Existe amor na pandemia: conheça histórias de quem arrumou namoro em meio à covid

Já dava bem um mês de papo vai, papo vem e a estudante Larissa Lago, 25, ainda estava na dúvida se era mesmo uma boa ideia encontrar com o advogado Kaick Oliveira, 26. A combinação de sentimentos — ela ansiosa e ele carente — havia levado os dois ao mesmo lugar: um aplicativo de relacionamento. O problema era que o cenário pandêmico não era nada favorável para se viver um romance. 

A hesitação de Larissa era pertinente. Mas, ao mesmo tempo, as conversas diárias faziam crescer neles uma paixonite e já era insustentável não estar junto. Foi então que Kaick deu um jeito e a moça não teve para onde correr. No afã de vê-la em meio aos riscos, o advogado providenciou logo algo que terminou sendo a primeira prova de amor: um teste com resultado negativo de covid-19. “Aí eu falei: ‘Ah, então agora vai’. Achei lindo isso de ele ter feito o teste para me ver”, lembra ela.

Se parecia impossível arrumar alguém nestes tempos de pouco contato físico, solteiros dispostos têm provado que Roupa Nova estava certa: para o amor, não existem fronteiras. Para todo lado, há pessoas que driblaram o cenário e encontraram possibilidades de amar. Há casais se formando por aí, reinventando formas e fórmulas de afetividade e já tem gente até comemorando bodas.

Em junho do ano passado, no exato dia de São João, quando, por fim, rolou o primeiro encontro de Larissa e Kaick, eles ficaram envergonhados ao se conhecerem pessoalmente na casa dela. É que não foi assim tão simples levar um quase estranho direto para dentro da sala. Dicas clássicas de segurança pedem que se evite mostrar o local onde mora para desconhecidos, mas a pandemia de certa forma subverteu essa lógica e tornou o lar um do outro justamente um dos locais mais seguros para se ver. 

“Não queríamos marcar na rua porque estava no começo da pandemia”, conta a estudante de Pedagogia. Não fosse pela doença no ar, teriam marcado de ‘tomar uma’ num barzinho. “A gente passou a se ver mais e mais. Em novembro, fomos informados por uma amiga de Lari que estávamos namorando e, desde então, estamos oficialmente namorando”, ri Kaick. “Vendo o que aconteceu com outras pessoas, eu já tinha essa ideia de que a pandemia catalisa tudo, tanto para se juntar quanto para separar”, comenta ele.

Na avaliação do casal, o momento mundial gerou perdas e ganhos para o desenvolvimento do relacionamento. Se, por um lado, eles tiveram mais tempo para se dedicar um ao outro; por outro, não deu para sair para programações como conhecer novos lugares e nem passear com amigos. 

Para a maioria dos casais ouvidos para esta matéria, houve muito investimento em tempo de conversa para se conquistar a confiança, e mesmo para entender a rotina do outro e saber o grau de isolamento. No fim das contas, para todo mundo, a pior parte talvez tenha sido não poder apresentar e submeter o amado e a amada à aprovação presencial dos amigos.

Pedido para o santo e fila da vacina

Carlos e Maria de bike na fila da vacina (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Solteira de longa data e frequentadora das missas da Igreja do Bonfim, a comerciante Maria do Carmo, 57, tinha por hábito pedir ao Nosso Senhor um marido. “Mas, minha mãe, tanta coisa para pedir e a senhora pede um marido?”, cismava a filha. Maria queria ter uma boa companhia para sair e dançar nas serestas. A pandemia estava no início, ali ainda por volta de março, quando uma fiel cliente dela lhe disse: “Meu pai é viúvo, tu não quer conhecer ele não?”. 

A filha disse que eles combinavam e passou o telefone recomendando que Maria puxasse conversa no WhatsApp. Ao adicionar o contato, soube que o nome dele era Carlos Bonfim e teve certeza de que esse era o homem enviado pelo santo, era a graça divina sendo alcançada. Mas tinha, além da pandemia, outro problema: Seu Carlos mora em Cruz das Almas e ela em Salvador. Os dois iam levando bem um mês de bate-papo e todo mundo aconselhava que não era uma boa ideia eles se encontrarem. 

