2020, o ano do bug nos videntes: eles erraram feio nas previsões

Pandemia, incêndio, seca, racismo, chuva de gafanhotos e desastres naturais. Parece que alguém abriu os portões do apocalipse em 2020 e esqueceu de fechar. A terra literalmente parou. Fora o saudoso roqueiro baiano Raul Seixas, que previu que um dia o mundo pararia e ninguém sairia de casa, o famigerado ano bugou cada mesa de búzios, carta de tarô, números e astros. Cartomantes, médiuns, numerólogos, astrólogos, a maioria perdeu o sinal com as forças ocultas e não previu o suco de confusão que foram estes 12 meses que nem acabaram ainda. Afinal, que bug foi esse na turma das previsões?

Até os mais respeitados videntes foram pegos de surpresa. Nem a Mystic Feira, maior feira esotérica do país, escapou da falta de conexão com as forças ocultas no momento de prever os acontecimentos de 2020, principalmente a pandemia, carro-chefe dos problemas. 

O evento acontece há 10 anos, em São Paulo. O ápice é o encontro de diversos segmentos numa mesa redonda, onde fazem previsões para os 365 dias que virão. Só tem os melhores. Na última edição, em dezembro passado, quase todos estavam bem otimistas no ano que substituiria 2019, independentemente de ser taróloga, astróloga, pai de santo ou vidente.

“Podemos ter patinado um bocado em 2019, mas em 2020 teremos muito sucesso (…). Podemos, com isso, contar com caminhos abertos a partir do dia 1º de janeiro de 2020”, previu a paranormal Cathia D’Gaya na roda de previsões, como descreveu o site Uol. “Os dois zeros de 2020 são um verdadeiro start! Portanto, 2020 tem tudo para ser bom, desde que nos dediquemos a isso”, corroborou a numeróloga Márcia Pugliesi. O coach espiritual Daniel Atalla foi ainda mais otimista com o ano que parou o mundo: “2020, para mim, será maravilhoso para todos nós”, profetizou. Ou não.

A roda de previsões aconteceu no início de dezembro de 2019, quando o coronavírus ainda não tinha a dimensão de pandemia, mas já havia casos na China. Carlinhos Vidente, que também estava no encontro, chegou a dizer que este ano seria um dos piores do Brasil, mas não citou a covid-19. Quem chegou mais próximo de uma catástrofe na saúde foi o astrólogo Ricardo Hida. “Todas as coisas físicas — incluindo a saúde — merecem atenção. Definitivamente, não é um ano para brincar com a saúde”, disse. Por ironia do destino, o evento deste ano, que ocorreria nos dias 12 e 13 de dezembro, foi adiado por causa do coronavírus.

O ano não poupou quase ninguém. Basta dar uma pesquisada no Google e conhecer as previsões que passaram longe de serem concretizadas. Ou pior, não citaram uma possível pandemia alastrando o mundo. Um dos astrólogos mais famosos do país, João Bidu chegou a dizer que 2020 seria “mais leve do que 2019, não só para as pessoas, mas para o mundo em geral”, contou ao Jornal da Cidade, de Bauru (SP). 

Também assegurou que o sol, astro regente deste ano, daria alegria, liderança, nobreza e vitalidade para o planeta. Acabou sendo alvo de críticas na internet. Nem o digital influencer Felipe Neto poupou o astrólogo. “Parabéns, como sempre, astrologia”, escreveu no Twitter, de forma irônica, enquanto exibia um print do jornal que divulgou a previsão de Bidu.

Pessoas erram, inclusive videntes. E nem por isso merecem o descrédito. Contudo, parece que a pane não foi total. A médium e advogada Olyvia Libório falou, em dezembro de 2019, sobre um problema de saúde que poderia assolar o mundo. “Precisamos cuidar das questões da saúde, não num olhar da saúde individual, mas da coletiva. Ficarmos atentos a epidemias, riscos de doenças infectocontagiosas em larga escala. Vamos ficar atentos”, disse a baiana, na sua live de previsões no ano passado.

Olyvia explica que o aviso sobre a possível pandemia veio através de Xangô, o orixá que comanda 2020, no início de dezembro de 2019, numa festa para Oxum. “Xangô manifestou-se através de mim, trazendo muitos avisos sobre o ano de 2020, anunciou incêndios e avisou que Omolu (Senhor da Cura e da doença) chegaria para mostrar aos homens o quanto estamos adoecendo a Mãe Terra. No meu entendimento, a covid tem sido um sinal doloroso da justiça divina, pois se não aprendemos pelo amor, será pela dor”, lembra ao CORREIO.

O indiano Abhigya Anandfoi, de apenas 14 anos, foi ainda mais longe. Em agosto de 2019, quatro meses antes do primeiro caso do novo coronavírus, o pequeno astrólogo previu que uma pandemia iria assolar o mundo, o que está registrado numa live que ele promoveu. Porém, também disse que a doença seria erradicada em setembro de 2020. Uma pena que errou – estamos passando pela segunda onda da pandemia. Também assegurou que haveria um desastre ainda maior no dia 20 de dezembro. Ainda bem que errou novamente.

Nem o homem que previu o nazismo, a revolução francesa, Bin Laden e Napoleão Bonaparte conseguiu nos avisar sobre o coronavírus. Nostradamus passou longe de falar sobre uma pandemia que mudaria a era contemporânea. Nadinha. Na internet, chegou a circular uma fake news (outra praga de 2020), alegando que o mais famoso profeta da história teria falado sobre a covid-19. Historiadores como Leandro Karnal desmentiram a publicação que chegou a viralizar na internet.

Contudo, nem sempre previsões estão entrelaçadas a avisos mediúnicos. A ciência também prevê. A cientista brasileira Luciana Borio, que integra o comitê anti-covid-19 do mais recente presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, já havia alertado sobre o risco de uma pandemia desde 2018, durante a realização de um simpósio científico nos EUA.

O que esperar de 2021?
Para 2021, as previsões são melhores que 2020. O sol que rege este ano e queimou o juízo do mundo dá lugar a Vênus, o planeta da paz e amor. “Este ano tão emblemático trouxe à humanidade uma necessária reflexão sobre o funcionamento das coisas do mundo sob o ângulo do qual onde realmente podemos mudar o que vivemos. 2021 recebe as bênçãos de Vênus, planeta do amor, favorecendo não apenas romance, mas amor em todas as faces. Excelente para encontrar seu par definitivo e solidificar relações baseadas na verdade. A presença de Pai Oxalá favorece aqueles que decidirem encontrar a paz, a agir baseando-se no perdão e, principalmente, praticando o autoperdão”, avisa Olyvia, ainda sem mencionar sobre a covid-19, que promete revelar o futuro da pandemia em breve. 

“Nada está fora da ordem do criador, nem mesmo as pragas. O importante agora é saber qual saldo deste ano e agir em favor da mudança em todos os setores. Líderes do mundo inteiro deveriam se sentar em grupos, deixando de lado as diferenças, e construir uma forma irmanada de desenvolver uma economia mais igualitária, meios de conservação da natureza, distribuição de riquezas, cuidados com a saúde mundiais. Enfim, promover a verdadeira união da humanidade. Temos muito o que aprender com este ano. Vão ficar muitas lições”, completa.

Pelo menos para a astróloga Márcia Fernandes, o bicho vai continuar pegando em 2021. No seu canal no YouTube, ela disse que, mesmo com a vacina, a covid-19 ainda será um problema no mundo. “A longo prazo, as coisas só começam a se reorganizar no primeiro semestre de 2023. Pela astrologia, teremos problemas com a pandemia até novembro do ano que vem”, prevê. Já João Bidu manteve o discurso otimista e aposta num ano melhor que o anterior (de novo). “Chega de sofrência!  Se depender de Vênus, planeta regente para o ano novo, o astral será mais leve e animado”, resume. E aí, vai ficar com que previsão?

Na contramão, há quem se deu bem em 2020

É um paradoxo. Como afirmar que 2020 foi bom para você, se o planeta sofre com uma das piores pandemias que a humanidade já presenciou? Muita gente está com este sentimento. Na contramão do ano, alguns baianos até curtiram estes 12 meses e evoluíram, seja no aspecto profissional ou pessoal.

