Covid: Vacinados deixam de reportar efeitos colaterais por falta de orientação

Todas as vacinas contra a Covid-19 disponíveis no país podem causar efeitos colaterais como febre, calafrios, dores no corpo e mal-estar, conforme suas próprias bulas. E, mesmo que sejam comuns e não ofereçam risco maior à saúde, eles precisam ser notificados, por orientação do Ministério da Saúde, já que os imunizantes são novos e seguem em estudo. Em Belo Horizonte, foram informados 3.600 eventos adversos entre janeiro e maio, quase 0,3% das 1.215.504 doses aplicadas, segundo a prefeitura, mas pode ter havido subnotificação, uma vez que vacinados dizem não ter relatado seus sintomas por falta de orientação nos postos. 

“Tomei a vacina de manhã, e à tarde comecei a sentir fadiga e o corpo pesado. Tive febre e dor de cabeça e, à noite, não consegui fazer nada, mas estava melhor no dia seguinte. Meus colegas sentiram isso também, então fiquei tranquila”, conta a estudante de medicina Victória Costa, 23. 

Para a escrivã aposentada Rosilane Cardoso, 58, a situação se repetiu: “Senti febre e o corpo ruim, e no dia seguinte piorou e fiquei mais quietinha. A enfermeira que aplicou a vacina disse que poderia sentir uma dorzinha e tomar uma dipirona, mas não disse que era para eu comunicar isso”, relata. 

Leves

Os eventos adversos são quaisquer sintomas indesejados depois da vacinação e não necessariamente estão relacionados a ela. Segundo a PBH, “a maioria absoluta” dos efeitos adversos notificados são leves. A notificação deve ser feita em uma unidade de saúde ou pelo sistema online da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o VigiMed, que pode ser acessado pelo próprio vacinado. A prefeitura afirma que os agentes de saúde são treinados para orientar os cidadãos e que vai reforçar essa medida com as equipes.

Para a vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações e membro do Grupo Consultivo da Vaccine Safety Net da OMS Isabella Ballalai, a falta de notificações consistentes é antiga no país. “Quando se fala em notificação de efeitos adversos agora, as pessoas pensam que a vacina é perigosa. Mas precisamos saber sobre os efeitos, independentemente de serem graves ou não, para termos mais dados sobre as vacinas”, diz. 

“A vigilância de eventos adversos pode detectar qualquer problema ou eventos raros que não aparecem nos estudos clínicos”, detalha epidemiologista e consultor científico de vacinas do Hermes Pardini, José Ribeiro.

As vacinas seguem na fase 4 dos estudos, de imunização em massa. Nas etapas anteriores, segurança e eficácia já foram comprovadas. A continuidade dos estudos não quer dizer que seja arriscado se imunizar, pois todas as vacinas foram aprovadas pela Anvisa.

Escolha

Todas as vacinas contra qualquer doença podem causar efeitos colaterais. Em BH, profissionais de saúde contam que, devido a relatos sobre reações após a AstraZeneca, descritas na bula e passageiras, algumas pessoas têm tentado escolher o imunizante que receberão. 

“Algumas pessoas desistem de se vacinar quando sabem que a vacina é da AstraZeneca. A melhor é que está no braço, mas as pessoas ficam no disse que disse sobre reações. Explicamos melhor, e a maioria acaba tomando a vacina”, conta uma técnica em enfermagem. “Tem gente que, quando vê que não é a da Pfizer, vai embora. Fico horrorizada”, conta outra enfermeira.

Memória curta

O professor da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Flávio Fonseca, explica que é esperado que vacinas que utilizam tecnologia similar à da opção da AstraZeneca causem reações, mas isso não significa que elas não sejam seguras e muito menos que possam causar Covid-19. Ainda segundo ele, as pessoas se esquecem que há efeitos colaterais em vacinas usadas há anos em todo o mundo. 

“Todas as vacinas que utilizam vírus vivos causam reações, mas estamos acostumados a vacinar grupos pequenos ou na infância com elas, e as pessoas têm a memória um pouco curta sobre isso. A vacina de febre amarela, por exemplo, dá febre e dor de cabeça, como a tríplice viral. Hoje, todo mundo virou ‘sommelier de vacina’ e quer saber a origem dela. Acho isso natural e importante em uma população bem informada, mas não pode criar pânico sem necessidade”, diz. 

 

 

 

 

Fonte: Agencia Brasil