“O pessoal me metia um medo dizendo ‘não vá que o bicho tá pegando lá, tá morrendo muita gente’”, lembra o aposentado de 63 anos. Mesmo com os sábios conselhos, Carlos já estava apaixonado, deu a doida e quebrou o isolamento. Fez uma surpresa para a amada e veio parar em Salvador.

“Eu ficava pensando: ‘E se mesmo se eu ficar aqui eu morrer e não conhecer ela?’ Ela se agradou de mim e eu dela. Então, eu criei coragem e fui. Quando cheguei na casa dela, ela tinha acabado de voltar do banco com a filha. Eu subi a escadinha e ela ficou me olhando assim, rindo, desconcertada, mas alegre”, recorda ele.

Antes de ele subir para o primeiro encontro pessoal, a filha de Maria a cutucou com um ‘vish’, pirraçando-a dizendo que ele tinha cara de ser banguelo. “Ainda bem que quando ele tirou a máscara, vi que ele não era banguelo, tava tudo certo!”, gargalha a comerciante. “Ele me chamava de meu amor, de minha linda, me tratava muito bem e era muito dedicado. Não era como uns caras de pau que se acha em aplicativos. Tinha gostado mesmo e queria conhecer pessoalmente. Agora ele vive dizendo que arranjou a tampa da panela”, completa.

O casal já completou um ano e não desgruda, não leva duas semanas sem se ver. A prova disso foi documentada antes, em outra matéria do CORREIO, quando os pombinhos foram fotografados juntos de bicicleta na fila da vacina no Centro de Convenções. Ainda não chegou a vez de Maria ser imunizada, mas foi para filmar a vitória do companheiro. “Vim para fazer o vídeo dele, é um momento de muita alegria”, disse ela na ocasião. 

“A gente ficou mais em casa, não pudemos ir visitar as famílias de cada um. Eu falo com os filhos dele por vídeo e zap. Não tem sido fácil, mas acho que se ficarmos com medo demais, a gente não vive e sinto que nós estamos aproveitando o que resta das nossas vidas”, conta a comerciante. “E é isso, graças a Deus, estamos juntos até hoje e eu não tenho a intenção de deixar”, resume Carlos.

Chofer, bar em casa e receita na portaria
Eles não lembram exatamente como se encontraram na internet. Um dia, um suposto clique do destino levou Rafael Ávila, 27, ao perfil de Ana Maria Pinchemel, 20. Na cara dura, ele a seguiu na rede social, tratando de cumprir o protocolo de curtir três fotos seguidas para dar o sinal de interesse e, para a sorte dele, a moça seguiu de volta. Nessa época, Ana levava a quarentena numa boa, sem pretensões de envolvimento e não vinha dando muita bola. Mas eis que um dia se viu virando a madrugada conversando durante 8h ao telefone com o rapaz que insistia em conhecê-la melhor.

Daí em diante, não largaram mais e foram ao menos três meses de falatório por mensagem e ligação, jogando baralho online e Gartic com amigos e assistindo filmes simultaneamente cada um na sua casa. Empenhado, Rafael ainda garantiu o afeto da moça conquistando ela pelo bucho. Deixou na portaria do prédio de Ana pudim e torta de limão feitos por ele. Ai, pronto, a gata constatou que não suportaria mais esperar a poeira da pandemia baixar para ver Rafael. “Bora furar a quarentena”, escreveu para ele.

O primeiro encontro de Ana Pinchemel e Rafael, o Bob, foi no bar que ele fez dentro de casa (Foto: Acervo do casal)

Começaram, então, a montar um efetivo esquema de segurança com um isolamento de 15 dias ainda mais rigoroso do que já cumpriam, sem contato com outras pessoas e evitando sair até mesmo para o supermercado. Os dois tinham certeza de que queriam beber algo no primeiro encontro. Como Ana não podia voltar dirigindo sob efeito de álcool e vinha evitando pegar Uber para não se expor ao vírus, Rafael foi buscá-la e mobilizou um amigo bem isolado para ser o chofer da amada na volta. Não bastasse isso, o cara ainda construiu um bar dentro de casa.

