Baiano Carlos Boi quer 'sair na mão' contra australiano no UFC

A caminho da sua terceira luta no UFC, maior evento de artes marciais mistas (MMA) do mundo, o baiano Carlos Felipe Boi, de 25 anos, segue demonstrando sua tradicional confiança para a sua trajetória dentro do octógono mais famoso do mundo. O peso-pesado de Feira de Santana irá enfrentar o australiano Justin Tafa no UFC Fight Island 7, que acontece no próximo dia 16 de janeiro na Ilha da Luta, locação especial montada pelo UFC em Abu Dhabi. 

Conhecido por sua língua afiada, Boi não esconde suas inimizades no mundo das artes marciais, no entanto rechaça o rótulo de polêmico, justificando que o classificam assim apenas por ter coragem de ser completamente em todos os momentos. Sem medo de ser feliz, o baiano usa e abusa das estratégias de trash-talking — quando o lutador se comporta como uma espécie de vilão — para se enquadrar no ponto central que gera o sucesso do MMA pelo mundo: a narrativa e o show, além de, é claro, muita garra e qualidade nas lutas. 

Iniciando na organização com uma apertada derrota para o moldavo Sergey Spivak, por decisão dos jurados, Boi se recuperou em outubro do ano passado superando o cabo-verdiano Yorgan de Castro em um explosivo combate. Agora, o baiano da Life MMA tentará dar cabo de mais um nocauteador, visando avançar cada vez mais na divisão dos pesos-pesados. Com um estilo polêmico, o atleta bateu um papo com o CORREIO* na academia Galpão da Luta, localizada no Acupe de Brotas, em Salvador, onde faz seus treinos de luta agarrada. 

Como está a expectativa para a luta contra Justin Tafa e como você avalia seu início no UFC?

A expectativa é a melhor possível. Esse foi meu melhor camp de treinamento que já fiz desde que entrei no UFC, é o que mais estou preparado. Vou chegar com um condicionamento físico melhor, podem ter certeza que vai ser muito mais show do que a vitória sobre Yorgan de Castro. Na minha primeira luta, contra Sergei Spivak, apesar do revés, fui muito elogiado. Acho que nessa luta, eu apresentei apenas 30% da minha capacidade. Na última, apresentei 60%, não foi minha total capacidade, e também recebi muitos elogios. Nessa, acho que vou soltar muito mais meu jogo, arrisco dizer que uns 80% do que posso fazer. Com certeza, vai ser um show, então quem gostou das primeiras lutas, vai ficar maravilhado. Muita gente ainda acha que eu superestimo minha trocação, meu boxe, mas aí só o tempo pra provar pra essa galera qual o meu real poder, tanto em pé quanto no chão. Eu sou uma caixinha de surpresas, então em cada luta, vou tentar trazer uma novidade, algo a mais que surpreenda. 

Assim como na luta com Yorgan, você enfrentará um trocador, que tem todas as suas vitórias por nocaute. Como você acha que o combate vai se desenrolar?

O fato dele ser canhoto e ter uma mão pesada não quer me dizer absolutamente nada. Foi o que falei contra meu último oponente, todo mundo estava me colocando como azarão, mas o negócio é lá no octógono. Vamos ver quem aguenta mais porrada, se ele me bate, eu também bato. Se ele me chuta, eu também chuto, tanto que eu nem tenho costume de chutar, mas contra Yorgan, eu chutei também. Não sou aleijado, tenho perna pra dar bicuda, tenho cotovelo, tudo. Até tapa eu dei! Vamos ver quem aguenta mais porrada, vamos ver quem gosta mais de sair na mão. Minha infância toda foi brigando no meio da rua [risos], eu tenho certeza que ele não está acostumado com esse clima hostil. Então vamos ver, né, quem tiver unha maior que sobe na parede. 

(Arisson Marinho/CORREIO)

Seu adversário parece ser mais calado, na dele, enquanto você é conhecido pela língua afiada e por te classificarem como polêmico. Como tá o sentimento sobre essa questão?

Eu diria que não é nem questão de ser polêmico. Eu exponho muito o que penso e sou verdadeiro. Dito isso, eu nem posso nem dizer que vou fazer nada, pois geralmente vem na hora, as coisas vão acontecendo naturalmente. Esse é meu jeito, eu não falo nada com esse intuito de ser polêmico. Fui muito criticado pela pesagem da luta com o Yorgan, mas meu jeito é esse mesmo. Se o cara vem falando merda de mim, eu vou ficar de sorrisinho pra ele? É guerra! A gente tá ali pra trocar porrada, se eu quiser fazer amizade, eu vou pro Facebook, pelo amor de Deus.  

Você tem uma rivalidade polêmica e aberta contra o lutador brasileiro do UFC Raphael Bebezão. Como você vê essa polêmica, e você pretende enfrentá-lo no futuro?

