Descobrimento de onde? Entenda como questões territoriais fizeram com que Porto Seguro se tornasse o 'berço' do país

A história é conhecida: Pero Vaz de Caminha, o escrivão da armada dos portugueses que chegaram aqui em 1500, descreveu o primeiro ponto de terra avistado pelos lusitanos no território que viria a se chamar Brasil. Era o Monte Pascoal, por ele narrado como um ponto muito alto e redondo. Agora, pense rápido: em que cidade da Bahia fica o monte? 

Não vai ser surpresa se a sua resposta tiver sido que fica em Porto Seguro, no sul do estado. Mas não é bem assim. Ainda que o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal pertença a Porto Seguro, a montanha, em si, faz parte de Prado, município vizinho. E, na verdade, ele fica até mais perto de Itamaraju do que do centro da cidade a que pertence. 

Mas o Monte Pascoal não é o único local histórico que passa por isso, no Sul do estado. Seja pela visibilidade enquanto destino turístico internacional, seja pela infraestrutura hoteleira, Porto Seguro foi alçada ao nível de berço do nascimento do país, ao mesmo tempo em que pontos históricos em cidades vizinhas têm ficado de lado – ou, ao menos, não aparecem tanto assim. 

Em um verão em que Porto Seguro tem ocupado o noticiário pelos casos de aglomeração e festas em meio à segunda onda da pandemia da covid-19, voltar à História pode ajudar a explicar o cenário hoje. Os limites contraditórios entre o que pertence a uma cidade e o que é parte de outra remontam a anexações de terras e disputas entre os municípios que tiveram início ainda no Brasil colonial, na época em que existiam as capitanias hereditárias. 

“Para conhecer o Monte Pascoal, a pessoa tem que vir para Itamaraju, porque aqui é a porta de entrada. São 20 quilômetros até a Aldeia do Trevo e a Aldeia Pé do Monte”, exemplifica o coordenador municipal da Defesa Civil de Itamaraju, Vinícius Borges de Almeida, presidente do Conselho Municipal de Turismo da cidade, citando duas tribos indígenas que vivem no local. Em comparação, o monte fica a 178 quilômetros do centro de Porto Seguro e a 82 quilômetros do centro de Prado. 

A entrada para o Monte Pascoal fica em Itamaraju (Foto: Divulgação)

Primeira praia
Até o local onde os portugueses primeiro chegaram, inclusive, também não fica em Porto – é a praia de Barra do Cahy, em Prado. Segundo a própria carta de Caminha, foi lá que os navegantes tiveram os primeiros contatos com os indígenas que aqui viviam. 

Porém, depois de avaliar que a praia não era segura o suficiente para atracar as embarcações, eles seguiram adiante. Assim, pararam alguns quilômetros depois, justamente onde hoje fica Porto Seguro. Em 2017, Barra do Cahy recebeu o título de primeira praia do Brasil. 

Apesar disso, Prado nem mesmo fica na chamada Costa do Descobrimento, na divisão proposta pelo mapa turístico do Brasil que é atualizado a cada dois anos pelo Ministério do Turismo. A cidade fica localizada na Costa das Baleias, que se tornou notória pelo Arquipélago de Abrolhos, considerado um “berçário” de baleias jubarte. 

Ainda que a cidade mais próxima do arquipélago seja Caravelas, é comum que passeios em direção a ele também saiam de Prado, especialmente antes de passar um período fechado devido à pandemia, no ano passado. 

Para a secretária de Turismo, Cultura e Esporte do município, Iracema Ribeiro, o melhor dos mundos seria se Prado fizesse parte das duas zonas turísticas. “A gente tem essa parte da história que é muito importante para nós, mas a gente também tem as baleias como algo da nossa região”, explica. 

Hoje, um dos projetos da prefeitura é fazer com que os moradores abracem locais como a Barra do Cahy, ajudando na divulgação. No ano passado, houve um concurso para que os moradores gravassem vídeos mostrando a praia através do seu olhar. 

A secretária admite que a maior parte dos turistas que aporta em Prado não vai pelos aspectos históricos.

