‘Resistência de teimosos’ marca a II Feira Literária de Canudos

“Basta estar vivo que você já está na resistência hoje”, reflete o jornalista e escritor cearense Xico Sá, 58 anos, ao telefone. Convidado da II Feira Literária de Canudos (Flican), que começa quinta-feira (8), às 14h, Xico participa de um bate-papo virtual com os amigos e escritores pernambucanos Marcelino Freire e Antônio Marinho, “ciganos dessas mesas literárias pelo Brasil inteiro”, define.

Os três vão falar sobre Antônio Conselheiro (1830-1897), líder religioso que saiu do Ceará para fazer história em Canudos, na Bahia. “Vai ser um mergulho na trajetória do Conselheiro e vamos puxar para cá, falar da resistência hoje”, explica Xico. “Vai ser um rastreamento desses teimosos que de alguma forma representam Canudos. A gente migra e grita muito. Vai ser bom esse encontro”, completa Marcelino, 54.

Na mesa ‘Literatura, espaço, tempo e pandemia’, que acontece sexta-feira (9), às 16h10, o trio vai “relembrar para o Nordeste e o país inteiro que Canudos está vivo e tem história para contar”, destaca Xico. “É uma história que não se perde no tempo, porque resume a história Brasil. Não são leituras literais, mas simbólicas. Para entender a história do país, tem que voltar para Canudos”, defende.

Esse processo, continua, implica em reconhecer “que as tropas federais sufocaram um bando de nordestinos e cada pontinha dessa história de Canudos acaba despertando hoje”. Marcelino acrescenta que por ter estado à frente de questões de igualdade, consciência política e educação, “Conselheiro fez uma revolução muito moderna”. “Não é vergonha desconhecer essa história. O ruim é permanecer a vida inteira”, convida Xico.

Resistência
Para além da história de Canudos, são várias as resistências que entram no debate durante a Flican. A do artista que na pandemia “se reinventa o tempo inteiro”, destaca Marcelino, e a resistência da força Nordestina, que ganhou fôlego internacional com o premiado livro Torto Arado, do escritor baiano Itamar Vieira Junior. “Cito o exemplo de Itamar para citar tantas forças que não desistem. Faz bem à literatura contemporânea”, elogia.

Outra resistência é manter-se conectado à distância, ou como diz Marcelino: manter-se “quarantenado”, ou seja, “antenado, produzindo, abraçando as pessoas e descobrindo ferramentas para estar junto a elas”. Apesar de o abraço presencial fazer falta, assim como “beber com as pessoas depois das palestras e caminhar pela cidade”, o escritor destaca que o formato digital das feiras e festas veio para ficar.

“Veio pra ficar porque esse alcance é muito bom. Nada substitui o calor presencial, mas na falta dele a gente vai se energizando como pode. A vantagem é que estou em casa indo para a casa das outras pessoas e de repente entramos no espaço do escritor. Você vê a estante dele, de vez em quando o gato passa na câmera, o vendedor de caju que passa na rua (risos)… Quando que a gente teria isso?”, provoca.

Resistir também significa “ficar vivo para continuar contando histórias”, lembra Xico Sá, e seguir “em vigília permanente para manter a democracia, mesmo com todos os defeitos”. “Na democracia, você tem o benefício lindo de falar mal dela, falar mal do prefeito, do governador, falar do buraco na sua rua, da segurança pública…”, enaltece. E o escritor, em sua opinião, tem a liberdade de falar sobre o que quiser.

“Mas, hoje, não dá para não passar por essas broncas que estamos vivendo. Dá para falar de poesia de amor e ser resistente ao mesmo tempo”, defende Xico. O escritor acrescenta, ainda, que “não adianta ter um bando de escritores se não estivermos quem nos escute”, por isso “o leitor é a coisa mais preciosa que a gente tem”. “Levar alguém a ler, hoje, é muito revolucionário. Com reflexão você muda as coisas”, acredita.

