Recuperado da Covid-19, técnico de vôlei Renan Dal Zotto diz que se viu morto

Medalhista olímpico como jogador de vôlei em busca de repetir esse feito na posição de técnico, Renan Dal Zotto comemorou outras conquistas nas últimas semanas: acordar, sentar, andar com desenvoltura e comer gelatina estão entre elas.

Tarefas que seriam banais caso o treinador da seleção brasileira masculina não tivesse pegado Covid-19 em abril e desenvolvido uma forma gravíssima da doença. Ele ficou internado de 16 de abril a 21 de maio.

Renan, de 60 anos, conta em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo os momentos mais tensos que passou no hospital, por exemplo as vezes em que se viu morto, e comemora a evolução física desde que teve alta.

Após receber a segunda dose da vacina, nesta terça-feira (8), ele não vê a hora de voltar a trabalhar com os jogadores brasileiros, atualmente comandados pelo auxiliar Carlos Schwanke na disputa da Liga das Nações (VNL), na Itália. A seleção voltará ao Brasil no fim de junho e embarcará no mês seguinte para os Jogos Olímpicos de Tóquio, com início marcado para 23 de julho.

Da doença à recuperação

Meu primeiro sintoma [da Covid-19] foi em Saquarema [no centro de treinamento da CBV], com febre, aí já fiquei isolado. Minha esposa, Annalisa, foi me buscar. Veio de Floripa de madrugada, alugou um carro, me pegou, e viemos para o Rio. Comecei a passar muito mal e fui para o hospital.

Até ali, estava consciente. Lembro que no dia 17 [de abril] comecei a reclamar, dizendo que não estava confortável. Dia 18 foi a última mensagem que mandei para ela, dizendo que não aguentava mais, que ela falasse com os médicos, que se tivesse que intubar, então intubasse, mas eu queria acabar com aquela angústia, não suportava mais estar ali. Depois, não me lembro de mais nada.

Agora vou contar o que eu sei, não o que eu senti. A primeira grande decisão dos médicos, e agradeço muito a eles, era a amputação ou não da perna, porque deu uma trombose muito grande na altura da virilha da perna esquerda. Eles chegaram à conclusão de que eu não resistiria a essa cirurgia. Resolveram então abrir tudo, suturar, colocar telas e redes para segurar todas as outras tromboses que vieram a surgir no meio do caminho. Mas essa da virilha que foi a grande. Dia 19, fui operado, dia 25, fui extubado, até ali estava indo tudo indo bem, mas surgiu uma febre muito alta.

Dia 26, fui intubado novamente e descobriram que era uma bactéria extremamente forte [a causa da febre]. Baixava, aumentava, até que, dia 5, já estável, fiz a traqueostomia. Foi quando comecei a acordar, só que sem voz.

Sempre tive uma superprodução de cera no ouvido e, de três em três meses, vou no otorrino para limpar. Acordei sem escutar nada também. Talvez tenha havido uma superprodução. Quando acordei estavam meus dois filhos, Gianluca e Enzo, e minha esposa. Eu tentava dizer que não escutava nada, mas não conseguia falar. Comecei a soletrar, me deram o celular para escrever, mas eu não conseguia mexer os dedos, não tinha o menor movimento. Comecei [faz o movimento das sílabas com a boca]: o – tor – ri -no. Aí veio um e pá [resolveu o problema]. Caramba, estou escutando, já foi a primeira grande vitória [risos].

Volta dos movimentos

Colocaram um aparelho pra eu começar a falar, e começou o processo de recuperação física. Vinham os fisioterapeutas três vezes por dia, disseram que era muito importante conseguir sentar para depois levantar e caminhar. A primeira vez que tentei sentar, rodou tudo e deitei de novo. Começou uma dor muito forte na altura da costela. Eu falei: não vou conseguir, o ar não entrava. Tive que fazer uma intervenção bem dolorida, mas que mudou a minha vida, para tirar o ar que entrou na pleura [pneumotórax].

Em dois dias, estava zerado de dor. Consegui sentar, levantar e logo em seguida dar os primeiros passos. Foi uma vitória incrível. Mas, antes de eu fazer isso, chegou a passar na minha cabeça que eu nunca mais sairia da cama. Falava: ‘Cara, não tenho condições físicas de sair, fiquei sequelado’. Não conseguia me mexer de um lado para o outro. Ficava chateado, tenso, chorava. Até me perguntavam: ‘Você pensava na Olimpíada?’. Naquele momento, juro que não pensava em nada, só na minha família e que queria sair daquela cama.

Tinha medo de dormir, porque não sabia quanto tempo ficaria de novo apagado. Pedi que sempre houvesse alguém da família comigo. Em nenhum minuto fiquei sozinho e quase não dormia, eles sofreram nas minhas mãos.

