Mesmo com padres infectados, fiéis não desistem de missas 

Fé acima de tudo e Deus acima de todos – até do receio frente a pandemia do novo coronavírus. Isso é o que defendem alguns dos fiéis que frequentam paróquias e igrejas de Salvador onde os padres foram infectados. De 248 no total, sete estão infectados pela covid-19, segundo a Arquidiocese de Salvador: quatro padres, um diácono, o Arcebispo e um bispo auxiliar. Desde o início da pandemia, 12 padres já contraíram o vírus.  

Em todas as quatro igrejas que a reportagem circulou na manhã deste domingo (30), não foram observadas irregularidades com os protocolos sanitários. Mesmo com esse cenário de contaminação entre os responsáveis pelos espaços sagrados, os fiéis não deixaram de ir às missas. O medo pode até existir, mas a vontade de rezar fala mais alto. É o caso da auxiliar de serviços gerais Maria de Lurdes de Jesus, 56, que frequenta a Igreja Nossa Senhora da Salete, em Pernambués.  

“A gente tem medo e receio, mas sempre tenho cuidado. Venho dia de quinta-feira e domingo e, se tiver cheio, não entro, fico aqui fora”, conta Maria, que assistia à missa de 7h fora da igreja. Ela faz parte do coral, assim como o filho. Os dois sempre vão juntos.  

Maria de Lurdes de Jesus assiste à missa do lado de fora da igreja quando há muitos fiéis (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Frequentadora de igreja há 30 anos, a única coisa que mudou do início da pandemia para cá, além da adoção dos protocolos sanitários, foi a frequência. Antes, Maria vinha nas quatro missas realizadas durante a semana. Hoje, vem duas vezes. Ela já teve covid-19, mas, como foi assintomática, só descobriu que pegou depois, quando fez o exame para saber se tinha anticorpos em abril de 2020.  

Jirlene Conceição, 58, era uma das devotas voluntárias para conferir os nomes dos fiéis que tinham reservado horário. O agendamento é feito por telefone e, sem o nome na lista, não é possível entrar, só se houver desistências. A temperatura também é aferida na entrada.  

“Com receio a gente fica né, mas está tendo espaçamento e já fui vacinada, porque sou agente de saúde”, explica Jirlene. Ela também já foi infectada pelo novo coronavírus, em junho do ano passado, e não teve sintomas. Há mais de 30 anos que ela comparece às igrejas do bairro, por ser perto de casa.  

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O diácono Raimundo Valverde, da Paróquia São Francisco de Assis, a qual pertence a Igreja Nossa Senhora de Salete, está internado no Hospital da Bahia desde 26 de maio. Segundo informações da esposa, ele está sem febre e chegou a precisar de máscara de oxigênio. No último sábado (29), seria feita uma tomografia, porém, como o hospital estava muito cheio, foi preciso remarcar. Ele faz fisioterapia para os pulmões e recebe medicamentos por via oral.  

Jirlene é voluntária da igreja e confere os nomes dos fiéis que estão na lista para poderem participar das missas (Foto: Nara Gentil/CORREIO) 

Enquanto isso, o padre Jonathan de Jesus, 29, dá prosseguimento às celebrações como a deste domingo. “Nossa comunidade tem capacidade para 300 pessoas sentadas e, com a redução de 30%, temos em média 75 pessoas por missa. Nenhum fiel desistiu de vir, o fluxo está normal porque tomamos os devidos cuidados como o nome na lista, a higienização das mãos, a obrigatoriedade da máscara, com as celebrações mais rápidas e enxutas. Foram as adaptações que pudemos fazer para não deixar parado o sistema e não deixar de dar assistência aos fiéis”, conta o padre.  

Jonathan foi um dos 12 padres que já pegou covid-19 em Salvador, no início da primeira onda. “Não tenho mais receio e sim cautela”, pontua. As missas, que tinham até uma hora e meia de duração, passaram a ter no máximo 60 minutos, com transmissão pelo Youtube para que mais gente tenha possibilidade de acompanhar. Nas comunidades menores, nas quais não há capacidade de espaço, as missas são quinzenais, ao invés de toda semana.  

Na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Acupe de Brotas, o pároco Valter Ruy está com covid-19 desde quinta-feira (27). É a segunda vez que ele se infecta pelo vírus esse ano. Da primeira, ele foi assintomático, porém, agora sente dores no corpo, cansaço, febre e tosse. Ele está em casa, sendo monitorado por uma médica e ficará isolado até se curar da doença.  