Do fundo do meu coração, eu acho que Bebezão é burro. A gente sabe que, hoje em dia, o MMA é muito mais que um esporte. É um show completo. Ao invés de ele tentar comprar essa briga, pra tentar levantar o MMA brasileiro, essa rivalidade entre brasileiros e tal, é algo que seria melhor até pra ele, que tá com o emprego na berlinda, apagadíssimo, vem de uma derrota ridícula. Você pode ser um lutador que perdeu, mas você vai pra cima e dá show. Em todas as lutas dele, ele mostra abertamente que é frouxo, que é um lutador rídiculo. Ao invés dele tentar se apegar nisso pra se promover, ele fica fugindo de mim. Além disso, ele é mentiroso, já falei abertamente os porquês de não gostar dele. Ele passou para trás o próprio treinador. É por isso que ele saiu de tantas academias, é como se fosse um nômade. Mas é isso, já que ele tem tanto medo de apanhar publicamente, Bebezão, apareça aqui na Bahia, pra eu dar um acarajezinho com pimenta e fazermos um sparring amigável. 

Você e sua equipe, a Life MMA, são de Feira de Santana. Sua base é lá, mas você também vem para Salvador treinar no Galpão de Luta, que tem mais foco na luta agarrada. Como funciona esse sistema dos seus treinamentos?

Minha sede mesmo é lá em Feira de Santana, com meu head coach Edílson Teixeira. Ele é quem comanda todos os meus treinos. Como ele é formado em Educação Física e em Nutrição, ele também comanda essas áreas do meu camp, então é um trabalho multidisciplinar em um núcleo só. Aí meu treino de luta agarrada é aqui em Salvador, com Yuri Moura e Herrick Marinho. Aqui temos o melhor treino de grappling do Brasil. Não devemos para ninguém de nenhum lugar do mundo, tanto que os melhores lutadores do país estão aqui. As pessoas que falam sobre a qualidade dos meus treinos no mínimo são doidos e burros ou não fazem a menor ideia do que está acontecendo aqui na Bahia. Muita gente fala sem nem saber 10% do que ocorre, e fecham os olhos para a qualidade absurda que temos aqui em nossa própria terra. 

(Arisson Marinho/CORREIO)

Essa vai ser sua terceira luta na Ilha da Luta, praticamente se tornando um cidadão honorário de Abu Dhabi. Como é essa sensação de lutar em um local tão exótico e que acabou virando a ‘Meca’ das artes marciais nesses últimos tempos?

Eu brinco que já posso pedir música no Fantástico, ou que vou pedir minha dupla cidadania e virar o xeque Carlos Boi. Pra mim é como se eu tivesse lutando em casa, já estou acostumado, é um ambiente conhecido, já sei como funciona tudo, até conheço os funcionários, que lembravam de mim na segunda luta. Então, eu já me sinto em casa. É um ponto positivo, eu não tô nem um pingo ansioso pra essa luta. Vou viajar na quinta-feira (7) e tô tranquilão. Parece até que estou viajando para o interior da Bahia.

Você fala bastante que “negócios são negócios” em relação ao meio da luta. Isso ficou evidente quando, após a luta contra Yorgan de Castro, acabaram mantendo uma relação saudável, tomando até uma cervejinha e se divertindo juntos. Como funciona isso?

É a prova mais concreta de que o MMA é um show, com sua função de entretenimento. Lógico que tem rivalidades que são verdadeiras, como a minha com Bebezão, que pode ter certeza que não vai ter cervejinha depois, pois eu realmente não vou com a cara dele, e quando eu não vou com a cara de alguém, não vou mesmo. Agora com Yorgan, ele entrou na brincadeira, um provocou o outro, e acontecendo isso, os dois só têm a ganhar. Ambos estavam apenas em nossas segunda luta no UFC, e fizemos a luta co-principal, deixando vários nomes renomados abaixo da nossa luta, até uma ex-campeã ficou entalada com isso e deu várias alfinetadas. É aquilo, se você tá vendo que a coisa tá indo por um lado, ou você acompanha o ritmo ou não faz, mas perde o direito de reclamar das consequências. Eu quero ganhar meu dinheiro, gosto de lutar, de brigar, de sair no murro. Gosto de provocar meus adversários, e prefiro que eles me provoquem também, que fica um climinha melhor na luta. Tem muita gente que tem a cabeça mais aberta com isso, mas ainda tem muita gente que fala besteira, que fala que é falta de humildade, e geralmente essas pessoas são hipócritas, são aquelas que não dão nem um bom dia pro porteiro. No meu dia a dia, sou completamente diferente disso, então que se exploda essa galera, quem não gosta morde a testa, ou torce contra, amo quando torcem contra mim. 

Você é peso-pesado, a divisão mais explosiva dos esportes de combate. Atualmente, ela se encontra numa grande renovação, após anos estagnada. Como você enxerga o cenário atual da categoria?