Marcelino concorda e acrescenta que a literatura nos ajuda a ler nas entrelinhas, “nas subsombras de um discurso, do poder”. “Quando a gente lê um livro, a gente fica mais esperto”, reforça o escritor. “O bom livro não é o que nos faz sonhar, é aquele que nos acorda. A literatura tem um poder muito grande e é disso que os poderosos têm medo”, finaliza.

Serviço
O quê: II Feira Literária de Canudos (Flican)
Quando: De quinta-feira (8) a sábado (10), em horários variados. Abertura: às 14h.
Gratuito
Transmissão: YouTube da Uneb em Canudos e pela Canudos TV
 
08/04 – QUINTA-FEIRA – Tarde
 
14h – Desfile Literário
 
14h30 – Interpoéticas com Vitória Luísa – Sertão Sol e Paloma Aleoncio
 
14h40 – Mesa 1: Assombros e Encantados no imaginário sertanejo
             Ester Figueiredo, UESB (Mediadora)
             Franklin Carvalho
             Márcio Benjamin
 
16h   –  Selo FLICAN – Premiação: Concurso literário – A produção intelectual dos estudantes de
            Canudos com Lançamento do projeto do livro: A resistência na palavra
             Roberto Gama (Secretário Municipal de Educação de Canudos) – Mediador
 
17h30 – Encerramento da tarde   
 
08/04 – QUINTA-FEIRA – Noite
 
19h   –   Concerto de Abertura com Orquestra Sizaleira (BA)
 
19h30 – Homenagem a: José Calasans; Edivaldo Boaventura; Evandro Teixeira e Tripolli Gaudenzi
 
19h50 – Abertura oficial:
             Arani Santana – Secretária de Cultura da Bahia
             Jerônimo Rodrigues – Secretário de Educação da Bahia
             Zulu Araújo – Presidente da Fundação Pedro Calmon
             José Bites de Carvalho – Reitor da UNEB          
             Jilson Cardoso – Prefeito de Canudos
             Roberto Gama – Secretário Municipal de Canudos
             Vanderlei Leite – Presidente do IPMC
             Luiz Paulo Neiva – Curadoria da FLICAN
 
20h25 – Poesia de Antônio Barreto em homenagem a José Calasans
 
20h30 – Conferência Inaugural: José Calasans, o demiurgo de Canudos Walnice Galvão (USP)
 
21h30 – Show Bião de Canudos
 
09/04 – SEXTA-FEIRA – Manhã
 
09h – Abertura
 
09h – A voz de Kaila Marcele (Canudos)
 
09h15 – Dona Durú (Canudos) – depoimento memorial
 
Flicanzinha
 
09h20 – Cordel Cantado: Mariane Bigio (PE)
 
09h50 – Zé Poeta – (Monte Santo)
 
10h –  Visitando o Memorial Antônio Conselheiro
 
10h10 – Mesa 2: Aprendizagem e resistência em tempo de pandemia –                
             Superação e criatividade pedagógica nas escolas de Canudos
             Josileide Varjão Valença –Secretaria Municipal de Educação
 
11h30 – Interpoéticas com Mariana Guimarães
 
11h40 – Encerramento da manhã
 
09/04 – SEXTA-FEIRA – Tarde
 
14h – Banda de Pífanos de Canudos – resistência e encantamento cultural                      
 
14h10 – Eldon Canário (BA) – depoimento memorial
 
14h15 – Mesa 3:  Evocação de Canudos
              Luiz Paulo Neiva, UNEB (Mediador)
              Manoel Neto, CEEC/UNEB
              Pedro Lima Vasconcelos (UFAL)
              Floriza Sena (IPMC)
              João Batista (Historiador)
 
15h30 – Cenário da guerra – Visitando o Parque Estadual de Canudos
 
15h50 – A força jovem da música em Canudos – Robertinho Kambalacho
 
16h –  Interpoéticas com Ádila Madança;
 
