Luciana Souza protagoniza curta no Festival de Sundance

Em 2019, ela apareceu nas telas de Cannes. Agora, seu rosto estará em outro importantíssimo festival internacional, o americano Sundance. A baiana Luciana Souza, 58 anos, é a protagonista de Inabitável, curta-metragem que já rendeu a ela o prêmio de melhor atriz da categoria em Gramado.

A produção pernambucana, dirigida por Matheus Farias e Enock Carvalho, estará disponível no site festival. sundance.org a partir de amanhã, até o encerramento da mostra, dia 3. Luciana interpreta Marilene, que procura por sua filha trans (Eduarda Lemos), que  desapareceu depois de ter ido a uma festa. Fica a tensão: será que ela está viva?. E começa a peregrinação, incluindo uma visita ao Instituto Médico Legal, onde ela vai reconhecer um corpo que pode ser o da filha.

“O filme dá voz a essas ‘minorias’ e o filme envolve questão raciais, sociais, de homofobia… tudo dentro nesse  pacote. Temos um histórico de invisibilidade diante dessas minorias, um descaso, uma negação à vida dessas pessoas”, afirma a atriz.

Luciana vê uma certa identificação entre ela mesma e sua personagem: “Minha trajetória me coloca diante de questões sociais e é difícil ignorar isso. Sou professora de escola pública e estou nesse front, nessas comunidades, vivencio realidades como aquela do filme. E aquilo não está distante de mim”.

O convívio com arte e  cultura começou em casa, onde era incentivada a recitar poemas. “A cultura fazia parte de nossa educação. Lembro bem de minha mãe cantando enquanto realizava seus afazeres. E a reza de Santo Antônio também me marcou”.

Luciana Souza e Arlete Dias, em Essa é Nossa Praia, em 1990 (divulgação)

Os primeiros contatos de Luciana com o teatro aconteceram na Companhia de Teatro Popular, com Luís Bandeira. Mas foi em 1990, quando participou da fundação do Bando de Teatro Olodum, que ela ensaiou seus primeiros passos profissionais.

O Bando

Ela reconhece a importância do grupo para a sua formação artística e destaca que a experiência foi fundamental para se aprofundar na cultura afrobrasileira: “O Bando pesquisava diversos elementos afros: a dança, o modo de representar, o modo de falar… além disso, tinha as histórias do Pelourinho e as músicas do Grupo Cultural Olodum. Aquele conteúdo nos fortalecia e garantia a identidade”.

O primeiro espetáculo encenado foi Essa é a Nossa Praia, que deu início à Trilogia do Pelô, complementada por Ó Paí, Ó (1992) e Bai Bai Pelô (1994). Ó Paí Ó chegou aos cinemas em 2007 e deu projeção nacional a Luciana. Em 2008, quando virou série de TV, o reconhecimento foi ainda maior. Ela interpretava Joana, uma evangélica que ganhou bastante destaque. “Ó Paí, Ó trazia muitas questões que a comunidade do Pelourinho vivia e também a questão da morte de crianças e jovens”.

Bai Bai Pelô, em 1994: Suzana da Mata, Luciana Souza, Cristóvão Silva, Rony Cássio, Nildes Vieira e Sérgio Malhado

Em Bacurau, Luciana viveu Isa. A atriz foi a Cannes acompanhar a estreia do filme e admite que ficou apreensiva na ocasião. “Em muitos momentos, eu perguntava se era mesmo verdade que estava ali”, recorda. O trabalho com Sônia Braga, descreve, foi  uma “experiência encantadora”. Destaca ainda a experiência de trabalhar no filme com Lia de Itamaracá, cantora e compositora pernambucana que, para Luciana, é uma referência cultural de Recife.

Além de trabalhar como atriz, Luciana dedica-se ao ensino de artes na escola da rede estadual Vila Vicentina, na Lapinha. Já deu aula em diversas escolas da Liberdade. Também se dedica à EnCompanhia de Interesse Popular, que pesquisa manifestações culturais afrobrasileiras e indígenas. “Trabalhamos com cultura popular, teatro, dança e música em instituições onde vivem menores em situação de infração”, resume.

Fonte: Correio