Com Fiol, mais de R$ 500 milhões serão injetados na economia todo ano

Quando estiver em operação, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) vai adicionar à economia baiana entre R$ 500 e R$ 600 milhões em novos recursos, somente pela produção mineral. A concessão do primeiro trecho da obra vai transformar a logística da Bahia e vai ampliar a participação ferroviária na matriz de transportes do Brasil. O vencedor do certame ficará responsável por concluir os 25% finais da obra e operar o  trecho por 35 anos, totalizando R$ 3,3 bilhões de investimentos. 

Desse total, R$ 1,6 bilhão será utilizado para a conclusão das obras, que estão com 80% de execução. Além disso, a concessão vai permitir a criação de 55 mil empregos diretos, indiretos e efeito-renda ao longo da concessão.  O primeiro trecho da Oeste-Leste vai a leilão hoje, às 14h, na B3, em São Paulo. Até 2035, a expectativa é que o trecho alcance movimentação anual de 50 milhões de toneladas por ano. 

Para o vice-governador e secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), João Leão, destaca a união de esforços a favor do projeto. “Agora a Fiol vai rodar, nós vamos ver trem apitando ali na região, carregando minério, carregando soja, melhorando as condições de Ilhéus, Itabuna e todo o trecho de Jequié, todas as cidades do traçado, Caetité – que vai se transformar em uma grande cidade em função da mineração, além de Barreiras, um dos principais polos do agronegócio no estado”, destaca.

O presidente da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Antonio Carlos Tramm, considera a realização do leilão da Fiol como uma vitória para a Bahia. “A Bahia venceu e muita gente não tem ideia do que representa a Fiol para o desenvolvimento do nosso estado. Nós iremos nos tornar o terceiro estado do país em produção mineral”, acredita. 

Segundo o presidente da CBPM, isso vai represetnar entre R$ 500 a R$ 600 milhões por ano em dinheiro novo para a Bahia. “A Fiol é o desenvolvimento cruzando o estado saindo do extremo oeste até o litoral de Ilhéus”. 

Marcello Costa define a obra como o “sonho de uma década” e ressalta que os impactos do projeto ultrapassam os limites geográficos do estado. Para ele, as mudanças que foram realizadas no projeto, principalmente as dos últimos dois anos, foram fundamentais para tornar a concessão que será realizada amanhã mais competitiva. “O projeto da Fiol demonstra uma preocupação muito grande que temos com a qualidade das nossas modelagenes”, diz. Segundo ele, o projeto foi transformado para melhor, principalmente no que diz respeito à regulação, que reduz riscos no contrato. 

Um dos aspectos inovadores da concessão é a oferta de um valor fixo e outro variável a ser pago pela concessionária. “Só na área mineral, tem mais de 40 projetos e é difícil saber qual o percentual que será viável e que vai utilizar a ferrovia. Com a outorga mínima e variável, colocamos governo federal como sócio do projeto. Mitiga risco de saída”, acredita. 

O Governo Federal também trabalha nos projetos para concessão dos outros dois trechos da ferrovia, entre Caetité e Barreiras, com obras em andamento, e a Fiol 3, de Barreiras a Figueirópolis (TO) – que aguarda licença de instalação por parte do Ibama. O corredor de escoamento que terá um total de 1.527 quilômetros de trilhos, ligando o Porto Sul a Figueirópolis, onde a Fiol se conectará com a Ferrovia Norte-Sul e o restante do país. 

Marcello Costa explica que há dois cenários possíveis. No primeiro, apenas a Fiol 2, entre Caetité e Barreiras, será licitada no próximo ano. Mesmo com as dificuldades financeiras, o trecho tem R$ 430 milhões alocados no orçamento deste ano. E existe ainda um outro cenário, com a renovação da outorga da Fico e a antecipação da renovação de contrato da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), que viabilizariam também a licitação do terceiro trecho. “Neste segundo cenário, podemos modelar conclusão do trecho Fico-Fiol numa tacada só. Basta o estudo mostrar que isso é viável”, acredita. 

Porto Sul
O coordenador executivo de infraestrutura da Casa Civil do governo do estado, José Carlos Valle, destaca que a existem muitos projetos na área mineral prontos para operar e outros que serão viabilizados pela Fiol. “A Fiol já nasce com uma demanda cativa de quase 30%. Claro que com o surgimento da ferrovia e sua operação, outras demandas irão surgir de maneira natural. Com o Porto Sul, do mesmo modo. Tem um cliente cativo, que é a Bamin”, lembra. 

