Monja Coen: "A sabedoria está em todos nós, mas temos que procurá-la"

Quem vê a fisionomia tranquila e ouve o tom de voz sereno da monja Coen, de 73 anos, não imagina o que ela passou antes de transformar-se numa das líderes espirituais mais populares do Brasil. Aos 14 anos, enfrentou a família ao se casar ainda adolescente com um homem sete anos mais velho. O marido morreria alguns anos depois num acidente de avião, quando a filha deles tinha sete anos.

Ainda jovem, Cláudia Dias Batista de Souza – esse é seu nome de batismo – era usuária de LSD e, ao viajar para a Suécia, foi presa porque carregava uma quantidade da droga na bagagem. Mais tarde, deprimida, tentou o suicídio.

Hoje, no entanto, superou tudo aquilo e, principalmente, ajudou muitas pessoas a superarem problemas como os dela. “O que posso oferecer para vocês é um caminho que a sabedoria existe em todos nós, mas nós temos que procurá-la. E, quando você procura, você encontra. E quando você encontra, a procura continua. Não tem fim, não tem dizer ‘eu já sei tudo’. Nunca saberemos tudo e podemos sempre aprender um pouco”. Foi assim que ela encerrou a participação no Segundou de ontem, no Instagram do CORREIO, bate-papo comandado por Joca Guanaes.

Pandemia
O entrevistador disse que mais de 50 leitores do CORREIO haviam mandado uma pergunta relacionada à pandemia e questionavam que ensinamento ela poderia lhes transmitir sobre a insegurança que este momento nos transmite. “Temos que viver, vivenciar essa situação, pois não tem como fugir dela. Não podemos acabar com o coronavírus. A vacina nos dará imunidade, mas ele vai ficar por aí. Vamos continuar com medo de perder emprego, de ser contagiado, de não conseguir pagar as contas… mas tudo faz parte de nossa vida. Na nossa vida, não há nada estável. Essas são as últimas palavras de Buda”, disse.

Ela lembrou que poucas gerações passaram por uma crise como a que estamos vivendo e que podemos tirar dela alguns aprendizados. “É uma crise de transformação”, observou. “Abalou a todos, as redes sociais ficaram muito intensificadas e todos aprendemos a usar plataformas digitais. Ninguém ‘perdeu’ o ano, ninguém que deixou de ir para a escola ‘perdeu’ nada. Ganhou, ganhou na escola da vida e aprendeu como conviver com tantas dificuldades”.

A líder espiritual lembrou de como surgiu seu interesse no budismo, quando ainda era jornalista, quando tinha cerca de 20 anos. Pediram a ela que fizesse uma reportagem sobre sociedades alternativas e ela descobriu que na Califórnia, nos EUA, havia um grupo zen budista. “Me interessei pelo zen e alguns grupos de que eu gostava, como Pink Floyd e Yes, tinham práticas meditativas e vi que tinham umas pessoas interessantes que falavam sobre meditação”. Foi então morar na Califórnia e ali se aproximou do zen, quando, como diz ela mesma, encontrou sentido na vida e as coisas começaram a se encaixar.

Mas mesmo os líderes têm seus momentos de fragilidade e a monja falou sobre a quem recorre quando precisa de forças para enfrentar os problemas. Citou então uma experiência pessoal, quando sonhou que estava morrendo. “No sonho, eu chamava por Kannon Bodhisattva, que é o bodhisattva [ser iluminado] da compaixão. É um ser iluminado que vê os lamentos do mundo e atende às necessidades”.

Mas a monja ressaltou que não há uma “receita” universal e que cada pessoa pode buscar uma saída. “Numa hora de grande desespero, de grande perigo, o que você invoca? Pode invocar sua inteligência ou sua capacidade de resolver conflitos. Alguns vão chamar Deus, outros vão chamar Maria ou Jesus, o seu orixá… cada um na sua tradição. Cada um de nós tem um referencial sagrado. Ou nenhum: e aí, você tem sua natureza, sua inteligência. Na minha linguagem, encontrei que Kannon Bodhisattva é a luz na minha nova jornada nessa caminhada para o desconhecido, que nos assusta”.
 

Fonte: Correio