16h10 – Mesa 4:  Literatura, espaço, tempo e pandemia
              Xico Sá (CE)
              Marcelino Freire (PE)
              Antônio Marinho (PE)

17h30 – Encerramento da tarde
 
09/04 – SEXTA-FEIRA – Noite
 
19h – Abertura Cultural: a poesia de Zé Américo (Canudos)
 
19h10 – Museu João de Régis – Com a palavra o Curador Edmilson Santana
 
19h20 – Museu João de Régis: Olhares e vertigens na memória                                    
              Flávio de Barros (por Sérgio Guerra),
              Evandro Teixeira
              Antônio Olavo
 
19h50 – Interpoéticas com Yasmin Rabelo e Pók Ribeiro – Coletivo Vozes – mulheres: além da
              margens.
 
20h    –  Mesa 5: – Literatura, poesia e virtualidade
             Cida Pedrosa (PE)
             Emmanuel Mirdad (BA)
             Maviael Melo (Mediador) (PE)
 
21h30  – Show de Encerramento com Targino Gondim e Renan Mendes
 
10/04 – SÁBADO – Manhã
 
09h –  A voz de Isael – Sertao Francisco (Paulo Afonso)
 
09h10 – Joselina Guerra (Canudos) – depoimento memorial
 
Flicanzinha
 
09h15 – Rosa Griô e Sá Benidita (Contadoras de história)
 
09h50 –  Antonio Barreto (BA)
 
10h20  – Mesa 6: Vozes guardadas: literatura de mulheres
              Ilza Carla, poeta e escritora UNEB (Mediadora)
              Erica Azevêdo, poeta
              Clarissa Macêdo, poeta
              Áquila Emanuelle, poeta
 
11h40 – Encerramento da manhã
 
10/04 – SÁBADO – Tarde
 
14h – Para abrir a tarde: Banda de Pífanos de Bendegó e Kaila Marcele (Canudos)
 
14h20  – Monólogo:Marcos Freitas (Cia de Teatro de Canudos)
 
14h40  – A vanguarda de editoras, livrarias e bibliotecas
              Sandra Soares (Eduneb)
              Geraldo Prado (Biblioteca de Paiaiá)
              Flávia Goulart Roza (Edufba)
              Cássio Marcílio (Edições Uesb)
              Murillo Campos ( Editora UEFS)
              Primo Maldonado (LDM)
 
15h40 – Visitando o Museu Manoel Travessa
 
15h50  – Visitando o Instituto Popular Memorial de Canudos
 
16h10  – Mesa 6: Lançamento de Livros
               Aleilton Fonseca (mediação)
               Walnice Galvão
               Ádila Mandança
               Sergio Siqueira
               Pedro Vasconcelos
               Ester Figueiredo
               Sílvio Jessé
 
10/04 – SÁBADO – Noite
 
18h50   – Mesa 7: Entre arpejos e acordes: Uma leitura de O Capitão Jagunço
               Profa. M. Neuma M. Paes, UNEB
               Profa. Edil Silva Costa, UNEB  
 
19h20  – Museu João de Régis – Olhares e vertigens na memória
              Trípolli Gaudenzi
              José Aras (Por Lina Aras)
 
19h40   – Mesa 8: Cancioneiro popular e poético de Canudos
               Braúlio Tavares (poeta, PB)
               Franklim Martins (Jornalista, RJ)
              Josemar Martins Pinzoh (UNEB) – Mediador
 
20h30  – Mesa 9:“O Trabalho Criador de 100 Pessoas no Teat(r)o Oficina UzinaUzona de Os   
              Sertões de Euclides da Cunha in Canudos”     
              José Celso Martinez (Teatro Oficina, SP)
              Paulo Dourado – Mediador (BA)
 
21h30  – Show de encerramento: Viva Canudos! Viva Antônio Conselheiro!
               Fábio Paes (BA), Roze (BA) e Gereba (BA)

Fonte: Correio