Artistas e familiares relembram trajetória do bailarino Ajax Vianna, do TCA

“Ajax era um talento. A dança e ele era uma coisa só”, relembra a bailarina Lila Marques, amiga do bailarino Ajax Gonçalves Vianna, que foi morto, nesta quarta-feira (23), pelo companheiro. Ajax foi quase o fundador do Balé do Teatro Castro Alves (BTCA), pois entrou na companhia um ano após sua fundação, em 1982. De lá, não saiu mais. “Ele levou a vida inteira dançando balé, era um dançarino exemplar, de uma técnica fora do comum”, conta Lila, que fez dupla com ele em muitos espetáculos, como em Zulmira, que teve coreografia de Konstanze Mello. Conhecido como o “John Travolta baiano”, o dançarino acumula turnês nacionais e internacionais, pela Europa, Estados Unidos e América do Sul. “A gente só não foi na lua”, brinca outro amigo de Ajax do BTCA, José Antônio Sampaio, mais conhecido como China, 61. 

A notícia da morte do artista chegou primeiro à irmã, Aline Vianna, 54. O companheiro de Ajax, identificado como Gerfesson do Nascimento Oliveira, foi até a casa dela informar que ele estaria passando mal, que tinha desmaiado e que, apesar de ter chamado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), o estado dele era grave. “Ele me deu a notícia assim, com a cara mais limpa do mundo”, conta Aline, que só tinha visto o namorado uma única vez, rapidamente, dentro do carro. Ele é o principal suspeito pela morte do bailarino, segundo a Polícia Civil, e foi preso em flagrante. O corpo foi encontrado no apartamento onde o bailarino morava, na Avenida Magalhães Neto, na Pituba. 

O companheiro, de 27 anos, já tem passagem por estupro de vulnerável – uma menina de três anos de idade – e tinha mandado de prisão em aberto. Ele foi levado para a 1ª Delegacia de Homicídios, no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), onde foi autuado e confessou o crime. “Ele disse que teve uma briga, bateu nele e que ele reagiu”, diz a irmã. A Polícia Civil vai conduzir as investigações. Quando foi até o apartamento do irmão, Aline afirmou que a médica do Samu disse que a causa da morte foi por espancamento e que, por isso, teria sido homicídio. “O rosto dele estava todo melado de sangue, o olho direito inchado, de tanta porrada que ele tomou”, conta Aline.

Foi aí que a filha de Ajax, Gabriela Vianna, chamou a polícia, pois sabia do histórico do rapaz. Aline também disse que o irmão já tinha dado queixa na delegacia por outra vez que o companheiro tinha batido nele. Ao irmão, ela aconselhava que não se relacionasse com o rapaz. “Conselho ele ouviu muito, mas ele falava que amava [o companheiro], que o amor não ia terminar assim. O sentimento que fica é de tristeza”, relata Aline, aos prantos. Segundo ela, o relacionamento dos dois tinha três a quatro anos. 

O irmão de Ajax, Alex Vianna, nem os amigos mais próximos dele, do Balé, nunca o tinham visto com ele. Alex desaprovava a relação dos dois. “Esse vagabundo contou que Ajax tinha caído por causa de uma pancada, sem sentimento nenhum. Ele é um cara frio, perigosíssimo e contou o inverso. Quando chegou na polícia, confessou a briga, mas que a intenção não era de matar quando deu um murro na cabeça”, diz Vianna. 

“Ele não conseguia se afastar do rapaz. Eu sabia que ele tinha uma relação, mas não sabia que era problemática assim. Ele não comentava comigo porque sabia qual seria minha atitude. Não existia amor, era questão de sustentar. Ele era uma pessoa aproveitadora, porque Ajax bancava e ele procurava ele por isso, infelizmente”, lamenta o irmão. A irmã Aline conta que até carro ele tinha dado de presente para o companheiro, mas, que ao descobrir que  ele usava o veículo para sair com outras mulheres, tomou de volta. Alex ainda ressaltou como foi difícil receber a notícia: “Foi horrível para todos nós aceitar que meu irmão foi morto dessa forma. Ele era muito querido por todos, sempre foi muito alegre, e não merecia. Era um cara bom”. 