A divisão dos pesados é muito parada. É muito aquilo de luta chatinha, de amizadezinha, de ir na moral. Hoje em dia, isso não pode acontecer, tem que dar uma movimentada na divisão, e acho que tenho o perfil certo para fazer isso. Nas categorias mais leves, a gente vê isso, até no peso-mosca, o antigo campeão Henry Cejudo começou a chamar mais a atenção e fazer barulho. Até os brasileiros também estão se ligando mais nisso, que eles têm que se vender. Se você não se vender, como você vai pedir um aumento de bolsa? Como você vai trazer pessoas para verem sua luta? Já sobre meus próximos alvos, além de Bebezão, eu tenho em mente o americano Maurice Greene. Não gosto dele também, pode ser que ele seja uma boa pessoa, mas vendo ele lutar, principalmente seu estilo, não me desce. Acho que ele não aguenta, aquele joguinho de firula, vai jogar bola, mermão. O negócio é sair na mão, você tá ali pra trocar porrada. O MMA é murro na cabeça, é canelada, e eu gosto disso. Tenho vontade também de lutar com o ex-jogador da NFL Greg Hardy, que é acusado de violência doméstica. Não gosto dele. Pode ter certeza que quando marcarem essa luta, vou arrancar a cabeça dele. Inicialmente, meu próximo adversário, o Justin Tafa, pra mim não fedia nem cheirava, mas como me botaram pra lutar com ele, ele agora vai pagar. 

Para finalizar, quais são seus planejamentos pro futuro e como é o Carlos Boi quando não está saindo na porrada?

Meu planejamento inicial era tirar umas férias, né? Venho numa sequência de três lutas em pouco mais de cinco meses, o corpo dá uma sentida. Mas eu me conheço, depois que eu ganhar, vai vir aquela agonia de querer lutar de novo, vou ficar empolgado, no hotel mesmo vou falar com o matchmaker do UFC para marcar a próxima. Na última, fiz isso no café da manhã do hotel, já falei com o cara lá mesmo que queria sair na mão de novo. O objetivo é esse, querendo ou não, a rotina é cansativa, é exaustiva, é estressante, mas é o que gosto e escolhi para minha vida. Não quero ficar muito tempo parado. Também não penso em cinturão por agora, quero fazer um caminho sólido, degrau por degrau, sem dar passos maiores que minhas pernas. Aí quando eu estou de folga, me amarro em jogar videogame, mas até no jogo o meu preferido e que estou viciado é o novo do UFC, até minha namorada se amarra também. Eu também amo andar de longboard, mas quando estou em período de luta, nem me arrisco para não cair e acabar me machucando. Também me divirto treinando, fazendo musculação, aprendendo novas técnicas. Por fim, eu também gosto de comer, né? Mas estou fechando a boca e fazendo uma dietinha pra luta.

Novos nomes

Para Leonardo Pateira, empresário de Carlos Boi e representante de diversos outros atletas do estado, a Bahia se consolidou atualmente como uma das maiores forças do cenário do MMA no país. Segundo Pateira, diversos nomes baianos irão estar em breve no UFC. Atualmente, o estado possuí apenas dois representantes no maior evento de lutas do mundo: o próprio Carlos Boi e a lutadora peso-mosca Virna Jandiroba, que também treina na cidade de Feira de Santana. 

“A Bahia é um grande celeiro de talentos, e não apenas em Salvador, mas em todo estado. O atleta Jailton Malhadinho, daqui de Salvador, está na boca do UFC, deverá ser o próximo nome considerando o mundo inteiro que em breve estará no maior evento de MMA do mundo. Tanto que, vamos levá-lo como córner para a Ilha da Luta. Ele está pronto para lutar, então caso pinte alguma oportunidade por lá, ele já pode começar imediatamente. Além disso, também tem outros talentos como Marcelo Baby Face, Felipe Esteves — que é da seleção brasileira de luta olímpica —, Dan Suzart, Felipe Moitinho, é muita gente. Tem uma galera muito boa vindo”, afirma Pateira. 

Já sobre a luta de seu atleta, Leonardo ressalta a confiança de toda a equipe no trabalho que foi feito, além de também valorizar a evolução de Carlos, que a cada dia vem se provando melhor treino após treino. “Assim como ele falou, acredito que ele vai mostrar nessa luta como Justin Tafa apenas 80% de seu potencial. O teto de crescimento dele é muito alto, e vamos trabalhar para que esse potencial e a melhora dele cada vez seja maior. Já temos plano A, plano B e plano C para o futuro, então acredito piamente que vamos voltar com a vitória de Abu Dhabi”, finaliza. 

UFC Fight Island 7
16 de janeiro, às 17h, em Abu Dhabi
Transmissão ao vivo pelo Canal Combate

Peso-pena: Max Holloway x Calvin Kattar
Peso-pesado: Carlos Boi x Justin Tafa
Peso-galo: Sarah Moras x Vanessa Melo
Peso-meio-médio: Santiago Ponzinibbio x Li Jingliang
Peso-pena: Austin Lingo x Jacob Kilburn
Peso-médio: Punahele Soriano x Dusko Todorovic
Peso-pena: Nik Lentz x Mike Grundy
Peso-galo: Wu Yanan x Bethe Correia
Peso-meio-médio: David Zawada x Ramazan Emeev
Peso-médio: Omari Akhmedov x Tom Breese
Peso-médio: Nassourdine Imavov x Phil Hawes
Peso-médio: Joaquin Buckley x Alessio Di Chirico

*Sob supervisão de Herbem Gramacho

Fonte: Correio