Segundo ele, houve receio dos fiéis em frequentarem a igreja, mas isso foi no início da reabertura dos templos religiosos. “Na pandemia, o povo ficou logo com medo, mas, depois que começaram a ver que aqui o critério é muito grande, ficaram tranquilos. Temos profissionais da área da saúde, que dão assistência ao protocolo. Agora, deve ter um ou outro que deve ficar com medo, mas, em linhas gerais, não”, avalia.  

“Acredito que a igreja católica consegue entrar em comunhão com os órgãos sanitários e estamos tomando muito critério. O próprio Arcebispo pede muita fidelidade ao protocolo”, completa. O padre está sem sintomas graves, isolado em casa, acompanhado por dois profissionais de saúde. As missas na paróquia continuam com a mesma frequência, quatro por semana. A quantidade de pessoas, antes de até 270, agora é de 50. Só sentam no mesmo banco aqueles que são da mesma família.  

O comissário de bordo, Bruno Araújo, 30, que frequenta a paróquia do Acupe de Brotas, se sente seguro com as medidas restritivas aplicadas. “Me sinto muito seguro porque existe o distanciamento, tem o álcool em gel a todo o tempo na mão dos fiéis e não tem aglomeração. Venho praticamente todos os dias”, confessa Araújo. Ele cuida da transmissão do Youtube, que passou a ter em todas as celebrações. 

A médica Rosana Souza passou a comparecer há três anos na igreja, após incentivo do marido. Ela ajuda na aplicação do protocolo. “Temos todo o cuidado e orientamos que a pessoa não venha se tiver apresentado sintomas. Além disso, após as celebrações, a gente precisa ter 30 minutos de intervalo entre uma e outra, para fazer a sanitização”, assegura Rosana.  

Na Igreja Santa Luzia, no Pilar, em que o padre Renato Minho está internado por covid-19, a funcionária pública Diva Vieira, 42, teve um pouco de receio. Ela é espírita e ficou dois finais de semana sem ir à igreja. Ela passou a frequentar assiduamente durante a pandemia, a partir de dezembro de 2020.  

“A Igreja Santa Luzia sempre dá a possibilidade de a gente ficar do lado de fora, que é o que priorizo. Fiquei dois finais de semana sem vir, mas sempre tive as precauções. O cuidado agora é redobrado, por isso, uso duas máscaras”, conta Diva, acompanhada da mãe, que veio de Feira de Santana, cidade a 100 km de Salvador. 

O padre Renato está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), no Hospital Couto Maia, referência no Brasil no tratamento de doenças infecciosas. Ele sobrevive com máscara de oxigênio e tem previsão de alta para a enfermaria até terça-feira (1), segundo informações da irmã.  

Já o empresário Abel Rodrigues, 64, não vê problemas. “Sempre venho aqui, há cinco anos, e me sinto tranquilo. Desde criança sou católico e não deixei de frequentar por conta da contaminação. Me sinto seguro”, relata.  

Uma das voluntárias que ajuda a coordenar a igreja, Mariana Assis, 44, afirma que, após saberem que o padre foi infectado, o local passou por desinfecção. “O pessoal da prefeitura veio e desinfetou o complexo todo, inclusive algumas casas do entorno. Ela ficou fechada por uns três dias até voltarmos a ter missa”, revela Mariana, que é professora. 

Desde então, nenhum funcionário foi contaminado ou apresentou sintomas da covid-19. Ela não percebeu receio dos fiéis. “Quem não está vindo, é quem já não vinha antes, como o grupo que prefere acompanhar pela internet. Mas, ninguém deixou de vir depois de padre Renato se contaminar. Ele sempre pede para que as pessoas com saúde mais frágil e não estão vacinadas não virem”, conclui.  

Desde o dia 11 de maio, quando Salvador entrou na fase amarela do plano de retomada pós-pandemia, os templos religiosos estão autorizados a funcionar sem limite de horário, todos os dias da semana. Em março de 2020, o governo estadual e a Prefeitura de Salvador chegaram a limitar a 50 pessoas o público para eventos e reuniões religiosas.  

Em julho, ao anunciar a primeira fase da reabertura, a gestão municipal determinou que a ocupação seria de até 50 pessoas por culto ou 20% da capacidade máxima do salão de celebração, obedecido o número que fosse maior. Em outubro, esse limite foi ampliado para 200 pessoas por culto ou 30% da capacidade do espaço – novamente o que fosse maior. 

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro 

Fonte: Correio