Na dança, os estudos de Ajax começaram na segunda metade dos anos 1970, na Escola de Ballet Ebateca. Ele passou ainda pela Escola de Dança Cultura Física, pelo Ballet Bahiano de Tênis e fez parte do grupo de dança Frutos Tropicais. Entre 1970 e 1980, chegou a ganhar 18 concursos em discotecas, por isso, ficou lembrado por ser o “John Travolta da Bahia”. “Ele vencia todas. Era impressionante sua maneira de se mexer, sua agilidade e versatilidade”, rememora Lila Martins. Desde o balé clássico, ao jazz, ao contemporâneo, Ajax também se destacou por seu “corpo de menino”, que não entregava a idade. 

O colega de palco e de vida, China, entrou com Ajax no Balé do TCA em 1982, não se lembra quantos espetáculos contracenou com o amigo: “Só contando as estrelas do ceú”. Porém, uma das viagens que mais marcou foi para Israel e para a Tchecoslováquia. “Ali é o berço da humanidade, onde a história do mundo nasceu. E gente viajou pelo mundo todo, Europa, Argentina, Chile, Argentina… a dança nos proporcionou isso”, diz China. Quando soube da notícia da morte, o sentimento também foi de tristeza. “Foi uma surpresa, uma notícia muito triste, ainda mais na véspera de uma data festiva. Infelizmente foi uma morte trágica, muito dolorida. É uma perda muito grande de uma bailarino adorado, que nos dava muita alegria. A dança perdeu e ele vai deixar saudade”, conta o amigo, que o considera como irmão. 

O bailarino participou de um último espetáculo, o qual a última gravação foi no sábado passado (18). Segundo a BTCA, era um vídeo institucional do Teatro, gravado com integrantes do Balé e da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA). O vídeo foi gravado em vários espaços do complexo do TCA inclusive na Concha Acústica. Ele está em processo de edição. 

O ator e diretor teatral Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), o legado de Ajax está na sua vivacidade. “Sempre encantou seu certo ar de criança, ele sempre teve uma vivacidade de menino, que, para mim, era a maior característica dele. Era curioso, inteligente, criativo e sempre disponível para o novo, para a invenção e criação. A grande marca que ele deixa é esse espírito irreverente, além de ter uma trajetória brilhante no balé e como coreógrafo. Ele sempre se destacava”, afirma. Guerreiro conta ainda que, apesar de nunca terem trabalhado juntos, eram da mesma geração: “A gente sempre se cruzava nos teatros, no balé e eu era um admirador do trabalho dele”. 

O fundador e diretor-geral do Balé Folclórico da Bahia, Vavá Botelho, já dividiu o palco com Ajax e diz que ele foi uma das pessoas mais alegres que já conheceu. “Ele sempre foi uma das pessoas mais divertidas que conheci, altamente irreverente, sempre com aquela piada pronta, que fazia todo mundo rir. Era impossível estar ao lado de Ajax sem que ele estivesse falando alguma palhaçada. Era impressionante essa sua forma de viver, como ele era feliz, engraçado e extrovertido”, narra. Eles se encontravam no supermercado frequentemente antes do amigo partir. 

É a segunda perda do Balé este ano e a segunda vez, em sete anos, que um bailarino é morto de forma violenta. Foi o caso do artista Augusto Omolu, morto a facadas, em 2013, em Lauro de Freitas. Este ano, no dia 13 de dezembro, faleceu o dançarino Joffre Santos, vítima de covid-19. “A companhia não esperava por isso. O balé está arrasado. Faço parte do balé há 31 anos, então é uma relação de toda a vida. Ele sempre foi muito alegre e nos ensinou que, por maior que seja a tristeza, a gente pode encontrar um motivo de alegria”, diz o amigo e integrante do BTCA, Gilmar Sampaio. O enterro de Ajax foi nesta quinta-feira (24), às 15h, no Cemitério Bosque da Paz. 

*Sob orientação da chefe de reportagem Perla RIbeiro

Fonte: Correio