Na véspera do Natal, Amargosa compra de 12 mil vacinas de covid-19

O ano de 2020 não foi fácil, mas o ano que vem será de esperança, pelo menos para os moradores do município de Amargosa, no Recôncavo baiano. Mesmo que o pedido de registro da CoronaVac junto à Anvisa adiado, o Instituto Butantan e o governo de São Paulo asseguraram que a vacina é eficaz e a prefeitura de Amargosa anunciou a compra de 12 mil doses da vacina contra a covid-19, que chegarão em janeiro de 2021, a partir de uma parceria firmada com o Butantan. O anúncio foi feito na terça-feira (22).

O investimento municipal, segundo o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro (PT), é em torno de R$ 1 milhão para a aquisição da CoronaVac – vacina feita pelo Butantan em cooperação com o laboratório chinês Sinovac. O contrato garante que o Butantan reserve as doses pedidas pelo município, que já registrou 713 casos de covid-19 – 41 deles ainda ativos -, com 14 óbitos.

Como são cerca de 37 mil habitantes na cidade, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), serão priorizados idosos, profissionais de saúde e pessoas que fazem parte do grupo de risco num primeiro momento. O cálculo de 12.188 foi feito com base em um levantamento do município nestes grupos prioritários.

O restante da população será imunizado conforme a aquisição de novas doses e a produção do Butantan. A escolha pelo Instituto, segundo Pinheiro, foi pela facilidade de diálogo e logística. “O município tem limitações para fazer transações internacionais e o Instituto é reconhecido pela excelência de produção de vacinas, então a gente tem tranquilidade para adquirir um produto com um Instituto que tem boas práticas e uma vacina que vai ter eficiência”, esclarece o prefeito. 

Presente de Natal
Para a moradora da comunidade de Feto, zona rural de Amargosa, Rosimare da Silva, 38 anos, a notícia é animadora. “É como um presente de Natal, porque a gente vai saber que está protegido da doença quando tomar”, comemora Rosimare, que faz tratamento para a H. Pylori, enfermidade causada por uma bactéria que se aloja no estômago. A preocupação é também com seu pai, que é do grupo de risco por ter mais de 60 anos.

“Vou tomar para proteger a gente e minha família, porque, se a gente ficar exposto, podemos contaminar outras pessoas, e isso a gente não quer”, pondera. 

Mãe de seis filhos e desempregada por conta da pandemia, ela conta que os pais foram os que mais se animaram com a novidade. “Meu pai tem 62 anos e, quando viu que a prefeitura comprou as vacinas, ele ficou muito animado e contente. Está pedindo a Deus que chegue logo, tanto ele, quanto minha mãe”, narra. Apesar da expectativa, ela não nega que tem um pouco de receio em tomar a vacina. “Essa vacina demorou tanto e deu tanto problema que a gente fica com medo. Mas a gente tem que pensar em proteger a gente e os outros, fazer nossa parte”, completa. 

O receio também aflige a aposentada Telma Bastos, 58. Ela tem diabetes tipo 2, assim como a mãe, de 82 anos, e é cadeirante há 31 anos – portanto, as duas são do grupo de risco.

“Não li nada sobre essa vacina, mas, se for confiável, claro que vou tomar, para ter imunidade. Ainda mais eu, que tenho imunidade baixa. E acho que a população vai estar mais tranquila. Devemos dar parabéns ao prefeito, que soube administrar muito bem”, relata Telma, que só sai de casa para ir aomédico.

Já o cirurgião-dentista Rodrigo Lima, 24, não hesita em dizer que tomará a vacina. Por ser profissional de saúde, ele terá prioridade. “Nós, que estamos na linha de frente do combate ao coronavírus, achamos uma atitude muito à frente do seu tempo, foi uma atitude correta porque estamos nos prevenindo para a retomada das atividades econômicas o mais rápido possível de uma forma segura”, avalia. Para o cirurgião, a vacina representa, acima de tudo, esperança.

