoas que preciso encontrar, decidi viajar.

Eu me cerquei das melhores orientações para manter o máximo cuidado. Primeiramente, o “novo básico”: máscaras de boa qualidade, tubinhos de álcool-gel no bolso, distanciamento social de pelo menos dois metros.

Como não se pode mais beber nem comer no avião (para não se retirar as máscaras), me alimentei bem antes de viajar. Como minha viagem seria longa, carreguei uma ecobag com comidinhas, marmita, talheres infantis e guardanapos (desta forma, fica tudo sustentável e aceito pelas companhias aéreas). No aeroporto em que fiz a conexão, procurei um lugar mais isolado para comer sem risco.

Como sempre, carreguei a minha própria garrafa de água filtrada – assim não preciso comprar as famigeradas garrafas plásticas, muito menos pelos preços absurdos praticados nos aeroportos. É bem verdade que vale economizar a água e o álcool-gel, para que durem toda a viagem. As companhias aéreas só fornecem água se você pedir (Deus proteja!) e mal disponibilizam álcool-gel (leve o seu, bença!).

Também recomendo caprichar nas máscaras. Não, não precisa combinar com o look. Aqui é mais um exemplo em que a utilidade deve prevalecer a qualquer moda: vale usar uma máscara mais vedada por dentro (tipo hospitalar) e outra máscara por cima (que pode ser de pano), e trocar essas duas máscaras a cada ambiente novo. Vai pegar dois voos? Prepare então pelo menos quatro máscaras. Considere ainda todos os trajetos entre casas e aeroportos. Se viajar de avião já exigia nossa atenção, agora muito mais.

Atento e focado nos cuidados todos, eu não interagi com ninguém (e olhe que, para uma pessoa que gosta de conversar como eu, isso é um desafio). Não vá fazer como o senhor de cabeleira branca que cumprimentou a moça de saia florida com beijinho na bochecha, ambos de máscaras, mas que praticamente perderam o efeito ali naquela despedida.

O fato é que, ao viajar, eu saí do isolamento. Mas tentei manter o distanciamento. Parece jogo de palavras, mas – neste momento de um tsunami pandêmico no Brasil – quero diferenciá-las. O isolamento é importante, e o distanciamento é fundamental.

No entanto, eu não pude manter o distanciamento dentro do avião. Com poltronas que foram ficando cada vez mais próximas nos últimos anos, agora é inadmissível ficar colado em outra pessoa que não conhecemos, muito menos sabemos dos seus cuidados em plena pandemia. (Isso para não falar de energia, que – para quem é sensitivo como eu – conta muito.)

No finger (o corredor sanfonado que leva os passageiros até o avião), está lá escrito no chão: “mantenha o distanciamento social”. As lojas e farmácias dos aeroportos também fazem marcações no chão, chamando atenção para os dois metros regulamentares. Ora, por que então essas empresas que recebem público não redimensionam seus espaços para realmente possibilitar o distanciamento social?

Por que as companhias aéreas brasileiras estão lotando os voos, mesmo sabendo que o distanciamento social é necessário? Aqui, um parâmetro: nos Estados Unidos, a capacidade dos aviões está limitada a 60%, justamente para que as pessoas possam manter um mínimo distanciamento, às vezes por horas de voo.

Eu notei, aliás, que os avisos nos dois voos não mencionaram o distanciamento social: a comissária indica usar máscara, lavar as mãos, usar álcool-gel, procurar médico em caso de sintomas, mas não menciona o distanciamento. Eu fiquei imaginando a risadagem à brasileira se o avião LO-TA-DO ouvisse, pelos alto-falantes, que é necessário manter a distância mínima. Seria cômico, não fosse trágico.

“Ah, não se tem como provar que a pessoa foi contaminada no avião”, me disse um amigo piloto. Mas, digo eu, se as companhias aéreas estão a descumprir um protocolo de segurança, tampouco se pode provar o contrário. De quem é a responsabilidade afinal?

Eu sei que garantir o distanciamento implica em uma nova lógica comercial – que enseja diminuir lugares no avião, treinar melhor os funcionários, colocar a saúde dos passageiros no centro da questão (porque agora não está) – e que isso pode resultar em preços ainda mais altos. Contudo, se não tratarmos dessa lacuna de responsabilidade social e jurídica das empresas, o preço cobrado será ainda mais caro.

Ao meu ver, temos aqui duas esferas de responsabilidade: a individual, que varia muito, de pessoa para pessoa, em higiene, educação e respeito ao próximo; e a coletiva, em que os governos, empresas e organizações têm papel fundamental para o cumprimento dos protocolos. Não temos mais tempo para que cada parte demore a assumir plenamente suas responsabilidades. Já vamos em mais de 185 mil mortes oficiais de covid no Brasil – e crescendo.

Agora, recém-chegado a Recife, eu estou recluso por pelo menos sete dias. Farei um teste detector de covid, para poder encontrar minha família com menor risco e mais cuidado. Mas aqui também vale ressalvar: exame com resultado negativo não é passaporte para encontrar quem e como quiser. É preciso confirmar a confiabilidade do teste, preferir o exame PCR nasal a qualquer teste rápido, permanecer isolado (isolado mesmo) até o resultado, considerar a possibilidade do falso-negativo, e de todo modo manter as medidas preventivas.

Por último e não menos importante: até a vacinação em massa (e que venha logo!), é indispensável usarmos máscaras no lugar dos abraços.

Renato Saraiva de Moraes é advogado, consultor e mediador de conflitos*

Fonte: Correio