Afinal, asma é ou não risco para a covid-19?

Intubado na última semana com covid-19, o ator e humorista Paulo Gustavo, de 42 anos, sofre de asma e seu quadro de saúde despertou apreensão em amigos e fãs na internet. Bastante divulgada no começo da pandemia como fator de preocupação por ser também uma infecção do trato respiratório, a asma passou a deixar dúvidas se representa mesmo um risco para o desenvolvimento de casos mais graves do novo coronavírus. 

A incerteza tem surgido porque algumas pesquisas, incluindo uma da Unicamp divulgada em janeiro, sugerem que há controvérsias. Há duas semanas, o Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC), órgão equivalente à Anvisa no Brasil, divulgou uma atualização em que mantém a asma moderada a grave como categoria de risco na pandemia.

Portanto, não está decidido ainda se ela foi ‘rebaixada’ da lista. Essa discussão não está encerrada, até porque o próprio Ministério da Saúde indica a notificação de asma em casos de Síndromes Agudas Respiratórias Graves (SRAG), que inclui a covid-19. Mas, não são poucas as pesquisas que vêm tranquilizando os asmáticos. Fundador do Programa para Controle da Asma na Bahia (Proar), o pneumologista e alergologista Álvaro Cruz, professor da Ufba, é co-autor de um artigo publicado também em janeiro que aponta que asmáticos não têm maiores riscos de infecção e nem de desenvolvimento de quadros mais graves. 

O documento mostra, inclusive, que há evidências de que as hospitalizações por asma foram reduzidas na pandemia, sendo este um momento em que se esperaria, na verdade, um aumento de internações. Os pesquisadores especulam que o fenômeno é um provável efeito da diminuição de infecções respiratórias devido aos comportamentos recomendados para se proteger contra a covid-19. Mas pode haver outras explicações para isso, como o uso de anti-inflamatórios pelos pacientes asmáticos e, também, pelo próprio medo em  se contaminar ao buscar os serviços de saúde. A falta de leitos  é outro fator levado em consideração.

“Entre as pessoas que conhecem as complicações da asma,  não há dúvida de que não é grupo de risco para desfechos desfavoráveis da covid-19. Existe muito mais uma suspeita de que a asma pode ser um fator de proteção por causa das medicações usadas para tratá-la”, diz Cruz, que adianta que o caso é diferente para pacientes com asma grave, o tipo mais raro. 

Outra provável explicação é que o resfriado comum, que é talvez o principal exacerbador da asma, pode ter ocorrido menos devido ao uso de máscara e higienização das mãos, o que mantém as vias aéreas melhor preservadas. 

O artigo detalha ainda que a frequência de asmáticos que morreram em decorrência da nova doença em São Paulo foi muito menor do que a taxa de asma na população, 3,1% contra 4,4%, o que eliminaria essa hipótese de estarem em maior vulnerabilidade.

O que pesquisadores da Unicamp apontaram recentemente num artigo publicado na revista científica canadense Allergy, Asthma & Clinical Immunology é o mesmo: que a asma não é uma condição que contribui para agravamento da covid-19 ou que, se for, então os médicos e pesquisadores não estão descrevendo bem as comorbidades de pacientes internados com covid-19. 

Para chegar a essa conclusão, os cientistas usaram informações de mais de mil artigos publicados nos seis primeiros meses da pandemia, que descreveram os quadros clínicos e antecedentes de mais de 161 mil pacientes.

Líder da pesquisa, o médico Lício Augusto Velloso, do Centro de Pesquisa de Obesidade e Comorbidades da universidade, explicou por e-mail ao CORREIO que do total de pessoas analisadas que tiveram covid-19, conforme a literatura consultada, somente 1,6% tinham diagnóstico prévio de asma, enquanto na população em geral, segundo dados da OMS, essa porcentagem é quase três vezes maior, de 4,4%. 

“Para que concluíssemos que há maior risco de covid-19 em pessoas com asma, teríamos que encontrar mais do que 4,4% nos 161 mil pacientes analisados no nosso estudo”, explica Lício Augusto Velloso.

O estudo ressalta, contudo, que mais de 20% dos pacientes eram originários da China, um dos países com menor prevalência de asma no mundo, menos do que 2% da população. O Brasil fica em 5º lugar no ranking de 70 países com maior taxa, com 13%. No topo está a Austrália, que chega a 21%, de acordo com dados da  Pesquisa Mundial de Saúde. 

Lício Velloso diz que também há alguns estudos feitos em centros de tratamento de asma  que analisam  quem tem o nível mais grave da doença. Essas pesquisas mostram que os pacientes podem ter casos mais agravados de covid-19. É por isso que ele acredita que o CDC  mantém a doença  na lista de fatores de risco.

Na Bahia, o que se sabe até agora é que, em 2020, a asma ficou na sexta posição de fatores de risco entre os pacientes internados no Instituto Couto Maia (Icom), unidade de referência para casos graves de covid-19. Doutora em Saúde Coletiva, a sanitarista Shirley Cruz, do Icom, explica que lá foi possível identificar uma predominância maior de asma na faixa etária das crianças. Ela destaca que o conhecimento sobre a covid-19 ainda está se consolidando e muitas lacunas precisam ser esclarecidas, sobretudo as relacionadas às comorbidades.

