Entenda por que os animais do Zoo de Salvador são indiferentes à falta de visitas

Em um espaço de mais de 900m², araras, flamingos e aves de rapina passam de um lado ao outro. Sobrevoam, se alimentam, bebem água. Dentro do Zoológico de Salvador, o aviário hospeda pássaros de mais de 40 espécies. Antes da pandemia da covid-19, o recinto tinha se tornado um dos preferidos dos visitantes graças à possibilidade de andar lá dentro sem nenhum tipo de separação entre as pessoas e o viveiro. 

Mas, quando o espaço foi fechado devido à covid-19, em março do ano passado, houve quem pensasse que, sem a interação com o público, alguns animais sentiriam falta; quem sabe até adoeceriam. Teve quem dissesse o contrário: agora, finalmente, os bichos teriam paz. Porém, um ano depois e ainda fechado, é seguro dizer que não é bem assim. Talvez seja difícil para alguns humanos aceitarem isso, mas, se os animais estiverem ‘sendo’ animais – ou seja, vivendo bem e em condições adequadas – tanto faz se há pessoas ali ou não. 

“Para eles, não faz diferença”, diz a bióloga Ana Celly Lima, que trabalha no Zoo há 14 anos. “Faz mais diferença para nós, os humanos, que tínhamos a interação com o público. As pessoas gostavam de perguntar, tirar dúvidas sobre os bichos. A educação ambiental tinha um trabalho intenso, principalmente na época de aulas”, explica. 

Na prática, a rotina diária continua a mesma. Os animais interagem com os tratadores, os únicos autorizados a entrar no zoológico. Segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), isso acontece porque, mesmo hoje, ainda há muitas incertezas sobre os riscos do Sars-cov-2, o da covid-19, entre os bichos. 

“A gente não sabe como vai afetá-los, porque tudo ainda é muito novo. Então, o que podemos fazer, como proteção, é o manejo o mais seguro possível, porque não tem como colocar máscara no animal, óculos, nem usar álcool em gel neles. A gente tem que se cuidar para cuidar deles”, pondera Ana Celly. 

Por isso, a reabertura de zoológicos ainda é um processo complicado ao redor do mundo. No Brasil, a maioria segue fechada. Em outros países, contudo, os parques têm enfrentado fechamentos e reaberturas de tempos em tempos, de acordo com o aumento ou a redução de casos de covid-19 em cada local.

Mesmo onde foram reabertos, há novas regras, como o uso de máscaras e a redução da capacidade de visitantes por hora, como recomenda a Waza, a associação mundial que representa zoológicos e aquários. Alguns espaços privados, cuja renda vem dos ingressos – ao contrário do Zoo de Salvador, que é gratuito e mantido pelo estado -, ainda têm enfrentado a possibilidade de fechar por completo, devido à queda na arrecadação com visitantes.

“Se você colocar num contingente de 145 milhões de pessoas infectadas por covid-19 no mundo, são raríssimos os casos em animais silvestres e todos são casos brandos. Mas tudo é muito desconhecido. O zoológico está fechado como uma precaução e está certo. Não é o momento de ninguém ir lá”, diz a médica veterinária Nadia Rossi, professora de virologia da Universidade Federal da Bahia e coordenadora do Laboratório de Viroses da instituição.

O aviário é um dos recintos do Zoo em que as pessoas podiam transitar sem nenhuma separação dos animais (Foto: Ascom Inema)

Bons recintos
No caso do Zoo de Salvador, só para dar uma ideia da normalidade no dia a dia, nem as taxas de reprodução – que podem ser um indicativo de que algo está fora do lugar – foram afetadas. A bióloga Ana Celly Lima trabalha justamente no berçário, o único setor que tem tratadores específicos 24 horas por dia. Responsável pelo turno do dia, ela cuida de mais de 100 animais ao lado de duas estagiárias. 

A cada duas horas, é preciso dar a mamada de alguns filhotes, como o tamanduá-mirim e o cachorro-do-mato. Em seguida, vem a papinha dos psitacídeos – os papagaios – e daí por diante. Todos os dias, os bichos recebem a visita de um médico veterinário, que vai tratar de quem estiver precisando de algo.  “É uma rotina que se renova. Depois, o tratador noturno chega para também trabalhar com o berçário e com os animais noturnos, como o macaco da noite”, diz. 

O primeiro passo para garantir essa normalidade em um zoológico é que a instituição saiba bem qual é o seu propósito. Se um parque é comprometido com a conservação de animais e com a educação ambiental, deve oferecer ambientes e recintos bem equipados, como explica o médico veterinário Gerson Norberto, membro da Comissão de Meio Ambiente e Animais Silvestres do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-BA). Os viveiros devem ter barreiras sanitárias, enriquecimento ambiental e uma composição que seja o mais próximo possível do natural daquela espécie. 

“Quando eu tenho um recinto desse tipo, o fato de ter ou não visitantes no zoológico não impacta em nada, porque não interessa ao animal. Independente de ter pessoas ou não, ele mantém o comportamento esperado para a espécie. Continua copulando, comendo, tendo todo o ciclo da vida dele”, explica Norberto. 