“Como eu não podia ir pro bar, fiz um”, ri ele.“Nos encontramos pela primeira vez lá em casa e foi muito estranho. Dei aquela arrumada que esfreguei até as paredes. Para Ana ir, eu tive que convencer minha mãe a deixar, ela ficou preocupada e falava ‘Ah, é uma pessoa que você não conhece, trazer para casa assim’. E eu fiquei justificando que eu e Ana tínhamos amigos em comum, que já a conhecia e conversávamos há três meses”, conta Rafael. 

No dia do encontro, Ana lembra de ter ficado “morrendo de vergonha porque os pais dele estavam lá”. Como o imóvel é bem decorado, a saída para a pobre moça tímida foi ficar olhando os objetos. 

Da cachaça de rua ao café na mesa
Depois do carnaval passado, o arte educador Geovane Corrêa, 25, poderia nunca mais ter visto sua atual namorada, também chamada Ana. Os dois se conheceram quando ela, já cansada de rodar os isopores da festa atrás de uma bebida destilada, parou para reclamar que só se achava cerveja naquela zorra. “Eu tinha uma cachaça muito boa e ofereci, assim do nada. Rimos muito, conversamos, mas não ficamos e logo depois veio a pandemia”, diz ele. Como Cinderella, Ana foi embora, sumiu no meio da folia e na memória dele ficou não o saltinho de cristal, mas sim o copinho de plástico dela.

Por obra dos algoritmos, se encontraram mais tarde no Tinder e voltaram a conversar. Já estavam cheios de vontade de se ver, um belo dia, os dois foram obrigados a quebrar a quarentena por conta de seus trabalhos. Decidiram, então, quarentenar juntos em um apartamento alugado. “A gente acordou, tomamos um cafézinho e ela me pediu em namoro. Chorei igual uma criança falando SIM!”, brinca ele, que está no relacionamento sério desde dezembro. 

Geovane diz que as condições impostas pelo cenário fez com que o namoro passasse mais pelo sentido da audição, pelas conversas ao telefone. “Para você ter ideia, a pandemia ressignificou até os presentes. No aniversário de um mês de namoro, ela me presenteou com uma playlist. Nosso amor é sonoro”, diz.

A música tema do casal (Sossego, de Rachel Reis) tem versos que revelam como viver um amor pode ter tirado as pessoas do desânimo para um completo estado de euforia, fazendo com que elas não tenham vivido dias tão lentos e nem tão iguais no isolamento graças ao entusiasmo da nova companhia. “Enquanto as coisas vão mal, eu vou pensando na gente”, diz a letra da canção. 

Geovane e Ana: do Carnaval ao quintal (Foto: Acervo pessoal do casal)

Casal de médicos: entre Bahia e Goiás
Desde 2019, César disputava a atenção de Humberto com conversas e elogios pelo Twitter. Por um bom tempo, eles ficaram num clima fuleiro de papos ocasionais. Baiano, Beto dava pouca bola ao rapaz, que morava em Goiás. Mas eis que chegou a pandemia, o tempo de uso das redes sociais aumentou, a carência bateu e o jogo virou. Beto decidiu visitar a terra do goiano. “Ele fez uma brincadeira dizendo que ia para Goiânia, eu falei: ‘pois venha’ e ele pegou e veio mesmo”, ri César.

Chegando no aeroporto, um desconforto. Era outubro, a pandemia vinha dando sinais de que a situação estava se aliviando, mas não podiam dispensar máscaras. Se viram pela primeira vez no saguão, sem poder abraçar nem beijar. As expressões tiveram que ser deduzidas pelos olhos. “Foi aquela super vontade de beijar sem poder. A gente só se olhou”, lembra Beto. Depois, sozinhos no carro, o carinho foi liberado.

