Atraso na distribuição de vacinas preocupa municípios baianos

A Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS) informou nesta segunda-feira (26) que possui vacinas CoronaVac para a segunda dose em estoque somente suficientes até quinta-feira (29). A informação ocorre no mesmo dia em que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou ao Senado que o país está sofrendo com a falta de imunizantes desenvolvidos pela farmacêutica chinesa SinoVac e produzidos no Brasil pelo Instituto Butantan.

De acordo com a SMS, a capital aguarda recebimento de novo lote de segundas doses para garantir a administração das duas aplicações exigidas para garantir a eficácia da vacina contra o coronavírus. Já sobre o imunizante da AstraZeneca, o estoque de segundas doses está assegurado até o dia 7 de maio.

Ainda nesta segunda-feira, a prefeitura de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, suspendeu a vacinação da primeira dose contra a covid-19, por conta da quantidade insuficiente de doses do imunizante. Até a chegada de uma nova remessa de vacinas, ainda sem previsão por parte do Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde do Estado, estará ocorrendo apenas a aplicação da segunda dose contra o novo coronavírus.

Na cidade de Juazeiro, localizada a 504 km de Salvador, a situação é semelhante. De acordo com a Secretaria de Saúde do Município, não há doses suficientes para o resultado efetivo da fase 1 da aplicação. Ainda segundo o órgão, a vacinação seria muito mais eficaz caso houvesse uma maior distribuição dos imunizantes.

“As vacinas chegam em pequenas quantidades com público determinado e sem aviso prévio de quantas doses serão entregues. Essa semana recebemos apenas 85 doses para os trabalhadores da educação, quando somente na rede municipal temos cerca de 3.500 profissionais. A primeira dose já foi suspensa pelo menos três vezes por falta de vacina, chegando a ficar até quatro dias sem vacinação”, diz a pasta.

Em Itabuna, a 426 km da capital, a situação é semelhante. “A gente não tem a CoronaVac para a primeira dose. Só estamos trabalhando com a da AstraZeneca. Em relação à segunda dose, o governo federal não tem cumprido seu papel da melhor forma, nos deixando expostos e vulneráveis”, afirma a enfermeira Camila Brito, coordenadora da Rede de Frio de Imunização da Secretaria de Saúde do município.

“Recebemos da última vez 2.500 doses, ainda não terminaremos a faixa de 60 anos em diante. Alguns de salvamento e segurança de 45 a 49 anos já foram vacinados, mas só poderemos avançar para outros, professores e comorbidades, quando finalizar os idosos. As segundas doses vêm sendo enviadas pela Sesab sem maiores problemas, pois alguns não estão comparecendo para receber a segunda, infelizmente”, complementa Lívia Mendes, secretária de Saúde de Itabuna. 

No sudoeste baiano, o município de Jequié ainda tem em estoque doses suficientes do imunizante produzido pelo Instituto Butantan para aplicar a primeira dose nos grupos prioritários, no entanto, a secretaria de saúde local afirma que o quantitativo que estão recebendo do Ministério da Saúde é limitado em comparação ao quantitativo de pessoas que precisam ser vacinadas.

O município de Teixeira de Freitas, no extremo-sul do estado, vive situação brevemente diferente, ainda tendo vacinas CoronaVac em seus estoques, no entanto, a quantidade de doses disponíveis não é alta. O CORREIO também entrou em contato com as prefeituras e secretarias de saúde de Feira de Santana, Lauro de Freitas e Ilhéus, porém não recebeu resposta sobre a situação das vacinas até o fechamento desta reportagem.

Especialistas alegam riscos
Com a situação do atraso das vacinas no Brasil, médicos infectologistas apresentam preocupação com a possibilidade da não aplicação da segunda dose no tempo correto. A demora, inclusive, poderia causar até mesmo uma nova forma do coronavírus, mais resistente aos imunizantes e consequentemente mais perigosa à população.

“As consequências das pessoas não receberem as duas doses são trágicas. As vacinas foram programadas para serem aplicadas em duas doses, sendo aplicada uma só, não garante coisa nenhuma. A pessoa vacinada apenas com uma dose pode, inclusive, ser transmissora de uma forma de vírus mais forte e mais resistente. Caso haja um grande atraso, minha orientação é que se reinicie o processo de imunização do início, ou seja, mais duas doses”, sustenta o professor Celso Sant’Anna, médico imunologista e docente da Rede UniFTC.

“As duas vacinas que estão disponíveis no Brasil [CoronaVac e AstraZeneca] precisam de duas doses para terem sua eficácia completa. Apenas uma dose pode dar uma certa imunidade, mas ela é insuficiente para proteger o indivíduo. Não podemos prescindir da segunda dose. É necessário que a vacinação seja completa de acordo com as recomendações feitas”, afirma a infectologista Fernanda Grassi, da Rede Covida.

“Ainda não sabemos o tempo exato que é aceitável um atraso. A CoronaVac tem uma melhor eficácia quando a segunda dose é aplicada 28 dias após a primeira. Podemos imaginar que uma ou duas semanas não tenha efeitos tão grandes, mas mais que isso, não podemos garantir que a segunda resposta será ótima”, finaliza.

*Com orientação da subeditora Fernanda Varela

Fonte: Correio