Última segunda-feira do ano em Igreja de São Lázaro e São Roque teve público limitado na Federação

Como manda a tradição, a última segunda-feira do ano teve banho de pipoca.  O que não teve mesmo foi a presença de milhares de fiéis que costumam se dirigir à Igreja de São Lázaro e São Roque para agradecer e pedir bençãos. Adaptada ao cenário da pandemia, a celebração das já tradicionais missas (e banhos de pipoca e folha do lado de fora da igreja) contaram com a participação de um público tímido, que foi bruscamente reduzido pelos cuidados contra o avanço do novo coronavírus. 

E foi tudo mesmo diferente. Dentro da igreja, só puderam ficar 70 pessoas por vez, quantidade adequada para aplicar o distanciamento no templo. Em anos normais, o interior do local estaria completamente lotado. No chão eram vários os sinais que chamavam a atenção para os cuidados e, até na parte de fora, a fila para entrar na igreja era organizada com fiéis distantes uns dos outros. Tudo isso não abalou os devotos que lá estiveram e que, mesmo com a pandemia, fizeram questão de ir agradecer pelo ano que passou e pedir pelo ano que virá.  

Agradecimento e preces
As graças e pedidos de 2020 não poderiam ter um motivo principal que não fosse a saúde. Ainda mais se considerarmos o fato de que tanto São Lázaro como São Roque são santos que protegem os devotos de doenças. Em pandemia e com tantas perdas, o agradecimento por estar vivo e com saúde ganhou ainda mais força. Pelo menos, foi assim para Ramilson da Silva, 42 anos, que trabalha como cuidador de idosos e perdeu pessoas queridas para o coronavírus. “Agradeci por poder estar aqui, vivo. Pedi por saúde e que essa pandemia vá logo embora. As minhas preces aqui são todas direcionadas para saúde. Foi um ano em que perdi conhecidos, amigos. Inclusive, meu padrinho, meu segundo pai. É também pela passagem dele na terra que vim agradecer”, conta o cuidador.

Para a advogada Inge Funcke, 36, que compareceu à celebração da última segunda-feira pela primeira vez, as motivações eram parecidas. Inge foi até São Lázaro rogar por saúde. “Estou aqui pela primeira vez para, além de agradecer, pedir pela nossa saúde, pedir coragem e força para superar essa pandemia, essa ansiedade que estamos vivendo. Só de chegar aqui e saber que pessoas que amo, familiares e amigos estão bem e com saúde no meio disso tudo me dá muitos motivos para agradecer, que é o que vim pra fazer”, afirma.

Inge, à esquerda na imagem, foi pela primeira vez na última segunda-feira do ano (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Diferente de Inge, a artista plástica Edna Correia, 54, não esteve pela primeira vez na última segunda-feira do ano em São Lázaro. Para ela, já são mais de 40 anos de devoção inspirada por sua mãe. Sobre a história de seus pedidos, Edna disse que nunca houve um momento em que seus agradecimentos e orações estivessem tão voltados para a saúde das pessoas. “De maneira especial, eu agradeci pela vida e pedi por saúde, como nunca antes. Não tem como olhar para outra coisa. Com tanto problema acontecendo nessa área, nossos pensamentos e orações estão direcionados para a saúde das pessoas. Queremos um ano de menos dor em 2021”, declara Edna.

Edna tomou banho de pipoca e pediu por saúde (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Sincretismo religioso 
A artista plástica também falou sobre a união entre católicos e candomblecistas na última segunda-feira, afirmando que celebrações como essa, que mostram amor e respeito entre duas religiões diferentes, é o tipo de exemplo que as pessoas precisam seguir para termos dias melhores. “A gente, desde pequeno, vive essa tradição que passa através dos anos mostrando o respeito entre as duas religiões. Quem vem aqui, respeita São Lázaro, São Roque, Omolu e Obaluaê. Um exemplo de convivência em harmonia que deveria ser seguido em outras áreas da sociedade”, destaca Edna.

O irmão da artista, Ednelson Correia, 48, concorda com as falas dela sobre a importância do sincretismo na tradição da última e da primeira segunda-feira dos anos. O cabeleireiro também afirma que a fé e devoção é tão conjunta que pouco importa se você pede aos santos ou aos orixás. Se pedir, sua prece será ouvida. “Quem pede a um, pede a todos. Eu acredito e celebro os dois. Independente da crença, somos todos irmãos, somos todos ouvidos por eles”, garante. 

Edna e Ednelson vêm sempre juntos para última segunda-feira (Foto: Tiago Caldos/CORREIO)

Essa certeza de que o pedido é ouvido por todos é compartilhada pela costureira de roupas de axé Ana Cristina Cordeiro, 62, que afirma que o sincretismo está enraizado na devoção: “Na igreja é São Lázaro. Na nossa roça, na nossa religião, é Obaluaê, é Omolu. Então, é uma coisa de raiz. E claro que, quem pede pra um, pede pra todos. O pensamento e a oração são sempre direcionados para quem precisa”.

Programação da primeira segunda-feira

O padre Cristóvão Przychocki fez um balanço sobre a última segunda-feira do ano, apontando as diferenças com anos anteriores: “Nós replicamos as medidas sanitárias quem vêm sendo tomadas durante o ano, como na festa de São Roque em agosto. Limitamos a ocupação da igreja a 70 pessoas, no máximo. Claro que não é o que queríamos, mas é assim que tem de ser feito e conseguimos conduzir a celebração cuidando da saúde das pessoas”.

O padre também explicou o funcionamento da primeira  segunda-feira de 2021, que, segundo ele, seguirá programação idêntica a da celebração realizada hoje. Desta forma, no dia 4 de janeiro serão celebradas missas durante todo o dia: às 7h, às 9h, às 11h, às 16h e às 18h.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio