Ano Novo em casa foi tendência para muita gente aqui na Bahia

É bem verdade que não faltaram exxemplos ruins de pessoas fazendo festas e aglomerando em pleno pico de segunda onda do coronavírus. No entanto, também há bons exemplos: gente que deixou a vaidade de lado e preozu por ficar quietinho em casa, com as pessoas de seu círculo familiar imediato – tudo em nome da própria vida e também das vidas alheias. E as opções são mais variadas do que parece: desde quem ficou tomando uma em casa com a mãe, até uma dupla que preferiu virar o ano assistindo a uma nova série ou quem ficou da janela pensando na vida.

O soteropolitano Vitor Vinícius, webdesigner de 41 anos, abriu mão da viagem para sua terra Natal em nome da prudência. Ele não esconde pra ninguém que é fã de aglomerações. Inclusive, foi numa dessas que conheceu sua atual esposa, a funcionária pública Roberta Pereira, 44: os dois se encontraram no meio da Lavagem do Bonfim de 2007. O amor de verão subiu a serra e ele foi passar uma Semana Santa em Brasília, onde sua esposa já morava. Não voltou mais. Casaram-se e hoje têm um filho, Bento, de 4 anos.

Típico casal de brasilienses, cada ano eles vão para a casa de um. Ou Salvador, ou Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Este ano era a vez da capital baiana: Vitor se programou, comprou um carro novo para fazer a viagem pela estrada, mas no final das contas a preocupação da mãe, que tem um problema respiratório, falou mais alto e ele deixou a viagem pra lá. Virou o ano dentro de casa mesmo.

“A gente iria para a Ilha de Bom Jesus dos Passos, próximo de Madre de Deus. Minha família é de lá e conheço todo o mundo, frequento desde que tinha dois anos de idade. E minha mãe me conhece, sabe que ia querer conversar com todo o mundo, matar a saudade de gente que não vejo há um tempão e ficou preocupada de eu ir”, contou o baiano.

Também teve quem fez o movimento contrário: caso da pesquisadora Lize Antunes. Natural de São Carlos, em São Paulo, ela é pesquisadora aqui na Bahia e retornou para sua terra natal logo no início da pandemia. A ideia era passar 15 dias com sua mãe, Sonia Antunes, mas acabou virando 8 meses. Lize só voltou à Bahia em novembro para resolver alguns problemas pessoais e logo retornou. Correu o máximo possível para evitar a correria de fim de ano nos aeroportos porque tanto ela quanto sua mãe estão muito cuidadosas em relação à pandemia. É tanto que fizeram um generoso estoque de cerveja para nem pensar em sair de casa durante as primeiras semanas de janeiro: o número de mortes e casos aumentou bastante, o que assustou a dupla.

Ou seja: este ano, tudo se resumiu a elas duas. Quer dizer, tem mais: os gatos Manoel Carlos e Carlos Eduardo e o cachorrinho, um shitzu, Pedro Gabriel. Mas mesmo com a companhia dos pets, foi um Natal e Réveillon estranho para a família acostumada a receber quase 30 pessoasnesse período. Lize confessa que não teve tristeza por não recebre os familiares, apesar de gostar muito de juntar a turma – mas o estranhamento foi inevitável.

“Preferimos prezar pela prudência. E está sendo muito tranquilo, não é nenhuma tristeza. Claro, gostamos de casa cheia, de ver aquela galera que não vemos sempre”, conta.

Da esquerda à direita: Lize Antunes, Pedro Gabriel, Manoel Carlos (o pretinho), Carlos Eduardo (o branquinho) e Sonia Antunes (Foto: Acervo Pessoal)

Só, somente só
A solidão enquanto os fogos estouram não é uma novidade para a publicitária Milena Coutinho, de 36 anos. Foram incontáveis Anos Novos que virou sozinha, na sacada de sua casa na Pituba, enquanto via os fogos estourando e pensava um pouquinho na vida, nos planos, nas realizações e na pessoa que era há exatos 12 meses.

Este ano, no entanto, teve uma mudança importante: ela foi obrigada a passar o Réveillon sozinha. O motivo? Testou positivo para o coronavírus, mesmo assintomática. E passou os últimos 15 dias em casa. Seu filhinho de 4 anos foi para a casa do pai.

