Almas que habitam Salvador revelam o que o olhar comum não vê

Alegre, melancólica, sinistra, beligerante, pacífica, aristocrática, proletária, indolente, religiosa, profana, moderna ou histórica, dentre outros adjetivos, toda rua, da metrópole cosmopolita à cidadezinha provinciana, guarda uma essência no ar, um jeito peculiar de ser, uma idiossincrasia distintiva, um traço subjetivo que a diferencia dos demais logradouros e faz com que seu morador – ou mesmo um visitante casual – se identifique com ela. Sim, como as pessoas, as ruas têm alma, mesmos aquelas aparentemente desalmadas, palcos involuntários de crimes memoráveis e por onde se volatizaram as mais baixas perversões.

Pela atmosfera das ruas, circula um espírito que não é de fácil apreensão, mas perceptível ao transeunte mais sensível e disposto a conferir que, entre uma calçada e outra, entre uma esquina e a mais próxima, entre uma placa de identificação e a seguinte, há mais coisas do que imagina a nossa vã geografia urbana. É como se cada rua oferecesse a quem passa um bilhete oculto, uma passaporte mágico, um ingresso fantástico para que se possa adentrar na sua subjetividade única, no seu espírito secreto, na sua personalidade discreta, enfim, na sua alma invisível e recôndita.

Porém, para captar a quintessência das ruas é preciso flanar despreocupado pela cidade, mas sempre atento aos mínimos detalhes, da simples vibração de uma árvore sacudida pelo vento à fachada musgosa de um casarão em ruínas. Nessas pequenas coisas, aparentemente banais, se esconde o espírito secreto das ruas.

Essa aventura em busca do âmago das ruas foi empreendida, no começo do Século 20, por um jornalista e cronista com o nome do tamanho de uma avenida: João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou simplesmente João do Rio (1881-1921). É dele o livro que inspira esta reportagem: “A Alma Encantadora das Ruas”, reunião de reportagens escritas entre 1904 e 1907 para o jornal Gazeta de Notícias e a revista Kosmos.

Para o cronista, as ruas têm uma alma que distingue  determinado logradouro de outro, havendo ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, melancólicas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes. O cronista revela que a melhor hora para observar a cidade e apreender o sentido das ruas é na madrugada, pois “a alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias”. E ainda adverte: “Rua é como cobra. Tem veneno”. Portanto, é preciso ter muito cuidado ao sair por aí, bisbilhotando a rua dos outros.

Amálgama urbano
Uma caminhada pelos becos, ladeiras, avenidas, praças, largos, travessas, alamedas e simples vielas de Salvador, se observados com um olhar perscrutador, permite vislumbrar esse espírito secreto das ruas de uma cidade que, com sua mistura de cores, sons e sabores, tem muitas almas. Vejamos alguns exemplos. A Praça Castro parece soprada pelos ventos da liberdade (por ser do povo) e pela brisa da alegria (como nos velhos Carnavais). 

Via que liga a Carlos Gomes à Praça da Piedade, a Rua da Forca tem, provavelmente, uma alma penada. Assim ela é chamada porque ali eram conduzidos os condenados a serem executados no centro da cidade, como ocorreu em 1835 com os quatro mártires da Revolta dos Malês (Lucas Dantas, Luiz Gonzaga, Manuel Faustino e João de Deus), O Campo da Pólvora, bélica. A Rua da Faísca, elétrica. A Ladeira da Preguiça teria uma alma indolente, não fosse seu nome originado por uma aberração histórica. 

A Preguiça era passagem dos negros escravizados que, sob o sol escaldante, carregavam enormes fardos da Cidade Baixa para a Cidade Alta, e ainda tinham que ouvir senhores de escravos que, refestelados no conforto dos casarões, debochavam: “Sobe, preguiça!”. Verdade ou lenda, o fato é que subir aquela íngreme ladeira, logo após a Igreja da Conceição da Praia, dá mesmo uma preguiça retada.

O Beco do Mijo (apelido da Rua do Curriachito, colada ao Espaço Glauber Rocha de Cinema) tem um temperamento anti-higiênico. Descamba pela Ladeira da Água Brusca uma alma cataclísmica. Os principais locais do Comércio (Avenida Estados Unidos, Terminal da França, Rua da Grécia e outros) abrigam um espírito estrangeiro. E há bem mais almas na Salvador urbana.

Ladeira da Montanha (lasciva); Voluntários da Pátria (patriótica); o trecho da Praça da Sé ao Cruzeiro de São Francisco (religiosa); Pelourinho (histórica); Graça, Corredor da Vitória e Barra (aristocrática); Desterro (exilada). Na Mouraria , assim batizada no começo do Século 18 pela presença de ciganos mouros, a alma é nômade. Já a Estrada da Rainha só pode ter um espectro de nobreza enlouquecida. A via foi construída na época de Dona Maria, a Louca, mãe de Dom João VI. Dizem que, desvairada, ela teria passado por lá. E o que dizer da Rua da Lama, existente no imaginário de muitas cidades? Tem o espírito de porco.