“Quando eles chegam é que são surpreendidos. As pessoas associam o descobrimento muito mais a Porto Seguro, acho que pela divulgação. A gente tem que calçar o chinelinho da humildade e admitir que eles foram os caras que divulgaram, fizeram certo. Nós ainda não soubemos trabalhar esse grande produto que a gente tem nas mãos”, analisa Iracema. 

Uma de suas metas, agora, é divulgar mais esse legado, a exemplo do título de 1ª praia do país. Iracema reconhece, porém, que o trabalho precisa ser feito em parceria com as tribos da região. “Eles têm que se sentir à vontade para poder fazer esse trabalho turístico também. A gente não pode chegar e invadir”, diz. 

Na rotina do guia de turismo Daniel Isidório da Silva, que atua principalmente em Porto Seguro, é raro encontrar visitantes interessados em passeios nesses pontos históricos em outras cidades. Até o Monte Pascoal costuma ser preterido. 

“Muitos turistas não têm noção da história ou da geografia do Brasil. Então, quem conhece vai direto para lá”, explica ele, que é o presidente do Sindicato dos Guias do Extremo-Sul da Bahia. 

O que tinha mais chance de acontecer era algum grupo que está em Porto Seguro programar uma ida a Abrolhos e, por isso, ir até Prado, já que muitas embarcações saem de lá. Assim, alguns acabavam conhecendo a Barra do Cahy, por exemplo. No entanto, a maioria acaba ficando restrita a locais como Centro Histórico de Porto Seguro. 

Ele também não entende a divisão nas cidades, nem mesmo o motivo para o Monte Pascoal pertencer a uma cidade e não a outra que fica mais próxima dele. 

“Muitas vezes, aquela região ali até ficou abandonada por alguns gestores. Mas a demanda é muito pouca. Já fiz a subida com alguns grupos estrangeiros, quando atendia uma agência espanhola, e levei muitos colégios ali. Só que é pouco mesmo”, calcula. 

Pau-brasil
Já em Itamaraju, a coordenadora do Assentamento Pau-Brasil, Claudia Vicente, explica que o local recebe visitantes que querem conhecer uma grande população de árvores da espécie pau-brasil. Segundo ela, é possível encontrar pau-brasil em Porto Seguro, inclusive um exemplar de cerca de 400 anos. 

No entanto, é improvável existir na região uma população tão grande reunida em um único lugar quanto a que fica em Itamaraju. No assentamento, por exemplo, há mais de 800 árvores de grande porte. É lá que fica a árvore de pau-brasil apontada como a maior e mais antiga do Brasil, como o CORREIO mostrou em dezembro. Reencontrada no ano passado, ela teria mais de 600 anos, de acordo com estimativas de especialistas. 

A árvore de pau-brasil apontada como a mais antiga do país foi reencontrada no ano passado, em Itamaraju (Foto: Cassio Vasconcellos/Divulgação)

“Porto Seguro tem belas praias e áreas de lazer, assim como as cidades vizinhas. Já a gente aqui está quase no Parque Nacional do Descobrimento e isso chama atenção das pessoas. É um atrativo para quem quer ver como é viver em harmonia com a natureza, já que 70%, 80% de nossas matas não existem mais”, opina Claudia. 

Para o presidente do Conselho de Turismo e coordenador da Defesa Civil de Itamaraju, Vinícius Borges de Almeida, o município ainda não explora todo o potencial do turismo histórico como poderia. 

“A cidade serve como porta de entrada tanto para o Parque Nacional do Descobrimento quanto para o Parque Nacional do Monte Pascoal. Aqui, ainda tem muito a ser explorado. A gente tem noção de turismo praiano, mas há todo o potencial para a natureza, o ecoturismo. Com o fim da pandemia, a gente estima que o ecoturismo tenha um acréscimo de 100% de procura”. 

Uma das explicações para a divisão confusa entre os limites – a exemplo da entrada do Monte Pascoal ficar em Itamaraju – pode ser o fato de que Itamaraju já foi distrito de Prado.  O lugar onde fica a cidade era originalmente habitado por índios pataxós e, em 1896, virou um distrito da cidade vizinha. 