Já se os viveiros são áridos, pequenos e sem protocolos de segurança, a presença de pessoas no local pode alterar o comportamento animal, segundo ele. “Esses animais, sim, podem estranhar um pouco a ausência de pessoas na pandemia. Alguns podem inclusive mudar algum hábito de comportamento. Teve um zoológico de Londres que anunciou que estava treinando os animais para estarem prontos para voltar a receber visitantes. Se isso acontece, é porque estou assumindo que tenho um recinto muito pequeno, muito exposto ou não enriquecido o suficiente”, diz. 

Covid-19
Mas tanta preocupação com a covid-19 é explicada pelas incógnitas que ainda existem quanto à doença. Entre as poucas ocorrências em zoológicos, os casos documentados são de tratadores assintomáticos que infectaram os animais. Os sintomas foram leves, como se os bichos estivessem gripados, e todos se recuperaram. 

“Mas ninguém provou que eles transmitem o vírus pra humanos”, reforça a médica veterinária Nadia Rossi, da Ufba. No ano passado, algumas entidades de proteção animal chegaram a documentar o aumento de abandono dos bichos domésticos, pelo medo da pandemia, mesmo sem evidências do risco para humanos. 

No entanto, nos zoológicos, há outras preocupações. Os locais costumam abrigar muitos animais ameaçados de extinção. “Imagina se um animal desses adoece e vem a óbito? Poderia ter uma extinção da espécie. Só que é muito difícil. Já é difícil eles se infectarem e os poucos que se infectam desenvolvem doença branda. Mas a gente tem que ter o bom senso de proteger esses animais, pelo pouco que se sabe do coronavírus”, diz.  

Os primeiros estudos indicam que algumas espécies são mais suscetíveis ao vírus da covid-19. Os visons, mamíferos pequenos que habitam países como a Dinamarca e a Suécia, estão provavelmente entre os mais suscetíveis. É comum que, nesses países, existam grandes criações de visons para a produção de pele e até de cílios falsos. No ano passado, milhares de criadouros registraram surtos do Sars-cov-2. Como medida de precaução, a Dinamarca chegou a determinar o abate de mais de 17 milhões desses animais.

“Os estudos genéticos mostram que algumas espécies têm o receptor de entrada do coronavírus – o ACE2 – muito próximo, geneticamente, do receptor do humano. Os felinos têm o receptor um pouco mais semelhante do que os cães, os visons têm. Quanto mais semelhante, mais fácil penetrar na célula”, explica a professora. 

Essas mutações de uma espécie para outra acontecem principalmente pela proximidade dos humanos com os animais silvestres hoje, especialmente com o manejo irresponsável. Animais já podiam ser infectados por tipos específicos de coronavírus para cada espécie e o Sars-cov-2, inclusive, tem suas origens ligadas a um coronavírus de morcego – ou seja, é uma zoonose. 

“Os vírus podem adquirir a capacidade de infectar humanos por meio de um processo mais comum do que se imagina conhecido como spillover, que é uma mudança na dinâmica de uma doença.  Quanto mais contato entre o ser humano e os animais silvestres, maior será a exposição a outros agentes infecciosos que circulam neles, aumentando o risco de spillover”, afirma a médica veterinária Miriam Rebouças, professora da UniFTC e doutora em Biotecnologia. 

Ainda que existam evidências, não é possível afirmar que o consumo de animais silvestres provocou a pandemia. “O que sabemos é que o spillover de patógenos de animais para humanos indicam que, sem mudanças no comportamento humano, epidemias virais poderão se tornar mais comuns e intensas’, completa Miriam.

Já existem até vacinas para animais sendo estudadas. Em fevereiro, um grupo de gorilas do zoológico de San Diego, na Califórnia, recebeu doses de uma vacina experimental. Já no fim de março, a Rússia anunciou o registro do primeiro imunizante para animais contra a covid-19, a Carnivac-Cov.

Domésticos
Mesmo em casos de animais domésticos, como cães e gatos, é preciso adotar alguns cuidados, se o tutor ou a tutora estiverem com suspeita ou confirmação de covid-19. O isolamento de 14 dias também deve ser estendido aos animais. 

Assim como os animais silvestres, cães e gatos também podem se infectar pelo vírus. As notificações, contudo, também são de quadros brandos e sem mortes. 

Por isso, a orientação dos veterinários é de que outra pessoa da família assuma as responsabilidades do animal por aquele período – como os passeios e a alimentação. Se a pessoa mora sozinha, pode recorrer tanto a um hotel para cães e gatos quanto à ajuda de um vizinho para os passeios. 

“Se a pessoa não tem nenhuma ajuda, nem tem condições financeiras de buscar um hotel, ela mesma pode cuidar do animal, com a troca de comida e a limpeza. Mas não deve ficar pegando no colo, beijando”, orienta a professora Nadia Rossi, da Ufba.

Fonte: Correio