Geografia sentimental
Com as antenas da subjetividade ligadas, poetas e escritores são uma raça mais sensível à metafísica das ruas.  Jornalistas também, por percorrerem diariamente a cidade num carro de reportagem, atentos a tudo o que acontece ao redor. A jornalista e poeta Kátia Borges vê as desigualdades sociais na Praia do Cantagalo, “um enclave de areia e sal e homens que morrem jovens no coração da cidade”, como ela retrata no poema “Cantagalo”; uma praia onde “a nobreza é uma miragem”.

A jornalista e escritora Katherine Funke enxerga uma alma ancestral nas árvores balançadas pela brisa do fim de tarde do Corredor da Vitória: “Sempre me pareceu que as árvores conversam entre si sobre o destino dos homens, há dezenas de anos, séculos, quem sabe…”..

A professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), poeta e cronista Ângela Vilma diz que “as ruas são intercâmbios crepusculares de narrativas; por exemplo, em cada casa que comunga com a outra; principalmente na conhecida parede-meia na qual segredos, dores e alegrias são espreitados por ouvidos e carnes trêmulas”. Poeta que faz da memória a matéria-prima de seus versos, Ruy Espinheira Filho retorna à Rua da Itália da cidade de Poções, onde passou a infância e parte da adolescência.

“Lá ainda vivem doces fantasmas, como na casa que meus pais construíram em meados dos anos 50. E parentes, e amigos, e amadas…”, rememora Ruy. De Feira de Santana, o poeta Antonio Brasileiro volta aos verdes anos da Ruy Barbosa, sua terra natal, para apontar na Rua da Vitória um espírito sensual. “Era uma rua estranhíssima, até que comecei a frequentá-la”, confessa o artista.

O escritor Carlos Vilarinho, autor do romance “Barroquinha”, pinta o largo homônimo da cidade com um verniz popular. O jornalista e escritor Rogério Menezes direciona o pensamento para a vertiginosa Ladeira do Pepino, desafio para pedestres, ciclistas e motoristas. “Num domingo avistei o Dique do Tororó. Dei uma volta, e perguntei: – Que ladeira é aquela? Alguém respondeu: – Do Pepino. E perguntou: – E vai subir neste calor brabo, maluco? Subi. Na metade da metade do caminho, pensei em desistir, mas fui até o fim”

O escritor Marcus Borgón vai à Rua Jogo do Carneiro, a principal do bairro da Saúde, na capital baiana: “É uma bonita desordem, quase resumo de Salvador. Casarios antigos, e idosos de cadeira na porta contrastam com a movimentação de carros”. Dono do Mimosa, boteco etílico-literário com mais de 50 anos no histórico  Dois de Julho, o comerciante João Santos de Oliveira Santos indica uma predestinação cultural na Rua do Sodré: “Aqui faleceu o poeta Castro Alves, no sobrado que hoje é o Colégio Ypiranga, onde estudaram, dentre outras personalidades, os cantores Raul Seixas e Simone e o escritor Jorge Amado”.

São tantas ruas, tantas recordações, tantas almas a vagar pelas artérias das cidades. Porém, nestes tempos dolorosos de hecatombe provocada pela pandemia, todos parecemos convergir para um mesmo logradouro: o Largo dos Aflitos. Ainda bem que por aí (e em qualquer cidade) sempre existe uma rua com o nome da Compadecida: Nossa Senhora. Rogai por nós!

Onde tudo acontece
À frente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), órgão de planejamento urbano da prefeitura de Salvador, Tânia Scolfield, até por dever de ofício, sempre lançou um olhar diferenciado para as ruas da cidade. Sua visão de arquiteta e urbanista enxerga também as nuances culturais do espaço público. ”A rua é o lugar mais importante de uma cidade. É onde tudo acontece”, observa. Para ela, tornar a rua mais agradável é fazer a cidade melhor. Tânia afirma que “cada rua tem a sua identidade” e destaca o espírito que anima algumas ruas de Salvador, sem desmerecer a importância das demais.

Avenida Sete de Setembro (multifacetado): “É onde tudo acontece, o comércio formal e ambulante, os serviços e também uma área residencial. Todas as pessoas passam por lá”. Trecho Largo de Roma-Dendezeiros-Colina do Bonfim (religioso): “É o Caminho da Fé. Neste espaço temos dois grandes santuários, o de Santa Dulce dos Pobres e a Igreja do Bonfim”. Rua do Curuzu (cultural): “Ali temos uma diversidade muito grande, como a Casa de Maria Felipa – Centro de Visitação, Estudos, Pesquisas e Empreendimentos Étnico-Culturais, batizado com o nome da heroína negra da Independência da Bahia -, o Ilê-Aiyê e muitos serviços, como salão de fazer tranças nos cabelos”. 

Tânia menciona ainda logradouros em que pairam um espírito móvel (no sentido de intensa mobilidade urbana), como a Avenida Dom João VI, a principal de Brotas; a Rua Sabino Silva, que liga Ondina à Barra; a Rua Adhemar de Barros, entre a Garibaldi e Ondina; a Avenida Joana Angélica, no centro da cidade, e locais que considera de centralidade. Entre elas, as avenidas Barros Reis, ao final das Sete Portas, e São Rafael, e a Rua Ulysses Guimarães, em Sussuarana. Para ver todos esses espíritos secretos, basta olhar com a lente da alma. 

Fonte: Correio