Famílias contam como passaram o Natal; secretário teme 'contaminação aumentada'

Daqui a alguns anos, talvez ela nem se lembra, mas imediatamente depois da noite de Natal de 2020, na manhã do dia seguinte, Vanessa Benevides, 41 anos, chorou ao lembrar da falta dos pais e da família. Chorou porque queria ter estado junto, chorou pela saudade, e, neste momento de emoção, é como se Vanessa representou boa parte das pessoas, que sozinhas, juntas ou distanciadas, viveram a noite natalina num ano que exigiu novos hábitos.

“Foi melhor garantir esse Natal para poder ter um próximo… Desculpa, fiquei emocionada agora pensando nisso”, dividiu Vanessa, farmacêutica. Na memória, trazia os pais, idosos, e as lembranças de festas de Natal passadas, com a família na mesa, num reencontro com, pelo menos, dez pessoas, de quatro núcleos familiares diferentes. E, enquanto lembrava, veio o nó na garganta. Vanessa trabalha numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Salvador e o marido, médico, num hospital. Os dois passaram o Natal com a filha, no apartamento onde os três vivem. A mesinha da noite foi posta só para eles, com galeto, risoto e o tradicional salpicão. 

Vanessa e família (Foto: Acervo Pessoal)

Desde o início de dezembro, pesquisadores, gestores e instituições ligadas a saúde pediam que a comemoração fosse diferente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçou que a aposta mais segura era não reunir familiares que não moram juntos, pois nenhuma medida seria, de fato, capaz de impedir a transmissão do coronavírus, altamente contagioso. Para quem não quis abrir mão da celebração, especialistas indicaram uma série de prevenções para a noite – distanciamento, máscaras e álcool em gel o tempo todo. Não foram poucos os que também quiseram se testar antes de encontrar a família, embora a medida, como todas as outras, não fosse 100% segura. 

Quanto mais o Natal se aproximava, mais Joselma Baptista, 44, pensava em soluções. Ela e a família são acostumados a passar a data juntos, e os encontros iam noite adentro, com umas 20 pessoas, ou até mais. “Não tinha como aglomerar, mas acho que a solução acabou sendo uma redução de danos”, contou a auditora fiscal. O temor era que, sem a reunião familiar, os sogros perambulassem de casa em casa para ver os familiares mais próximos. 

Joselma e o marido, médico nefrologista, cientes do risco, decidiram adaptar o apartamento, a mesa e a noite para receber o casal Jacques e Jane. Um banheiro foi separado só para eles, as cadeiras ficaram distanciadas e as máscaras só foram retiradas para comer. Na ceia, estavam os dois, Joselma e o marido, e os dois filhos deles. “Por isso digo que não foi uma decisão, foi uma redução de danos. Foi um momento feliz, tentamos nos manter otimistas, mas muito diferente”, contou ela. “Tentamos manter alegre na medida do possível”. 

(Foto: Acervo Pessoal)

Novas soluções 
A ceia de Natal foi posta só para e por ela, Elba Veiga, uma analista de sistema que decidiu, como já havia feito em datas anteriores, ficar sozinha, em casa. Foi a primeira vez que ela passou a noite de Natal sem a família, isolada no apartamento onde mora. Às 20h30, ligou para a irmã, o cunhado e as duas filhas do casal, para um encontro online. Passaram a noite juntos, mas separados fisicamente, cada um com sua ceia. Elba, arrumada para ficar em casa, até com salto alto, sentiu saudade, mas enxergava uma “causa maior”. 

“A ordem é bem nobre, que é diminuir a curva [de contaminações]. Eu faço e fiz por mim, pelas pessoas que eu amo e por pessoas que nem sei se vou encontrar na vida”, disse Elba, que garantiu não ter sentido triste, muito pela “causa maior” que citou. Na noite em que passou o primeiro Natal da vida sozinha, a ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) era de 74% e os casos, 479.553, na Bahia. 

Os secretários estadual e municipal de saúde, Fabio Villas Boas e Léo Prates, respectivamente, já tinham alertado sobre os perigos de aglomerações no Natal deste ano. “Vão visitar a vovozinha, a tia, a mãe no Natal, e um mês depois elas vão morrer”, afirmou em entrevista ao CORREIO, em meados de dezembro. Léo Prates reforçou o coro: “A partir da semana que vem, viveremos as cinco piores semanas da pandemia”. 

Villas Boas, nesta sexta-feira (25), afirmou que seria “muito difícil fazer uma avaliação de como as pessoas se comportaram”, pois a festa geralmente é feita em família, em ambientes domésticos. Mas reforçou: “Infelizmente, só vamos ver daqui para frente. Pelo que tenho visto em publicações nas redes sociais, com reunião de 20 pessoas, em média, muitas em apartamento, eu acredito que de fato vai haver uma contaminação aumentada”. Léo Prates não respondeu ate a publicação da matéria.

Quem respeita o isolamento social tentou pensar em novas formas de estar juntos com o máximo de segurança. Alan Abreu, 42, estava pronto para ir para a casa dos sogros, depois de cumprir isolamento com a esposa e as duas filhas, quando teve um problema dentário e precisou ir ao dentista. Cumpriu isolamento novamente e quando estava prestes a ir, novamente precisou ir ao dentista. Já estava há nove dias isolado quando a família encontrou uma forma de ele participar no Natal presencialmente. Hoje, a indicação dos profissionais de saúde é que os assintomáticos, como poderia ser o caso de Alan, fiquem 10 dias isolados. 

Antes da reunião de Natal, a família organizou uma mesa separada, a cinco metros de distância, com fita no chão marcando o distanciamento. A comida de Alan também foi posta separada e, assim, os seis passaram a noite. “Dentro da minha situação de isolamento, foi uma experiência muito boa. Queremos arriscar o mínimo possível”, contou o publicitário. Os abraços foram a distância, cada um abraçando a si próprio e olhando nos olhos uns dos outros.  

Daqui a alguns anos, talvez Alan, Elba, Joselma, Vanessa e suas famílias talvez nem se lembrem, mas passaram o Natal de 2020 esperando, cada um de uma forma, os natais de antes com os aprendizados de hoje.

Fonte: Correio