Saí do hospital de cadeira de rodas e oxigênio. Comecei a fazer tratamento numa clínica com profissionais especializados em pós-Covid e recuperação cardiorrespiratória. Tem um teste em uma pista em que você tem que andar durante seis minutos. Andei 40 metros em seis minutos. Andei 20 e tive que sentar para buscar força. Aí vi, caramba, estou bem atrás [risos].

Mas foi impressionante a melhora que começou a acontecer no dia a dia. Muita gente pergunta: ‘Por que você sobreviveu e tantas pessoas morreram?’. Não vou saber dizer. Acho que um somatório de coisas: uma equipe médica extremamente competente, um pouco de sorte, minha condição física e meu modo de vida ajudaram também. Acredito demais que essa corrente de fé me trouxe de volta.

Hoje [terça, dia 8] fiz de novo esse exame de seis minutos e andei o máximo que dava ali, mil e poucos metros. Comecei a trotar, estou subindo escada, dirigindo carro, tomando banho em pé. Ainda preciso melhorar algumas coisas. Perdi mais de 20 kg, muito quadríceps, peitoral, braço. Isso quero readquirir, mas tenho tempo suficiente agora. Meu sonho é, que quando os garotos voltarem da VNL, eu esteja lá em Saquarema próximo do meu 100% para voltar às atividades.

Morto duas vezes

Acordei muito assustado porque, nesse período em que eu estava apagado, tinha a convicção de que tinha morrido. Pelo menos por dois momentos eu vivenciei isso.

Falei com o Radamés Lattari [vice-presidente da CBV, intubado um pouco antes de Renan], e a primeira coisa que ele viu eu vi também: luzes diversas, pontinhos coloridos, uma coisa muito louca que confundia a cabeça. E de repente eu vi meu pai do meu lado, minha mãe, vi muito a minha avó [Maria Eva]. Eu tinha uma afinidade grande com ela. Estava jogando no exterior quando ela faleceu e não consegui chegar a tempo no enterro.

Aí vi uma matéria na televisão dizendo que eu tinha falecido, deixado esposa e dois filhos. Aquilo me impressionou e falei: estou morto. Acreditei naquilo. Mas ao mesmo tempo eu sentia minha esposa segurando minha mão o tempo todo. Depois vim a saber que, quando estava em coma, não mais na área de Covid, ela estava lá direto segurando minha mão, falando o tempo todo, colocando músicas que temos em comum.

Na outra vez, eu saí do meu corpo e me vi todo amarrado, sem conseguir me mexer. E tem explicação. Quando eu estava intubado, estava com os braços amarrados. Muito punk isso, né?

A partir do dia 8, começaram a ceder com os medicamentos e toda essa loucura começou a acabar na minha cabeça. Ficaram só as dificuldades físicas, de se recuperar, começar a comer. A primeira vez que o cara me deu gelatina na boca, pensei que estava comendo caviar. Falei: ‘Meu Deus do céu, que coisa maravilhosa’. Disseram: ‘Renan, tem que ser devagarzinho’. ‘O quê? Vou matar esse pote aí, cara.’

Nunca na minha vida tinha ficado mais de 24 horas sem falar com a minha esposa. E, cara, fiquei quase um mês. Meus filhos tentavam levar uma vida normal, mas de uma hora para outra começavam a chorar. Dói muito mesmo não o que passei, mas o que fiz as pessoas que amo passarem.

Pensamento na Olimpíada

Quando vi que poderia ter alta, que estava melhorando, veio a questão da Olimpíada. Agora meu foco é aquilo ali. Vou melhorar, quero ficar bem porque tenho um grande compromisso. Mas o mais incrível é que, quando acordei, não tinha a mínima noção de que tinha passado um mês.

Não tiro isso [Olimpíada] da minha cabeça, estou assistindo à VNL, em contato diário com todos eles. E, hoje, virou um objetivo enorme, apesar de saber que temos várias seleções com condições de vitória, como Rússia, EUA, França, Itália, Polônia. A Argentina é extremamente perigosa, o Irã. A seleção do Japão é a melhor dos últimos 15 anos. Sei da pressão que é. Vamos chegar na melhor condição, dar o nosso máximo. O nosso grande sonho é uma medalha olímpica, de preferência de ouro.

No primeiro contato com o grupo [por vídeo], me aplaudiram. Comecei a falar com eles, o Bruninho até disse: “P…, está dando migué, poderia vir aqui”. Foi muito bacana. Adoraria estar na Itália com eles, mas estou observando bastante porque vou ter quer tomar uma decisão importante [de cortes]. Só 12 vão à Olimpíada, infelizmente.

Olimpíada na pandemia

O mais importante é que não teremos contato com público algum, nem mesmo com familiares. Os protocolos na Vila Olímpica são extremantes rigorosos. Temos uma bateria incrível de testes para fazer até lá. Vai ser realizada de uma maneira brilhante por eles, porque o Japão, quando quer fazer uma competição bacana, é muito rigoroso. Claro que a gente fica atento, alguns jogam de máscara, alguns tiveram Covid, mas todos vão sair daqui vacinados com as duas doses.

Fonte: Agencia Brasil