Ela representa uma esperança de que as coisas possam voltar ao normal, de um futuro com mais de normalidade”, conta.

Lima espera ainda que os preços dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) também voltem ao que eram antes da pandemia. Segundo ele, houve um aumento de 100% no valor das luvas, máscaras, face shields, álcool e tudo que envolve proteção e higienização. Antes da pandemia, uma caixa com 100 luvas descartáveis custava em torno de R$ 24. Hoje, o cirurgião compra da mesma marca por R$ 100. “Isso acaba afetando como se prevenir da covid, porque os preços desses materiais foram nas alturas. Então essa vacina, além de ajudar muita gente, vai facilitar nosso trabalho, conforme a prefeitura for vacinando a população”, estima. 

O prefeito informou que, apesar do grande número diário de casos da doença, a demanda por respiradores não é grande e, até o momento, não foi necessário transferir pacientes para outra cidade a fim de buscar tratamento. Dos cinco respirados mecânicos, dois respiradores de transporte e um respirador para criança, somente dois mecânicos estão hoje ocupados. Os 12 leitos de enfermaria para covid-19, todos estão disponíveis. 

Cirurgião dentista Rodrigo Lima espera que a vacina traga a vida de volta à ‘normalidade’
(Foto: Divulgação)

STF liberou
A decisão da compra das vacinas pela Prefeitura de Amargosa veio após a liberação, na última quinta-feira (17), pelo ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que municípios e estados brasileiros adquirissem diretamente as vacinas.

“A partir do momento que o STF decidiu, através de medida cautelar, que os municípios e estados poderiam comprar vacinas, fizemos contato com o Instituto Butantan para demonstrar interesse. O Instituto encaminhou um memorando de entendimento entre as partes que prevê a entrega das doses a partir de janeiro, em fevereiro e uma quantidade maior em maio, mas isso vai depender da disponibilidade de produção deles”, explica o prefeito de Amargosa, Júlio Pinheiro.

O STF ainda permitiu que, se a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não aprovar o registro do imunizante em até 72 horas após a entrada do pedido, estados e municípios usem a vacina, desde que uma outra agência reguladora tenha aprovado o uso da mesma em qualquer parte do mundo. A Anvisa ainda não aprovou nenhum imunizante contra a covid-19. Atualmente, as vacinas da Astra Zeneca, Sputinik V, da Johnson & Johnson, da Sinovac e da Pfizer estão na terceira fase de testes, que antecede o pedido de registro na Agência. 

Salvador também negocia compra de vacinas
A Prefeitura de Salvador também negocia a compra de doses da CoronaVac com o Instituto Butantan. De acordo com prefeito eleito Bruno Reis (DEM), a capital baiana tem cerca de R$ 80 milhões reservados para a aquisição dos imunizantes e um plano de vacinação pronto, que será apresentado em breve.

Ele afirma que manifestou desejo de aquisição das doses junto ao Instituto Butantan, em São Paulo. Um acordo de cooperação técnica será firmado na primeira semana de janeiro. Ainda segundo Bruno Reis, Salvador tem 103 mil profissionais de saúde – das redes pública e privada – e, com isso, seriam necessárias 206 mil doses iniciais para a vacinação desse público prioritário, que lida diretamente com os doentes.

A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) não divulgou o andamento da aquisição. Contudo, o secretário municipal da Saúde, Leo Prates, anunciou que Salvador recebeu, nesta segunda-feira (21), 286 mil seringas e agulhas, número que garante o início da execução do plano de vacinação contra a covid-19 na cidade. O plano da Secretaria é imunizar 70 mil pessoas por dia

A Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) e a União dos Municípios da Bahia (UPB) não souberam informar se outras cidades adquiriram a vacina. O Instituto Butantan afirmou que o imunizante foi adquirido por 14 estados e mil municípios, mas não enviou a lista detalhada até o fechamento desta edição.

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio