Canção da despedida

Daqui a quatro dias, 2020 se desfará em despedidas. E foi um ano repleto delas.

Nos despedimos de entes queridos, seja no seio familiar, seja em personalidades públicas com quem nos identificávamos. Vi meu avô morrer, mesmo que não de covid, mas ter um enterro expresso, sem que os que o amavam pudessem prestar simbólica homenagem.

Ao mesmo tempo, nos despedimos definitivamente da civilidade na gestão pública. No esgoto da alma, a economia sobrepõe vidas, curandeirismo vale mais que ciência, mentiras são mais fortes que verdades. E vacina, sabe-se lá quando – pelo menos no âmbito federal. Para que a pressa, mesmo?

Seria justo, pois, em um ano imprevisível, despedir-se dele com atés que enfim e nunca mais. Suspeito, entretanto, que o cerne de um ano miserável terá segunda temporada automaticamente renovada em 2021. Muito há de continuar, ao menos nestes meses iniciais.

Todas as 4 divisões do Campeonato Brasileiro vão invadir o ano. Na série A serão apenas 10 dias de interrupção, de ontem ao dia de Reis. O governo e alguns clubes de futebol, governados por desumanos da mesma estirpe, seguirão sem impeachment, pelo menos na largada. Deveremos ver – e torço com fervor para que eu esteja errado – o surto da pandemia piorar ainda em janeiro, resultado das aglomerações “necessárias por causa do psicológico” de fim de ano.

Haja fé para crer na virada. De onde virá, então, a esperança?

Se dependermos da humanidade de ridículos tiranos no exercício de seus podres poderes, 2020 ainda se estenderá por muito tempo mais. Até mesmo a promessa de não fazer promessas deverá ser descumprida nas primeiras horas.

Entendo que a mudança virá a partir do momento em que assimilarmos nossa responsabilidade individual e agir de acordo, respeitando-se os limites de nossas capacidades. Com isso, não apenas teremos surtos de consciência, mas também quem sabe poderemos renunciar ao confortável papel de militante de internet e lutar efetivamente em busca de nossos ideais – e que sejam ideais que mirem a coletividade e a inclusão, nunca a submissão.

Abandonem-se, pois, as famigeradas e inúteis notas de repúdio e que se avance na recuperação do retrocesso experimentando neste 2020 – e não só nele, como também nos anteriores. Temos mais que sobreviver.

Talvez esteja aqui o ápice do discurso do agradecimento pela vida. Não se trata, pois, de poder viver no pleno exercício da cidadania e da liberdade, mas sim o “pelo menos estou vivo” levado às mais infames consequências. Na indiferença de “e daís”, um dia a mais respirando é quase um agradecimento à benevolência de uma violência intolerante que não aceita questionamentos. E seguir adiante sem se opor à psicopatia de quem se regozija com a morte é sucumbir a interesses nefastos. Rompamos a inércia.

Que venha 2021.

*Esta é minha última coluna aqui no CORREIO. Nestes 3 anos, 7 meses e 13 dias, foram cerca de duas centenas de artigos e várias séries especiais. Agora é hora de andar por outros cantos. Aos que estiveram comigo neste período, equipe do jornal ou principalmente leitores, muito obrigado.

Gabriel Galo é escritor.

Fonte: Correio