Na época, Itamaraju era chamada de Escondido – e assim permaneceu até 1961, quando foi elevada à categoria de município, desmembrada de Prado e recebeu o nome atual. De acordo com esse decreto, Itamaraju foi formada pelas terras de dois distritos perdidos por Prado: o homônimo e o antigo distrito de Jurucucu. 

Só que, em 1989, houve outra perda de terras em Itamaraju – o distrito de Jurucucu, agora grafado como Jucuruçu, se tornou município. 

Primeiro ponto de terra avistado pelos portugueses, o Monte Pascoal fica em Prado (Foto: Shutterstock)

Capitania de Porto
Prado, por sua vez, nasceu como uma vila. Foi uma das seis fundadas entre 1764 e 1772, como estratégia portuguesa de ocupação na capitania hereditária de Porto Seguro. Pelo menos três delas viriam, anos depois, a dar origem aos municípios homônimos de Alcobaça, Belmonte e Prado. 

Segundo o professor Francisco Cancela, em sua tese de doutorado em História, defendida na Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 2012, essas vilas redimensionaram as relações sociais entre a população indígena e outros grupos. 

A capitania de Porto Seguro, por sua vez, era tida como “a mais fértil e a mais rica das terras do Brasil”. Foi com essas palavras que o padre Cipriano Lobato Mendes se referiu a ela, em uma carta ao então príncipe de Portugal, D. Pedro III, em 1778.  

Em sua tese, o professor Francisco Cancela explica que o território foi definido com referências geográficas imprecisas – os limites iam do fim da Capitania de Ilhéus até 50 léguas depois. Informalmente, foi estabelecido que ela chegava até o Rio Doce como fronteira ao sul – ou seja, até onde hoje fica o norte do Espírito Santo. 

De fato, é difícil explicar as divisões justamente porque os limites territoriais não eram como hoje.

“As noções que temos hoje no toca a municípios e limites são muito recentes. Quando são instituídas as capitanias, o interesse de Portugal era povoar a região com os portugueses”, explica o historiador Rafael Dantas, assessor técnico da Secretaria de Turismo da Bahia (Setur). 

Só que, ainda que existisse a vila de Porto Seguro, o nome da capitania sempre foi esse – Porto Seguro. “Não era capitania de Prado ou de Cabrália. Desde o século 16, o Porto Seguro é o lugar de destaque não só da América portuguesa, mas também de ultramar de Portugal. A questão da divisão dos espaços sempre foi uma polêmica”, afirma Dantas. 

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Porto Seguro, ainda que também fosse uma vila, ganhou visibilidade por ser o nome da capitania (Foto: Divulgação)

Um exemplo é que, ainda que a História conte que o primeiro pedaço de terra avistado foi o Monte Pascoal, não quer dizer que ele tenha sido avistado de frente. Os marcos de terra de Portugal e do descobrimento foram mudando ao longo do tempo, principalmente em Prado e Cabrália. 

Essas indefinições persistem, principalmente, no século 18. É apenas no século 19 que as fronteiras começam a ser moldadas de fato. “No século 20, essa problemática continua existindo, por conta dessas discussões do descobrimento do Brasil. Até a data mudou cinco vezes ao longo desses séculos, até chegar ao dia 22 de abril. Toda essa polêmica é porque a gente não tem, de fato, aquele GPS falando como (Pedro Álvares) Cabral chegou. Então, isso vai continuar com o passar do tempo”, pondera o historiador. 

Lambada e baianidade 
Mas se Porto Seguro já tinha visibilidade desde o período colonial, isso cresceu exponencialmente, no século 20, com a atenção internacional, a promoção do turismo e os meios de comunicação. 

Para o guia de turismo Daniel Isidório, o período em que Porto Seguro ficou conhecida como Terra da Lambada, na década de 1980, contribuiu para isso. Só para dar uma ideia, em 1988, os produtores musicais franceses Jean Karakos e Oliver Lorsac conheceram o ritmo em uma viagem a Trancoso, distrito de Porto Seguro. Eles gravaram imagens de moradores dançando e, ao voltar à França, lançaram o hit Lambada, com o grupo Kaoma. 