A asma

Médico pneumologista, Diogo Ramon Santos explica que a asma é uma doença inflamatória crônica que tem forte relação com o sistema imune. Quando um paciente é exposto a algo que provoque essa inflamação, que pode ser inclusive o vírus, isso leva a uma reação de inchaço das vias aéreas que promove bloqueio da passagem de ar. Por isso, o principal sintoma das queixas é justamente a falta de ar, explica ele, que atua na Clínica e Hospital Semedi, em Sergipe.

De acordo com números da Organização Mundial de Saúde (OMS/2016), cerca de 339 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com asma, sendo essa a doença mais comum entre crianças. A OMS diz que mais de 80% das mortes relacionadas à asma acontecem em países de baixa e média renda, como o Brasil. 

“Embora sufoque as pessoas, existe uma cultura de negligência com a asma, acham que é doença banal de criança, que melhora. Só que ela traz um sofrimento terrível. Mesmo passando por tréguas, a doença pode evoluir para formas mais graves, trazendo sofrimento continuado, é uma doença debilitante. Muitas vezes, pessoas que morrem por asma não têm a morte atribuída à doença porque acham que asma não mata”, completa Álvaro Cruz.

Chefe do serviço de pneumologia do Hospital Santa Izabel, Dr. Guilhardo Ribeiro destaca que, além de tudo, esta é uma das enfermidades mais subnotificadas globalmente. “Infelizmente, grande maioria dos pacientes, eu diria 60%, acham que têm asma controlada. Quando vamos examinar, não é bem assim. Eles apenas se acostumaram com a falta de ar crônica e fazem uma limitação das suas atividades”, explica Ribeiro. 

Tanto ele quanto o também pneumologista Antônio Lemos, do Hospital Cardio Pulmonar, acreditam que a covid-19 não representa um alto risco para os pacientes que têm asma controlada, ou seja, aqueles que fazem o uso correto de medicação. Já quem tem quadros moderados a graves e não mantém o tratamento pode, sim, desenvolver a forma mais grave da doença, dizem eles.

“A razão é muito simples. Primeiro porque a reserva pulmonar cai quando não se trata da forma certa e, segundo, porque o paciente que não usa medicação anti-inflamatória fica mais sensível quando tem uma doença viral, descompensando, então, a doença de base, que é a asma”, completa Guilhardo Ribeiro. 

Antônio Lemos diz que tem recebido muitos pacientes asmáticos solicitando um atestado de vulnerabilidade, mas nem todos que têm a doença precisam se alarmar. “Faço o checklist clínico, a espirometria e o exame clínico. Se vejo que a pessoa tem asma controlada, não libero. Ela pode continuar trabalhando. Mas, se for uma pessoa com sintomas, vou corrigir estes sintomas e peço que volte para fazer uma avaliação mais adiante”, diz ele.

Pneumologista, o médico Adelmo Machado, professor da UniFTC, também acalma. Ele diz que a grande maioria das pessoas têm asma tratável e conseguem viver uma vida tranquila se cuidarem bem. Os que fazem uso de medicação têm muito menos chances de complicar.

Vacina

Por enquanto, a asma grave está mantida na lista de prioridade na fila de vacinação do Ministério da Saúde. Quem está preocupado com possíveis revisões quanto à doença na ordem de imunização não precisa se desesperar, adianta Ethel Maciel, epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santos (Ufes). No médio prazo, o Brasil precisa vacinar mais do que 70% da sua população, o que dá todos com mais de 18 anos. Portanto, “as pessoas com asma também entrariam, ainda que em outra fase”, tranquiliza.

Como o próprio Instituto Butantan divulgou na última segunda (22), estudos iniciais apontaram que a Coronavac é segura para crianças e adolescentes, faixa etária sensível à asma. “O escalonamento de quem vai entrar no plano vai ampliar”, diz.

Guilhardo Ribeiro orienta que os pacientes que têm doenças respiratórias devem, contudo, consultar os seus médicos antes de se vacinar. É importante conversar com um profissional para entender cada quadro de saúde porque, embora não seja comum, há alguns casos de hipersensibilidade nas vias aéreas. Então, quem tem chances de desenvolver algum tipo de reação alérgica deve ser orientado para se proteger melhor.

COMORBIDADES QUE MAIS MATAM NA BAHIA
Fonte: Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) em 26 de março de 2021

Importante! A soma de comorbidades não reflete o quantitativo de óbitos absolutos. Cada óbito pode apresentar mais de uma comorbidade.

1. Hipertensão – 4898
2. Diabetes – 4.133
3. Doença cardiovascular – 2.534
4. Doença renal crônica – 960
5. Obesidade – 875
6. Doença respiratória crônica – 753
7. Câncer – 546
8. Doença do sistema nervoso – 320
9. Demências – 290
10. Tabagismo – 196
11. Sem informação – 3.391
12. Sem comorbidades – 1320

Fonte: Correio