Valle acredita que dentro de três meses, prazo para a assinatura de contrato, entre 1,5 mil e 2 mil pessoas deverão estar trabalhando nas obras de conclusão do trecho 1 da ferro. Além disso, outros 900 empregos diretos devem ser gerados no pico das obras de implantação do Porto Sul, além de 1,5 mil indiretos. Atualmente, 280 empregos diretos são mantidos no local e, pelo menos outros 400 indiretos, estima. 

Segundo José Carlos Valle, o governo baiano atendeu uma recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU), para reservar uma área para a construção de um terminal portuário para a empresa que conquistar a concessão da Fiol no Porto Sul. “Reservamos mais de 122 mil metros quadrados, é uma área considerável para armazenamento e transporte de cargas para o porto”, destaca ele, lembrando que a recomendação é apenas para o caso em que uma empresa diferente da Bamin vença a licitação. “O TCU diz que se for outro operador, que tenha o mesmo direito de explorar uma área para a exploração portuária”, explica. 

Operação
A expectativa é a de que o trecho 1 (Ilhéus-Caetité) comece a operar em 2025. A maior parte das 50 milhões de toneladas previstas em 2035 será de minério de ferro. Mas entre as cargas também estão alimentos processados, cimento, combustíveis, soja em grão, farelo de soja, manufaturados, petroquímicos e outros minerais.

A operação inicial já deve contar com pelo menos 16 locomotivas e mais de 1,4 mil  vagões – pelo menos, 1.100 destinados ao escoamento do minério de ferro. O total de equipamentos deve crescer junto com o volume de cargas movimentado, chegando a 34 locomotivas e 2,6 mil vagões. Além de Ilhéus e Caetité, um terceiro pátio será instalado no município de Brumado. 

O primeiro trecho vai atravessar as cidades de Ilhéus, Uruçuca, Aureliano Leal, Ubaitaba, Gongogi, Itagibá, Itagi, Jequié, Manoel Vitorino, Mirante, Tanhaçu, Aracatu, Brumado, Livramento de Nossa Senhora, Lagoa Real, Rio do Antônio, Ibiassucê e Caetité.

Bamin deve arrematar 
Em 2011, os primeiros dormentes começavam a desenhar o caminho das locomotivas que devem impulsionar o desenvolvimento da Bahia pelas próximas décadas. Após dez anos de uma longa viagem, com algumas paradas inesperadas, a sigla Fiol começa a ganhar vida. O primeiro trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste vai a leilão amanhã, às 14h, na B3, em São Paulo. Até 2035, a expectativa é que o trecho alcance movimentação anual de 50 milhões de toneladas por ano. 

O vencedor do certame ficará responsável por concluir os 25% finais da obra e operar o  trecho por 35 anos, totalizando R$ 3,3 bilhões de investimentos. Desse total, R$ 1,6 bilhão será utilizado para a conclusão das obras, que estão com 80% de execução.  Além disso, a concessão da Oeste-Leste vai permitir a criação de 55 mil empregos diretos, indiretos e efeito-renda ao longo da concessão nos próximos anos. 

A disputa pelos primeiros 537 quilômetros do corredor logístico entre o litoral de Ilhéus, no Sul, e Caetité, no Sudoeste, acontece com a garantia de pelo menos uma empresa interessada. Mineradora com um projeto pronto para produzir quase 20 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, a Bamin é apontada como a grande favorita para arrematar o trecho 1 da Fiol. Alguns analistas de mercado acreditam que a mineradora pode ser a única participante do leilão. 

Além da Bamin, figuram como possíveis interessadas a VLI, controlada pela Vale e maior operadora ferroviária do país, e a Rumo Logística, outra grande empresa do setor. Procuradas, todas as três empresas optaram pelo silêncio em relação ao leilão. A VLI respondeu que “como grande player do setor, a VLI avalia todas as oportunidades, mas prefere não comentar antecipadamente sobre nenhuma em específico”. 