Em 1990, outro empurrãozinho a novela Rainha da Sucata, que estreava na TV Globo, com hits da lambada como trilha sonora. 

“Antes, na década de 1970, tinha lugar aqui que não tinha energia, não tinha muita coisa. Veio a lambada e o turismo em dólar. As pessoas começaram a montar hotéis e restaurantes sem ordenamento algum. Cresceu muito”, diz. 

Hoje, segundo Daniel, há quem sonhe em trazer de volta esses elementos para promoção da cidade. “Tentam resgatar esses elementos, mas hoje são outros tempos”, completa. 

Já o historiador Rafael Dantas aponta um contexto ainda maior: ainda que entre 1930 e 1940, tenham começado os primeiros movimentos de promoção da Bahia de forma organizada, a exemplo da publicação de guias de turismo, esse capítulo ganhou reforço nas décadas de 1970 e 1980, com a criação da Bahiatursa. 

O órgão, hoje uma superintendência vinculada à Setur, passa a ser referência na divulgação da Bahia através da noção de baianidade. “Com o turismo mais consolidado com a divulgação de referenciais e ideias do descobrimento, Porto Seguro vai por esse caminho também”, avalia. 

Nesse contexto, houve um trabalho forte do ex-presidente e idealizador da Bahiatursa, Paulo Gaudenzi, morto em 2019. “Com a globalização, a gente vai precisar imediatamente de identidade. Sem a identidade, você não existe. A nossa identidade é a baianidade e isso está nas imagens, na propaganda, na Bahiatursa”, diz a dramaturga Aninha Franco, que tem gravações inéditas de Gaudenzi em entrevista para o livro A Criação da Cidade na Baía. 

União 
Mas é possível promover o diálogo entre todos os municípios ligados à chegada dos portugueses aqui. Para o historiador Rafael Dantas, um caminho seria primeiro fazer com que os próprios moradores de cada lugar conhecessem mais sua história. 

“A grande questão, a meu ver, não é somente entender o local exato onde Cabral chegou, mas entender que ele esteve na costa do descobrimento. Essa região, por si só, já é mais do que relevante, porque ali tivemos o contato dos portugueses com a América”, explica. 

Faltaria, assim, uma união dos agentes de cada município. “É evidente que Porto Seguro ganhou essa projeção pela importância da capitania, mas uma união dos municípios ajudaria a valorizar essa história”. 

Parque hoteleiro é vantagem de Porto Seguro

Um dos pontos fortes de Porto Seguro é a infraestrutura de pousadas e hotéis. Segundo a Associação Brasileira de Hotéis – Seção Bahia (Abih-BA), o parque hoteleiro da cidade tem o terceiro maior número de leitos do país – só perde para São Paulo e Rio de Janeiro. 

Mas, para o presidente da Abih do Extremo Sul da Bahia, Oliver Abade, o número de leitos não seria uma das razões para o destaque de Porto Seguro. 

“Eu colocaria como uma consequência. O setor empresarial do turismo, vendo todo o potencial, resolveu investir e acreditar no destino”, acredita. 

Hoje, são cerca de 60 mil leitos, somando a sede e os distritos como Trancoso e Caraíva.  A maior parte fica em empreendimentos construídos na década de 1990, quando a entidade considera que houve um ‘boom’ na região. O aeroporto, reinaugurado em 1997 após ter sido construído em 1982, também contribuiu para a expansão. 

“O aeroporto trouxe muitos benefícios não só para Porto Seguro, mas também para todas as cidades próximas”, avalia Abade. 

Para ele, um aspecto natural teria contribuído mais para a posição de Porto Seguro: a água do mar. “A água é mais tranquila e isso proporciona conforto, tranquilidade para as famílias, crianças”. 

No entanto, ele avalia que não há disputas entre os municípios da região – como Prado, Santa Cruz de Cabrália e Itamaraju. Em Prado, por exemplo, a rede hoteleira é formada por pousadas menores, mas que teriam um atendimento mais personalizado. “Acho que há uma somatória muito boa de forças com esse público. Quando um destino desses ganha, todo o entorno ganha”, pontua. 

Fonte: Correio