Quentinhas de caruru fazem fila dobrar a esquina nos restaurantes populares

De dobrar a esquina. É assim que estava a fila do Restaurante Popular do Comércio já às 10h desta quinta-feira (1º), meia hora antes de começar a ser servido o almoço especial em comemoração à Páscoa, que levava no cardápio um peixe à Gomes de Sá, caruru, arroz e feijão. Uma adaptação da ceia comum dos baianos que foi vendida por R$ 1 para todos que apareceram por lá. Valor simbólico que chamou a atenção de centenas de pessoas que fazem parte do público comum ao restaurante, formado, basicamente, por ambulantes, idosos e moradores da região em vulnerabilidade social e pessoas em situação de rua, que têm no almoço servido ali, a única oportunidade de comer uma refeição completa no dia. 

E não foi só o fato de estar barato que fez a fila passar de uma esquina e quase chegar na outra. Os alimentos postos nas quentinhas – que, por conta das restrições da pandemia, não podem ser ingeridos no restaurante – foram o principal motivo de uma reunião de pessoas bem maior que o normal. Pelo menos, é isso que garantiu Marcos Silva, 34 anos, segurança do restaurante e responsável pelo controle da fila. “Do início da pandemia pra cá, já tinha aumentado muito a procura tanto de pessoas em situação de rua, como moradores da região que perderam o emprego. E, hoje, por ser novidade e ter mais ou menos o cardápio da Sexta-feira Santa, encheu mais ainda. Afinal, é a única oportunidade pra comer um caruru, um pescado para muitos aqui”, contou.

Ceia possível
Como bem disse Marcos, para muitos dos que compareceram ao restaurante popular do Comércio e também da Liberdade, a quentinha foi a única forma de poder comer o cardápio que é tradição na Semana Santa. Esse foi, por exemplo, o caso de Eron da Silva, 43, que é uma pessoa em situação de rua. Ele está desempregado e tem conseguido comer com o que tira da reciclagem. “Graças a Deus que tem essa quentinha pra gente poder comprar uma ceia por um preço que eu consigo pagar. Se fosse em um restaurante normal, não tinha condições. É bom que a gente possa ter acesso a essas coisas”, disse.

Além da ceia, Eron contou que o restaurante é o ponto diário para suas refeições. “O restaurante ajuda todos nós que moramos na rua. Tem vez que a gente não tem dinheiro, mesmo com a recicla, e o restaurante quebra nosso galho porque, sem ele, não saberia o que fazer pra comer uma refeição completa todos os dias”, falou.

Quem também está sempre pelo restaurante popular é uma senhora que, sem se identificar, comemorou a oportunidade de poder comer um caruru a um preço acessível. “Não lembro a última vez que eu comi um caruru, um peixe da Semana Santa. Isso é muito difícil pra gente porque é caro, só você olhar os preços por aí que já vê que não dá. Então, pagar um real e levar um caruru pra casa é bom demais”, contou a senhora, que é moradora do Comércio e consegue pagar pela comida com o dinheiro que tira catando latinhas.

Clientes do restaurante comemoram cardápio especial (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Fim de semana
Como nesta quinta foi o último dia de funcionamento do restaurante até segunda-feira (5), não faltou gente para entrar na fila mais de uma vez – cada um só pode comprar uma quentinha por vez – e garantir as refeições para o feriado, o sábado e o domingo. Seu Antônio dos Santos, 72, aposentado que mora no Comércio, foi à fila cinco vezes para não ficar sem almoço até o início da semana que vem. “Esse almoço aqui do restaurante popular é a melhor coisa que poderia existir. Com esse valor, fica mais fácil comer bem em um tempo tão difícil. Até por isso, tô indo e voltando na fila pra comprar a comida de sexta, sábado e domingo, quando vai ficar fechado e não vai sair almoço”, explicou.

Outro que não foi só uma vez na fila foi Isaque Silva, 24, que está em situação de rua e falou sobre o quão importante é o restaurante para sua alimentação diária. “Isso aqui, pra mim, é fundamental. Porque, quem mora na rua, tem poucas chances de ter acesso a uma comida bem feita. Ainda mais nesse valor. Vale muito a pena e cabe no bolso de quem ganha muito pouco, como é o caso da maioria por aqui”, declarou.

Isaque elogiou a importância do restaurante popular (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Ajuda essencial
Ao todo, contando com os restaurantes populares da Liberdade e do Comércio, são servidos, aproximadamente, 5 mil almoços de segunda a sexta-feira. Refeições a baixo custo e nutricionalmente balanceadas segundo Rose Pondé, superintendente da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (Sjdhds), que coordena os restaurantes.

“Além de ser uma alimentação barata, é uma refeição que é nutricionalmente balanceada, em uma quantidade suficiente para um adulto se alimentar. Temos uma preocupação grande com isso e, por isso, mantemos nutricionistas como supervisores desses alimentos. A parte nutricional e o custo são os pontos mais importantes para nós”, explicou Rose, que destacou também o fato de crianças de menos de 5 anos não precisarem pagar para ter acesso ao alimento.

A superintendente também afirmou que não são só os clientes do restaurante que ganham. Na parte da produção, também há um trabalho de incentivo a agricultura familiar para possibilitar o equilíbrio nutricional citado. “Na outra ponta, no rural, temos uma ação de fortalecimento ao agricultor familiar, que conta com a participação de famílias de Maragogipe, que conseguem trazer os alimentos por causa da distância e vender para a empresa que faz o fornecimento das refeições”, revelou.

*Com supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro.

Fonte: Correio