A Bamin é a dona do projeto Pedra de Ferro, que produzirá quase 20 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, em Caetité, no interior da Bahia. Com a Fiol, a empresa vai escoar sua produção até Ilhéus e enviar o produto para o mercado externo pelo Porto Sul, que está sendo construído por ela e o governo da Bahia.

Projeto amplo
Para o ministro da Infraestrutura, o interesse da Bamin na operação da ferrovia é natural. Porém, acrescenta, o minério de ferro deve ser apenas um dos tipos de cargas que serão movimentadas. “No caso da Fiol, teremos um sistema com mina, ferrovia e porto, que é um clássico. Geralmente, como  o minério de ferro está em alta e a gente tem uma mina importante, há um interesse por ter a conexão ferroviária. Obviamente, a ferrovia acaba sendo muito atrativa para quem é o dono da carga”, avaliou numa entrevista para a TV B3. “Mas é bom que se diga que é uma ferrovia de integração e este é o primeiro trecho”.

O ministro acredita que a ligação entre a Fiol e outros trechos de ferrovia, como a Norte-Sul, e a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), vai fomentar a movimentação de grãos e também de cargas gerais. “Será um grande corredor de integração, que vai cortar a Bahia e Tocantins até a Norte-Sul e a Fico. De fato, é um projeto estruturante e que vai induzir novas cargas”, avalia. 

O secretário nacional de Transportes Terrestres, Marcello Costa, diz que a viabilização do projeto é mais importante que uma grande disputa. Para ele, o fato de haver pelo menos uma empresa interessada no projeto já representa uma vitória. “Qual é o interesse da administração pública? Não é a outorga. Quanto mais competidores tiver, maior a outorga”, diz. “Mas é um benefício pequeno quando comparado à possibilidade de transmitir para a iniciativa privada a obrigação de investimentos de R$ 3 bilhões. Vamos antecipar a conclusão do projeto sem onegar o orçamento da união”, ressalta.

Ricardo Kawabe, gerente de estudos técnicos da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), acredita que o projeto integral da Fiol terá um grande impacto na economia brasileira. “Para a Bahia, este primeiro trecho já terá um impacto significativo. A ligação entre Caetité e Ilhéus já possui uma viabilidade econômica muito grande, com cargas disponíveis”, destaca Kawabe. “A gente aposta que isso vai dar um impulso grande para aquela região da Bahia”, projeta. 

Kawabe acredita que a conjuntura econômica não deverá ter grande impacto no resultado do leilão. “Felizmente quem atua neste mercado tem um olhar de longo prazo”, diz. 

Infra Week
Num ambiente de piora das condições econômicas e no meio da pandemia de covid-19, o governo marcou uma bateria de leilões de aeroportos, portos e ferrovia para esta semana, entre hoje e a próxima sexta-feira (dia 9). As ofertas da Infra Week (semana da infraestrutura) podem render até R$ 10 bilhões em novos investimentos. Porém, contando  outros leilões previstos para o mês, os investimentos podem ultrapassar os R$ 20 bilhões.

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, acredita que as concessões dos 22 aeroportos, cinco terminais portuários e o trecho da Fiol têm potencial para gerar 200 mil empregos diretos e indiretos. Ele projeta que todas as rodadas previstas para este ano devem permitir a geração de 2,9 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos. E afirmou ainda que o objetivo do governo é arrecadar somente R$ 642 milhões em outorgas com a Infra Week. 

O secretário nacional de Transportes Terrestres, Marcello Costa, acredita que o momento econômico não deve trazer prejuízos para as concessões. Ele cita como exemplo o caso da Fiol, cujo prazo do contrato é de 35 anos. “Por mais que tenhamos um problema mundial, são investimentos de longo prazo. No caso da Fiol, falamos de 35 anos.  Ultrapassam e muito período de uma crise mundial”, lembra.  “Lógico que crise faz priorizar investimentos, mas isso é oportunidade. Quem tem projeto bom sai na frente. Dinheiro continua lá, disponível para a aplicação”, destaca Costa. 

Marcello Costa acredita que um evento como a Infra Week fará o Brasil chamar a atenção de um tipo diferente de investidor. “Você começa a chamar atenção para investidores que não vem ao Brasil para um ativo. Eles começam a olhar para fundos de logística”, avalia. “Essas empresas olham uma carteira de projetos”. 
 

Fonte: Correio