'Ele foi nosso presente de Natal", diz mãe de criança adotada

“Ele foi o nosso presente de Natal”, diz a mãe Kandre Requião, 33 anos, ao lembrar que no dia 23 de dezembro completam três anos do primeiro encontro com seu filho Bernardo, na época com 6 anos e meio. Kandre e Bernardo passaram juntos por um processo rápido de adoção: entre o primeiro encontro e a guarda definitiva da criança foram 20 meses. Essa, no entanto, não é a realidade da maioria das famílias baianas que querem adotar. Este ano, o número de adoções caiu 70% na Bahia.

A habilitação é o primeiro estágio de um processo delicado. Até ser habilitada, a família que quer adotar já manifestou esse desejo, apresentou documentos em juízo, fez entrevistas com psicólogas e assistentes sociais e até um curso para desconstruir mitos e conceitos errados sobre a própria adoção.

O último passo dessa primeira etapa é a habilitação, que é dada dentro do processo judicial pelo Ministério Público.

“A gente diz que é o nosso teste positivo, é o positivo de que estamos grávidos do coração”, conta Kandre.

Para ela, todo processo de habilitação ocorreu em um mês e meio, seguidos por dois meses de fila até o primeiro abraço em Bernardo. 

A fila, outra das etapas, é o que pode demorar mais, e segundo a mãe – que mantém um perfil no Instagram para falar de adoção com quase 60 mil seguidores (@adoteimeusfilhos) – é o que pode explicar a diferença imensa entre o número de habilitações e de adoções de fato.

“O perfil desejado da criança é sempre um perfil que não existe no abrigo. As pessoas desejam um bebê recém nascido, de até dois anos, e a gente entende que é porque querem participar de todos os momentos da criança, mas muitas vezes, o próprio processo até que a criança esteja disponível para adoção demora e ela já cresce um pouco”, explica. 

Para a publicitária, o tempo de espera por Bernardo foi curto, justamente pela ausência de critérios na hora do cadastramento. Ela e o marido se dispuseram a adotar uma criança de qualquer sexo e cor da pele, de até 8 anos – um perfil bem mais abrangente do que aquele que é esperado pela maioria dos futuros pais e mães.

“O nosso sistema não procura crianças para os pais, ele procura pais para as crianças que estão nos abrigos. A gente tem essa ilusão de que é a gente que escolhe a criança e não é assim que acontece. A fila não é pela ordem de chegada, ela depende do perfil desejado da criança. Quem quer adotar um bebê, branco, saudável, de até dois anos, pode esperar até 8 anos aqui em Salvador”, detalha ela. 

Esse perfil, no entanto, parece estar mudando. É que, desde que recebeu a guarda definitiva de Bernardo – há um ano e quatro meses -, a família de Kandre entrou novamente na fila buscando por mais uma adoção, que ainda não se concretizou.  “Na época da adoção do Bernardo, foi muito rápido e agora estamos na fila de novo há mais tempo para o mesmo perfil e isso mostra que esse perfil desejado da criança tá mudando. Ainda está longe do ideal mas já é uma mudança”, analisa.

Preparação
Ao falar do processo de adoção do filho, Kandre lembra de alguns aspectos que facilitaram e fizeram com que os trâmites  acontecessem mais rapidamente. O primeiro deles foi o estudo e preparação prévios dela e do marido. “Como sempre foi um desejo meu adotar, e também do meu esposo, eu sempre estudei sobre o processo de adoção para que, quando eu decidisse ser mãe, eu já soubesse exatamente o que fazer, a quem recorrer, quais os documentos necessários”.

Para ela, a preparação também é algo que faz a diferença no processo de aproximação e acolhimento da criança. Quando chega ao fim o tempo de fila e a família recebe a ligação para conhecer e começar a aproximação com a criança que irá adotar ainda existem alguns passos. De momentos juntos no abrigo, passeios curtos nos fins de semana, até ser concedida a guarda provisória – que já dá aos pais e à criança vários direitos, mas ainda não altera nomes e documentos – até quando, pela primeira vez, a criança vai para a nova casa. 

Depois da guarda provisória, cabe à família dar entrada na guarda definitiva para poder concluir o processo judicialmente. Nessas etapas, entre a aproximação e a guarda provisória, muitas famílias chegam a desistir da adoção, e a criança retorna ao abrigo e para a espera de uma nova chance de ser adotada. Com Bernardo, foram três desistências até encontrar a mãe Kandre.

“Nesse tempo que eu passei no abrigo, algumas famílias me levaram e me disseram que iam me adotar, só que no final elas me deixavam no abrigo e iam embora. Nunca façam isso, tá?”, diz Bernardo, em um dos vídeos mais assistidos do Instagram de sua mãe, onde 561 mil pessoas já ouviram a história de sua adoção.  

Significado
Para Kandre, é preciso que as famílias tenham um melhor entendimento do que significa adotar. “É necessário um preparo maior para a adoção. Uma criança que está no abrigo já sofreu um rompimento brusco na família biológica. É uma criança que vai vir com algumas demandas, sim, e as pessoas precisam se preparar como a gente se prepara para uma gestação”, compara. 

Ela chama a atenção para outro erro comum no processo. “Muita gente fica naquela ideia de que a adoção é uma caridade, que a criança vai chegar e tem que ser grata por tudo o que ela está ganhando. Muita gente adota esperando isso e se frustra. A criança que chega por adoção muitas vezes nem conhece o que é o contexto familiar. Aquilo é novo pra ela, ela não foi ensinada a seguir regras, muitas vezes falta uma educação básica mesmo. Naquele momento, a criança não vai ser grata porque não entende o que acabou de ganhar”, explica.

Ela completa que a falta de entendimento é também dos novos pais. “A gente, como pais, também às vezes não entende o que acabou de ganhar, ganhamos um filho e não um projeto social de caridade. É uma criança. Da mesma forma que, para um bebê, a gente tem que ensinar tudo do zero, não importa com que idade a criança chegue, você também vai ter que ensinar tudo do zero, com o mesmo amor e paciência que ensina a um bebê recém-nascido”, completa.   

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro
 

Fonte: Correio