Cristo Redentor é símbolo de desleixo com máscaras e distanciamento

 Aglomeração sem uso de máscara? Deus tá vendo. Até porque esse pecado em tempos de pandemia acontece diariamente sob os pés do Cristo Redentor, estátua no morro do Corcovado que representa o messias do cristianismo. O desleixo com o protocolo sanitário recomendado para deter o avanço da Covid-19 ganha voltagem simbólica quando contamina o maior cartão-postal brasileiro.

Visitantes do monumento que, em 2021, completa cem anos narraram  cenas que vão na direção oposta à que infectologistas recomendam: muita gente amontoada, à procura do melhor ângulo para tirar uma selfie com o Cristo, a maioria removendo a cobertura facial na hora do clique.

A goiana Rithelly Samara, 26, compartilhou nas redes sociais duas fotos que registrou no dia 20 de dezembro, a dois dias do início oficial do verão carioca. Na primeira, de máscara, escreveu “protegidah” e adicionou um emoji mascarado, na segunda, foi sem proteção no rosto mesmo. As pessoas acabam relaxando para sair melhor na foto e também porque “o calor estava demais, tirava o fôlego com a máscara”.

O tempo todo altos falantes alertavam para a necessidade de tapar o rosto, mesmo para aparecer nas fotos, mas ninguém parecia ligar, diz Rithelly.
“Não havia os dois metros de distância, que é de segurança. E não vi álcool em gel espalhado pelo local.”

Em imagens que turistas espraiam pela internet, achar alguém de máscara no topo do Corcovado pode virar uma espécie de “Onde Está o Wally?”.
O guia turístico Jailson Alves da Silva, 49, sempre tira a dele na hora da selfie com seus clientes. “Graças a Deus, nunca tive medo, sempre fiquei sem máscara, boto porque sou obrigado. Se eu peguei (Covid), Deus me ajudou que foi a fraca”, afirma. Nunca fez o teste.

A imunidade que ele definitivamente não tem, diz Jailson, é contra a crise financeira que o fez ir até o limite do cheque especial nos cinco meses em que ficou “sem ganhar um centavo”, com a paralisação do turismo na cidade durante a quarentena.

“Não vou ficar assustado com o corona porque não sei quando vai acabar. A vida tem que seguir. Não tem como manter uma família sem trabalhar”, diz o ex-taxista que mudou de ramo após aplicativos de transporte abalarem o mercado de táxis. “Para quem tem dinheiro, é muito fácil ficar em casa. Mas e quem não tem?”

Quem é o responsável por fiscalizar a aglomeração no Cristo? Em busca de respostas, a reportagem encontrou um jogo de empurra-empurra.
O Parque Nacional da Tijuca, que acolhe o platô do Corcovado, diz que a tarefa de zelar pelos protocolos cabe ao Santuário do Cristo Redentor e às concessionárias Trem do Corcovado (trens que carregam visitantes até em cima) e Paineiras-Corcovado (vans).

“É deles o papel de garantir o cumprimento da capacidade máxima de lotação, limite estabelecido por decreto da Prefeitura do Rio”, diz o parque em nota enviada à reportagem. O alto do Corcovado pode, segundo ordem municipal de agosto, abrigar 650 pessoas de uma só vez, 50% do público pré-pandêmico.

Entre 26 de dezembro e 10 de janeiro, alta temporada no Cristo, a venda de bilhetes também é feita apenas digitalmente, para evitar a formação de filas no local.

A empresa a cargo das vans oficiais afirma que também funciona com metade do potencial, e hoje pode sair com sete passageiros e o motorista. “Vale ressaltar que, desde a reabertura da visitação, a Paineiras Corcovado cedeu uma equipe que atua no platô. A área não faz parte da atuação da concessionária, no entanto, os colaboradores que estão no local usam alto-falantes para orientar o público sobre as regras.”

A companhia que cuida dos trens não respondeu. Está autorizada a fazer até três viagens com 90 turistas por hora.

A assessoria do Santuário Cristo Redentor afirma que dispõe tapetes sanitizantes, álcool em gel e avisos sonoros e inglês e português sobre a necessidade de respeitar as normas. Deus continua de olho.​

Fonte: Agencia Brasil