Ano novo, vida antiga: moradores de Uauá sofrem com falta de água

A relação entre a população de Uauá, cidade do norte do estado a cerca de 430 km da capital Salvador, e o fornecimento de água feito pela Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) é conflituosa e não é de hoje. Não são raros os relatos de uauaenses que já passaram 10, 15, 17 dias sem ver uma gota sequer saindo de suas torneiras – mesmo com as contas pagas em dia.

A situação é atual e fica ainda mais grave quando no meio de uma pandemia que exige medidas de higienização frequente dos espaços, das roupas e do corpo para garantir a saúde e prevenção contra um vírus que já matou quase 9,5 mil pessoas no estado. E mesmo no meio da pandemia, Uauá está sem o fornecimento de água há cerca de 4 dias.

O advogado Maximiliano Miguel, 41, é um dos cidadãos que sofre com a falta de água na cidade. Sem o fornecimento da embasa, ele conta com uma cisterna própria para ter abastecimento em sua casa e ajudar alguns vizinhos. Nos últimos 3 meses, o município registrou sequências de 17 e 12 dias sem cair água para ninguém.

“A última vez que caiu água aqui foi na terça-feira e sabe lá Deus que dia vai cair. A situação é horrível e ainda falta uma comunicação melhor da Embasa. Mesmo quando tem algum dano no encanamento eles não avisam, não dão um informe para a população ficar atenta e economizar”, disse.

Como se já não fosse o bastante, a falta de água não é o único problema: até quando cai, a população sofre. Maximiliano relata que o mais comum é cair água durante a madrugada e aí só há dois caminhos: quem tem um reservatório, dá graças a Deus. Quem não tem, precisa ficar aceso durante a madrugada para poder lavar roupa e armazenar água em baldes para fazer as coisas de casa como cozinhar, lavar pratos e beber água.

Esse é o caso da empregada doméstica Eliane Gomes. A rotina dela é puxada, com afazeres durante todo o dia desde muito cedo. E toda essa labuta não acaba nem na hora que chega em casa para descansar porque precisa ficar acordada aguardando para ver se a água chega.

“Eu moro aqui há três anos e sempre teve esse problema. Sempre. É muito humilhante, muito triste e injusto. Como é que uma pessoa vive sem uma gota de água em casa?”, questiona.

Com a pouca quantidade de água, tudo é racionado. Eliane conta que coisas simples como abrir o chuveiro são simplesmente impossíveis em sua casa. Tomar um banho com esse “luxo”, custa o sacrifício de não poder lavar uma roupa ou um copo que seja durante quase uma semana.

“A gente tem que economizar em tudo. Toma banho de caneca, lava um prato do mesmo jeito. É algo insuportável”, conta.

Procurada, a Embasa afirmou que, no dia 24/12, a adutora de água bruta entre Pilar e Uauá apresentou um vazamento que foi corrigido no dia seguinte. De acordo com a empresa, sse fato agravou a irregularidade no fornecimento de água na cidade, que depende de captação de água bruta no sistema da Caraíba Metais em Pilar, distrito de Jaguarari, e o volume que pode ser captado para tratamento não é suficiente para atender com folga a demanda. Por isso, a distribuição de água tratada na cidade de Uauá e em Pilar é feita em regime de alternância.

A Embasa afirma que recisa investir R$ 25 milhões para perfurar dois poços em Canudos e implantar 30 quilômetros de adutora, atendendo dessa forma o distrito de Bendengó e a sede de Uauá.

“No entanto, o município não assinou contrato de programa com a Embasa. Essa situação gera insegurança jurídica para a empresa realizar um investimento de tal monta no município sem haver, no momento, uma solução legal possível prevista no novo marco legal do saneamento, vigente desde julho deste ano e que proíbe o contrato de programa entre municípios e empresas estaduais de saneamento no país”, diz a Embasa, em nota.

O CORREIO não conseguiu contato com a Prefeitura Municipal de Uauá.

Contas
Apesar do problema com o abastecimento ser reocnhecido pela própria Embasa, as cobranças chegam em dia. Eliane conta que já recebeu a fatura, no valor de R$30, para ser paga até o próximo dia 2 de fevereiro. Suas torneiras não viram uma gota de água sequer no ano de 2021.

Maximiliano diz que a sua última fatura veio com a cobrança de um valor referente a 18 m³ de consumo de água – o maior dos últimos 4 meses. Como dito anteriormente, o último mês chegou a quase 17 dias seguidos sem fornecimento.

Questionada, a Embasa alegou que sua cobrança é feita pela quantidade de água que passa pelo hidrômetro, ou seja, “pelo volume de água efetivamente entregue no domicílio”, mas não explicou o porquê dos valores serem cobrados a quem diz não receber abastecimento.

Fonte: Correio