É o sentimento do jornalista Ruan Fernandes. Para ele, 2020 foi um ano incrível profissionalmente. “Saí do emprego em janeiro deste ano. Fiquei fevereiro e março sem trabalhar, mas consegui esse atual exatamente dois dias antes de tudo fechar na cidade. Em home office, consegui mais três trabalhos. Fora que melhorei minha saúde mental de evitar trânsito todo dia”, lembra Ruan, que não teve nenhuma morte por causa da covid-19 na família, mas sente o peso da doença. “É muito ruim ficar feliz, mas ver o mundo como está. Espero profundamente que as coisas retomem ao normal e que de alguma forma essa cicatriz ensine algo de bom pra humanidade”, completa.

A psicóloga Dayse Neves viveu momentos de alegria e tristeza. Promovida no trabalha, acabou perdendo parentes por conta do coronavírus. “Já tinha perdido um primo. Meu irmão pegou, mas se recuperou, até que meu tio pegou e não resistiu. Essa perda tirou o brilho dos meus momentos de ascensão profissional. Profissionalmente 2020 foi excelente pra mim, mas trocaria essa ascensão sem pestanejar pelas vidas queridas que perdi”, lembra.

Em 2018, a advogada Gisele Vieira passou por grandes desafios. Com depressão, tentou o suicídio. “Meu parceiro, na época, terminou nosso relacionamento de quase 10 anos. Me deixou logo após uma tentativa de suicídio, enquanto eu ainda estava internada no hospital”, revela. A depressão perdurou por quase todo 2019.

Apenas em 2020 iniciou a guinada. “Este ano coloquei na cabeça que ia ficar boa da depressão e comecei a praticar a gratidão. Foi quando eu comecei a fazer aula de forró e conheci várias pessoas legais, inclusive o meu atual namorado. Me tornei vegetariana, adotei dois gatos, que amo de paixão, e topei me relacionar com outra pessoa”, afirma.

Gisele ainda luta contra a depressão, mas acredita que a pandemia, por mais grave que seja, fez com que as pessoas reaprendessem a cuidar de si mesmas.

No Candomblé, o ano será de Oxalá

Em 2021, Oxalá será o principal orixá regente, ao lado de Oxum. Pelo menos para o candomblé e umbanda, será um ano mais reflexivo e leve do que o ano passado, comandado por Xangô e Iansã. Contudo, antes de culpar as duas entidades sagradas pelo ano, é bom ficar atento.

“Os orixás não podem assumir a culpa de nada que ocorreu por conta do coronavírus. O homem é o próprio culpado de suas desgraças na terra. Quando joguei (búzios) para Iansã ano passado, ela me falou que viria uma doença e muita morte. Por causa de poder, o homem entrou nesta energia. É preciso ter mais fé e humildade no próximo ano, independentemente do orixá”, disse pai Pitty de Iansã, do Ilê Asé Opô Oyá Egunitá.

Mesmo com a serenidade de Oxalá e as águas de Oxum guiando o ano, o pai Pitty prevê que o ano permaneça difícil, mas com um pouco mais de calmaria. “Ainda teremos um pouco de perrengue no próximo ano. Repito. A culpa não é do orixá. Estamos brincando com esta doença, mas melhoraremos esta situação na metade do ano, devagarzinho. Mas vamos ter compaixão, né? Vamos nos cuidar, pois os orixás estão tristes com isso”, avisa o religioso, que ainda tem fé num 2021 proveitoso. “O ano vai ser bom, viu? Quando superarmos a doença, sim. Oxalá é o pai maior, que fez a Terra. Vamos ter fé nele. Se for arriar o milho branco para ele, faça com fé que ele atende”, completa.

Oxalá é o pai de todos. Dono da criação e da terra, reinará em 2021 ao lado das águas de Oxum, revelando um ano de mais harmonia, paz e menos conflitos. Graças a Oxum, o ano que está prestes a chegar também será de oportunidades na área profissional e na chance de o dinheiro render.

Na astrologia, o número 5 comanda o ano novo. Segundo astrólogos em suas redes sociais, 2021 será um tempo de conhecimento, capacitação e dinamismo. O número de cada ano é escolhido pela soma de todos os numerais que formam o ano. Em 2020, o número 4 foi o regente.

No tarô, a carta será O Papa, que substitui O Imperador. Ano que pode determinar mudanças políticas em todo mundo. A carta favorece muito a liderança profissional. Em 2021 também teremos o anjo Anael como o arcanjo principal. Videntes e médiuns acreditam que é uma boa chance de investir no amor e compaixão.

Fonte: Correio