Morre Mãe Cotinha de Oxalá, Agbá Lagba do terreiro Ilê Axé Oxumarê

A anciã das anciãs do terreiro Ilê Axé Oxumarê, localizado no bairro da Federação, faleceu nesta segunda-feira (7), aos 99 anos, vítima de um infarto. A Agbá Lagba Maria Isabel Pereira Vargas, mais conhecida como Mãe Cotinha de Oxalá, não era somente a mulher mais velha de um dos mais antigos e mais tradicionais terreiros do mundo, ela era, também, a portadora de um conhecimento inestimável que agora deixa de ser acessado pelos devotos do candomblé. 

“Cada partida de um ancião aqui dentro é traduzida como uma grande biblioteca sendo incinerada. É uma perda não só do indivíduo, mas, infelizmente, da religião que ainda é muito baseada na tradição oral. O conhecimento vai com ela. Grande parte pôde ser transmitido para muitos e muitas, mas não está mais acessível para os mais jovens”, avalia Célia Santos, a Ekedi Cida de Nanã. 

Mãe Cotinha faleceu vítima de um infarto (Foto: Fafá M. Araújo/Divulgação)

Durante a pandemia, Mãe Cotinha estava cumprindo o isolamento social por conta da sua idade avançada. Ela já havia tomado as duas doses da vacina contra a covid-19 e tinha o acompanhamento de duas cuidadoras que também são filhas do terreiro. Além disso, a Ekedi Cida e o Ogan Tinho se privaram do contato externo para poderem estar mais próximos dela. “Íamos sempre na casa dela, ficávamos lá com ela, para ela ter esse contato”, conta a Ekedi.

Cuidadora do Babalorixá
O posto que Mãe Cotinha ocupava tem uma importância fundamental para a religião. A começar porque ele existe somente em casas matriz, ou seja, casas que deram origem a outros terreiros. No candomblé, o Babalorixá do terreiro matriz é o responsável pelos cuidados espirituais de todos os outros Babalorixás. Com isso, ele precisa também de alguém que cuide dele. Essa é a função da Agbá Lagba.

“Ela é o mais próximo de uma divindade pra gente. Ela abdica de todos os prazeres e vive uma vida totalmente voltada para a liturgia”, explica o Baba Egbe Leandro do Ilê Axé Oxumarê. 

Ainda segundo ele, em virtude da sua dedicação espiritual, ela estava lúcida mesmo com a idade avançada. “Sempre orientando a comunidade, disseminando o conhecimento para a comunidade, pegando no pé dos mais jovens e orientando a todos”, lembra.

Agora, o posto pode ficar vago durante sete anos. “Dentro desses sete anos, uma das anciãs será indicada para assumir esse posto pela própria divindade, Oxumarê”, destaca a Ekedi Cida de Nanã. 

Ela lembra da relação da religião com os mais velhos como um dos ensinamentos básicos para quem é filho de santo. “Em virtude da experiência de vida e dos conhecimentos, eles são para nós a garantia do aprendizado, para que haja continuidade da nossa religiosidade. São os reguladores da ordem: os mais velhos orientam os mais jovens, impõem os limites, reforçam a importância do respeito”, diz a Ekedi. 

Essa importância de Mãe Cotinha foi marcada com o Prêmio Luíza Mahin que homenageia mulheres negras, recebido em 2017, em celebração às suas conquistas. 

Em postagem no Instagram, o Coletivo de Entidades Negras lamentou a morte da Agbá Lagba da Casa de Oxumarê.

“Perdemos, portanto, uma biblioteca viva, alguém que sempre preservou as histórias do terreiro e do candomblé da Bahia com a sabedoria de quem entendia sua função especial no mundo. Perdemos também o cuidado daquela que sempre entendeu o verdadeiro significado da palavra ‘mãe’ e que cuidou de tantos filhos e tantas filhas em quase um século de vida e axé”, pontuou a entidade. 
 

Fonte: Correio