“Meu ritmo de vida é muito agitado, então nesse período aproveito para fazer nada. O Réveillon nunca me animou, acho uma festa muito cara. Mas estar sozinha neste momento pega pelo isolamento. Em outros anos eu podia marcar com uma amiga de ir rápido até a praia, fazer uma caminhada, almoçar, jantar, e estou privada dessa liberdade. Isso foi o mais difícil”, conta.

Em Brotas, a psicóloga Leila Mignac brigou com boa parte da família para seguirem o isolamento, mas não conseguiu que todo o mundo continuasse em casa – o cansaço de quase um ano de pandemia acabou pesando. Ela, no entanto, seguiu firme. Virou o ano sentadinha em sua cadeira, reclamando um pouco no Twitter enquanto tomava um bom vinho e lia um dos vários livros que comprou na Black Friday.

Leila e Milena acreditam que o final do ano é uma boa oportunidade para fazer um balanço da temporada. Milena diz que acredita no calendário como um norte e que é importante ter um momento de desacelerar e pensar um pouco no que foi feito, no que não foi feito e naquilo que se quer fazer.

Leila, por sua vez, diz que é uma fã de datas para parar e pensar: desde aniversário até o Ano Novo. Ela tem a sensação de que em 2020 os planos foram interrompidos e foi vivida uma vida completamente diferente do esperado. Foram muitas dores, muitas perdas e essa coisa do Ano Novo de permitir desejos, sonhos e faíscas de boas energias que ficaram apagadas, ou deixadas de lado, durante todo o 2020 por conta da pandemia.

“Eu encaro esse período como uma oportunidade, assim como outras datas ou marcos pessoais”, diz Leila.

Milena, por sua vez, pensa muito nas crianças. Para 2021, o que ela mais deseja é que seu filho possa voltar a viver normalmente. A publicitária nem pensa muito nos adultos, acredita que gente grande tem a capacidade de se adaptar melhor. No entanto, quando o assunto são os pequenos a coisa muda.

“É uma tristeza muito grande olhar pra meu filho e ver que ele está em casa o dia inteiro (…). Criança precisa de outra criança, estar em coletivo. Criança aprende com o corpo, vendo o outro, pela repetição de coisas legais e não legais. O que eu queria pra 2021 era uma perspectiva de que as crianças teriam a vida de volta”, disse Milena.

Por conta do coronavírus, Milena passou o ano novo longe do filho de 4 anos (Foto: Acervo Pessoal)

Em geral, o desejo de muita gente é ter a vacina. Principalmente àquelas pessoas que deixaram os próprios desejos e saudades do lado para ficar mais em casa para proteger a si e seu entorno. O representante comercial Moacir Rodrigues virou o ano com seu filho, sua irmã e sobrinha – que passaram a morar com ele por conta da pandemia. Ele lamenta o fato de não conseguir encontrar sua família como era o planejado.

A advogada Carolina Neris, 25, virou um ano em casa pela primeira vez. Fazendo companhia a seus pais. Ela diz que nem vai se arrumar, mas ficou no aguardo do ano virar porque 2020 “já foi tão tenso que nem vale a pena passar o ano dormindo. Perde um pouco da emoção”. O maior desejo para este ano de 2021 é continuar protegida do vírus junto à sua família. E que a vacina venha o mais rápido possível.

Família Neris posa para foto dentro de casa (Foto: Acervo Pessoal)

E para aqueles que dizem não conseguir ficar sem aglomeração, o Ano Novo da vendedora Maria Veloso, 22, mostra que é possível espairecer um pouco ao lado de alguém importante e sem aglomerar: ela virou o ano assistindo à série Bridgerton, lançada na Netflix e baseada na série de livros de mesmo nome escrita por Julia Quinn que acompanha o competitivo mundo da alta sociedade da Regência Britânica. Um pouco antes da virada, ela dizia que já estava na expectativa de dormir antes mesmo dos fogos estourarem. E está tudo bem assim, também.

2021 começou com o recado de que é possível se virar e ficar quietinho em nome de um bem maior. Um bem maior que vai chegar, com vacina, recuperação e aglomerações livres e seguras do jeito que a gente gosta e sabe fazer tão bem. Um ano que inaugura uma nova década: de esperança, aprendizados e resiliência, por que não? Feliz ano novo!

Fonte: Correio