Ritual alterado: missa da Paixão acontece com restrições e sem beijo na cruz sagrada

Nada de bancos apertados com seis ou mais pessoas em cada um, dando um jeito para que mais fiéis pudessem estar presentes. Esta Sexta-feira da Paixão (2) na Catedral Basílica de Salvador foi bem diferente do comum. Difícil mesmo era ver um banco, dos 78 que existem no local, com mais de uma pessoa. É que o espaço, que nesta data sempre costuma receber 500 ou mais fiéis, contou com a presença de apenas 40 pessoas.

Desse total, 25 eram fiéis que garantiram vaga na celebração previamente por telefone. O outro grupo, de 15 pessoas, era formado por franciscanos que têm a vaga reservada pela Igreja. A igreja vazia não foi a única coisa incomum na celebração. Por conta da pandemia, até o ritual sagrado em que fiéis beijam a cruz precisou dar lugar a uma simples reverência, à distância, feita pelos presentes.

Beijo de longe
Quem não pôde tocar a cruz com os lábios, como já é tradição, até estranhou a nova maneira de prestar homenagem, mas entendeu o motivo pelo qual o beijo não aconteceu. Caso da técnica de enfermagem Maria das Graças, 54, que sempre comparece na Sexta-feira da Paixão. Ela não se apegou tanto ao ritual e preferiu focar na intenção para não se abalar e manter a fé viva. “Eu acho que a gente tem que viver olhando para frente, sem se abalar com essas mudanças. Precisamos saber que não podemos beijar a cruz com a boca, mas podemos fazer isso com o nosso coração, com a nossa alma. Eu entendo e acho que todos aqui entendem também que essas adaptações são feitas pela saúde das pessoas”, afirmou.

Maria das Graças disse entender o porquê da ausência do beijo na cruz (Foto: Paula Froés/CORREIO)

A donda de casa Rosa Maria Bitencourt, 66, é presença certa em todos os anos da celebração. Para ela, tudo é muito diferente, mas o importante mesmo está no coração dos fiéis. Ela lamentou a ausência do beijo, mas ressaltou também que um dos ritos mais importante não esteve ausente: a hóstia. “Sim, a gente lamenta porque isso aí faz parte da tradição. É tradição porque é bíblico também. Sentimos muita falta, mas não nos faltou o Cristo na hóstia consagrada”, salientou.

Vazio estranho
As várias lacunas nos bancos também foram observadas pelos fiéis, que nunca viram nada parecido. Acostumados com uma Igreja entupida em todos os lados, alguns afirmaram que a celebração foi muito curiosa por conta do vazio incomum. A aposentada Rita de Jesus, 76, reparou a ausência de muitos fiés, mas não se incomodou. “A gente sente o vazio, lamenta isso, mas temos a confiança que Deus está conosco e que veremos uma vitória. Então, o vazio não nos incomoda porque a gente sabe que esse tipo de coisa não pode nos deixar tristes. É um pouco diferente, sentimos o impacto de não ver a igreja lotada, mas isso não pode nos derrubar”, opinou. 

Rita afirmou que não quer se abalar por conta do vazio na catedral (Foto: Paula Froés/CORREIO)

Maria das Graças foi pelo mesmo caminho. Preferiu, ao invés de se entristecer com uma celebração tradicional descaracterizada, focar na fé e se lembrar o tempo inteiro que, apesar da ausência dos muitos, Cristo não tinha faltado. “É diferente, um tempo onde as coisas estão restritas. Temos uma tradição muito bonita, uma celebração que infelizmente não pode acontecer como em tempos comuns. Mas o importante é não deixar de crer e manter a fé que nos sustenta em um momento tão doloroso. A Igreja vazia não significa que Cristo está ausente”, declarou. 

Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Sérgio da Rocha, voltou a afirmar que as restrições na Sexta-feira da Paixão ou em qualquer outra celebração da igreja são atos necessários pela saúde dos fiéis e a única maneira de fazer possível a volta de celebrações repletas de pessoas nos próximos anos. “É certo que nós todos desejamos uma presença muito maior de pessoas na igreja. Mas, neste momento, compreendemos que o melhor modo de louvar a Deus seja cuidando da vida e da saúde. Temos a necessidade de restringir o número de fiéis para termos a esperança de que, no próximo ano, a igreja esteja cheia”, disse. 

*Sob supervisão da chefe de reportagem Perla Ribeiro

Fonte: Correio