“A gente não teve receio de se ver. Nós dois já estávamos trabalhando em hospitais e ele, inclusive, estava na linha de frente da covid-19. Então, não foi algo que tememos. Tivemos o cuidado de manter a máscara no aeroporto e tirar apenas quando estivéssemos só nós dois”, conta o goiano.

De lá para cá, o casal tem vivido na ponte aérea, viajando para se ver sempre que há uma folga. Como em qualquer relacionamento, a distância é um fator difícil, mas ambos afirmam que têm levado numa boa. 

“A gente sempre usou o WhatsApp, ligação por vídeo, antes mesmo de nos conhecermos pessoalmente e seguimos assim. Eu gosto da distância porque apimenta, dá saudade, a gente fica vibrando pela chegada. Eu fico sempre subindo pelas paredes e quando chega é festa. O prazer na pandemia não mudou muita coisa para mim. O medo da covid-19 não conseguiu abalar o tesão, não. Não pensamos nisso, é como se não tivesse atrapalhado”, diz Beto.

“Pandemia pode ter deixado pessoas propensas a se relacionar”
Como a recomendação de isolamento provocou um agravamento da solidão pelo mundo, indivíduos solteiros tiveram mais dificuldades de ter com quem compartilhar as ansiedades e angústias desse processo, o que pode tê-los deixado mais propensos a buscar companhia, acredita a psicóloga clínica Maria Eugênia Glustak, da Holiste. 

Escritora do livro “Amor Sustentável” (Sextante, 2018), a psicanalista Lígia Guerra notou, ao menos, quatro movimentos: teve quem preferiu se isolar de verdade tirando uma espécie de “ano sabático de relacionamentos”, gente que acentuou o uso de aplicativos para busca de parceiros devido à carência e maior disponibilidade de tempo, pessoas que voltaram para relacionamentos antigos e teve ainda uma galera que se manteve no oba-oba, frequentando festas clandestinas para azaração. 

A profissional avalia que as plataformas digitais reforçaram a característica de aparente segurança, já que os usuários primeiro se conhecem virtualmente e, só depois, se acharem que valem muito a pena, vão para o presencial. Mas essa tal segurança talvez não se efetive porque, ao decidir se encontrar, as pessoas terminam escolhendo os riscos de se expor ao vírus.

“Acaba sendo uma questão de ou eu me arrisco ou eu não me relaciono. Para esses indivíduos, chega em um momento em que não é mais possível escolher. Claro, é preciso redobrar os cuidados porque, se já era difícil conhecer pessoas estranhas antes da pandemia, agora ficou ainda mais”, analisa. 

Além dos parques, praias e demais espaços abertos, Lígia observa que, ao contrário de antes, as pessoas têm usado muito mais as suas casas como espaço social. “De um jeito ou de outro, é nesse lugar onde têm a liberdade de escolher estar com máscara ou não, e até de dar uns amassos maiores ou não”.

Embora sejamos seres sociais e muitos de nós tenhamos a necessidade do toque, da presença física, o mundo digital há muito vem permitindo novas formas de se relacionar e Glustak nota que a necessidade da presença pode não ser tão determinante para alguns casais. Há relações que se sustentam virtualmente por meses e até anos. Claro, em algum momento essas relações terão que passar para a vida real, e é a partir daí que se conhece aspectos que haviam sido escondidos pela vida editada na internet.

Mestre em psicologia social e professor da UniFTC, Valter da Mata aponta que, com os smartphones, chamadas de vídeo e fotos nudes imitam uma sensação de proximidade. Tudo isso diminui a necessidade do contato mais íntimo, no sentido físico, porque permite auto-satisfações como masturbação, por exemplo. “É uma mudança dos costumes que não veio com a pandemia, mas que foi catalisada por ela, acelerada. Quando nos fechamos em nossas portas, abre-se uma janela gigantesca no mundo virtual”, completa Da Mata.

O psicólogo justifica que, antes, esses comportamentos não se davam pelo sentimento da falta, mas pela aquisição de uma nova linguagem relacional. É como se, para ser moderno, você precisasse enviar nudes para o parceiro. “Agora não é mais por um modismo, é pela falta de contato”, acredita ele.

Fonte: Correio